Galandum Galundaina e o planalto mirandês

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Da esquerda para a direita: Paulo Preto, Alexandre Meirinhos, Paulo Meirinhos e Manuel Meirinhos

Sem querer, fizeram-se embaixadores deste "enclave" transmontano, "árido, rígido, altaneiro" que fala através de sanfonas, cântaros, flautas pastoris, tamboris, gaita mirandesa. Cresceram num mundo antigo, encontraram-se no Porto e fizeram da lléngua uma língua franca no circuito musical. Com os Galandum Galundaina percorremos o planalto mirandês e ouvimos a sua voz profunda e festiva. Andreia Marques Pereira (texto)e Adriano Miranda (fotos)

No Facebook, um convite: "Sábado bamos a comer ua posta a Miranda i a botar uas gaitadas?". E não precisamos de falar mirandês para entendê-lo. O sábado é em Fevereiro, em Miranda do Douro celebram-se os "Sabores Mirandeses", sendo que pela primeira vez estes "sabores" chegam dos três concelhos deste planalto mirandês: a afamada posta, fumeiro, queijo, doçaria regional. Porém, não só de paladares se fazem e se fizeram os "Sabores Mirandeses" - também de artesanato local, música tradicional e, claro, lléngua mirandesa. São sabores que são a montra de uma região de identidade vincada e cultura forte.

Dificilmente haveria cenário mais propício para um encontro com os Galandum Galundaina. Mais do que o grupo musical que pôs os sons das terras de Miranda nos ouvidos do país e um pouco por todo o mundo, são embaixadores da cultura mirandesa tout court (estão envolvidos em inúmeras associações locais, como a Sartigalhos, ajudam a programar festivais). No pavilhão multiusos de Miranda do Douro, transformado em feira do orgulho mirandês estão, portanto, em casa. São da casa. "Olha o "galandum"", diz alguém, à passagem de Paulo Preto. Ele ri-se e cumprimenta. É o único elemento constante nesta conversa, que são conversas: primeiro em dueto, depois em trio. O quarteto só se junta para as fotos. À noite, vão dar concerto e nós apanhamo-los às voltas com o palco e os ensaios de som; Paulo Meirinhos, outro "galandum", ainda tem de ensaiar o coro das escolas básicas locais, que vai abrir a noite musical - o quarteto completa-se com os seus irmãos, Alexandre e Manuel Meirinhos e estão todos juntos quando cada um pega no seu instrumento (mais correcto será dizer um dos seus instrumentos, já que cada um toca vários) e fazem a música soar num recanto deste planalto. A aridez rochosa exibe-se do lado espanhol, uma divisão cavada pelo rio Douro que corre lá em baixo, oculto pelas fragas, e a catedral de Miranda a tudo preside.

Há uma misteriosa alquimia que se produz neste cenário, com o sol de Inverno a pôr-se no horizonte, quando soa a música dos Galandum, grave, festiva, profunda, tribalista. Dir-se-ia que é a comunhão perfeita, como se a geografia deste terreno, "árido, rígido e altaneiro", descreve-o Manuel Meirinhos, falasse através do rabel, da gaita mirandesa, do bombo, da caixa de guerra. Uma ancestralidade telúrica mexe aqui e está em harmonia com o que vemos, ouvimos, cheiramos. Paulo Preto viaja no tempo. "Por vezes acho que nasci na Idade Média. Na terra de Miranda, a forma de trabalhar, de vestir, de comer manteve-se igual durante séculos." E as músicas que os Galandum tocam, quem as inventou foi o povo, continua. "Há quanto tempo não sei, mas a melodia, a forma, a crítica social vai além do teatro de Gil Vicente", considera. "Digo isto sem qualquer fundamento científico", avisa, "mas o espírito é medieval".

- É a vida. Embalar o bebé, o trabalho no campo...

- O baile, a festa, a alegria, a miséria, a desgraça, a injúria...

- A crítica social...

Agora como antes. "A modernidade chegou aqui muito mais tarde [do que no resto do país]", notam. "Os tractores nos anos 1930..."; "Isso era um ou dois". "Todas as famílias tinham junta de vacas para lavrar", recorda Alexandre Meirinhos. "Em Sendim, havia mais burros, cavalos e mulas do que gente. O normal era cada casa ter três cavalos, duas mulas e um burro", afirma Paulo Preto. Para "lavrar vinhas, pôr batatas..." Animais de trabalho "em terras isoladas, sem rádio, jornais, televisão". Essas foram as suas referências, o "viver esta terra".

- Algumas músicas que tocamos foram criadas nos terrenos em volta de Fonte de Aldeia. Têm a ver com os locais onde eu e os meus irmãos nos movimentávamos em jovens, quando íamos com as vacas para os campos. São lameiros lindíssimos com freixos, erva verde, divididos por paredes de pedra, para os animais não saltarem, diz Paulo Meirinhos.

- E a romaria no Cabeço de Trindade, a festa de Fonte de Aldeia, mas onde os de Sendim também vão. É quase repartido. Fazem-se rondas, anda-se à volta da igreja a dar vivas. Nós também temos a nossa "Ronda da Trindade", acrescenta Paulo Preto.

- O povo de Sendim juntava-se à frente e rodeavam o santuário. "Siga a malta pra diante, siga a malta pra diante", "canta" Manuel Meirinhos.

- E faziam-se ajustes de contas ali. Com gadanhas; depois passou-se a ramos. No cabeço todas as aldeias fazem exibição de força, lembra Alexandre Meirinhos.

Essas e outras histórias se contam nas músicas "galundainas", que foram arranjadas para os ouvidos contemporâneos. Algumas eram muito longas, repetitivas - para danças e para trabalho, "ajudam o movimento". "Temos de montar arranjos para não se apanhar seca. Estamos a dar-lhes um uso para que não foram criadas." Outras têm letras pequenas, vai daí juntam-se várias, quando as melodias permitem o encaixe.

Porque se as terras de Miranda são isoladas, agrestes e duras, também são um planalto, sublinha Manuel Meirinhos. "Vê ao longe." Não há, portanto, diz, "puristas nem extremistas", e os Galandum reflectem-no. A música é tradicional, sim, porque "está ligada ao espaço geográfico", nota Alexandre Meirinhos. Mas não fica (apenas) ligada a esse passado que aqui deambula tão intimamente com presente e constrói os seus futuros. "Pegamos nas melodias e letras, algumas conhecidas, outras não, e fazemos arranjos nossos", explica Paulo Preto. É assim que o tradicional continua vivo, "replicando-se". Às vezes, o resultado é inesperado - veja-se o último álbum, Senhor Galandum (2010), que acabou como uma espécie de crítica ao clero de que só se aperceberam no final.

- Apenas escolhemos as melodias mais bonitas.

- Vamos à fonte, pegamos no que é velho e damos uma roupagem moderna. Pomos a gente de hoje a ouvir [a música] como se [esta] fosse de hoje.

- E a crítica... São coisas que estão erradas, estiveram e estarão. É antigo e actual.

Tanto que facilmente Sérgio Godinho se encaixou no espírito e escreveu uma estrofe na canção Coquelhada marralheira que, entre outras coisas, recorda a vida e morte de um abade de Sendim:

"Fui anterrado no carreiron/ Para ber las fraldas a las mulhieres."

"Dizem que um dia se foi/ Pró inferno passear/ E o funeral a abarrotar."

Tradicional renovado

De certa maneira, esta é a música que os Galandum traziam no seu ADN. Do avô, caixeiro e que além da caixa tocava bombo, os Meirinhos herdaram as primeiras "vivências musicais" - reforçadas com a mãe que os embalava com cantigas tradicionais e que é ajuda na recolha de canções. Houve sempre música, portanto, um pouco como com Paulo Preto. "O meu pai era pauliteiro no grupo dos professores e os ensaios eram quase sempre em minha casa", conta, "o som e as melodias estavam sempre lá, era obrigado a ouvir". E, claro, além destas vivências caseiras todos - ainda que vivendo em aldeias diferentes: os irmãos são de Fonte de Aldeia e Paulo Preto de Sendim - cresceram entre a música tradicional, "era o que havia". Em dia de festa, a alvorada era com gaiteiros, que acordavam a aldeia, havia ainda o peditório, a procissão, os bailaricos. Ainda hoje é assim, eles próprios fazem alvoradas e peditórios.

- As festas são conforme a quantidade de esmolas aos santos: se a festa é pequena, é o gaiteiro que faz tudo.

- Só a gaita enchia todo um terreiro, mesmo os pastores a utilizavam.

Como esse fio condutor nunca se perdeu - graças também, ressalva Paulo Meirinhos, à acção dos pauliteiros -, os instrumentos antigos chegaram até eles, e, através deles, até nós. "A gaita-de-foles não era só daqui, era de todo o país", nota Paulo Preto.

Mas foi aqui que nunca se perdeu. Nesta espécie de "enclave", nota Manuel Meirinhos, entre Portugal e Espanha: de um lado é o Douro que faz a fronteira natural com o país vizinho (com uma pequena "zona seca" pelo meio), do outro são as montanhas que o demarcam do resto do país. "Não havia maneira de haver contaminação", concordam, "e a cultura aqui manteve-se estável por isso". No planalto mirandês, o isolamento proporcionou a sobrevivência de uma "cultura mais pura", continua, que se reflecte nas raças autóctones, sublinha Alexandre Meirinhos, e na língua, apontam todos. O lionês, "a língua que falava D. Afonso Henriques", tem nestas paragens e nas Astúrias ("curiosamente, também encerrada por montanhas") os seus descendentes mais directos, com diferentes variantes.

Não se perdeu a língua ("embora se tenha perdido a oralidade", considera Paulo Meirinhos: quando os barragistas chegaram, nos anos 1950, terá começado o divórcio - "Menosprezavam a maneira de falar local, o mirandês era visto como a língua mal falada, e as pessoas convenceram-se de que não se devia falar assim. Isto mudou recentemente, mas é um esforço cultural mais do que prático"), não se perdeu a gaita-de-foles ("gaita-de-fulhes") nem outros instrumentos tradicionais de que os Galandum são memória viva. "Uma preocupação nossa é que os instrumentos não são convencionais", sublinha Paulo Meirinhos, "e são todos feitos por nós" (excepto a sanfona e as gaitas mirandesas).

Porém, mais uma vez, sem ortodoxias: a tecnologia está aí para ser posta ao serviço do tradicional ("já há aparelhos electrónicos há tanto tempo que eles próprios já são tradicionais", brinca Alexandre Meirinhos). Se Manuel Meirinhos está a tirar um mestrado em música interactiva e design de som também é para usá-lo em proveito dos Galandum, para "dilatar a sonoridade". Afinal, diz, "a música tradicional não se prende nos instrumentos antigos". "Tem mais a ver com técnicas de harmonização. É assim que a música tradicional e erudita vai evoluindo." Dá o exemplo do avô, que morreu nos anos1980, e já tinha um bombo com pedal para o conseguir tocar ao mesmo tempo que a caixa. A caixa e o bombo do avô foram herdados pelos irmãos Meirinhos. Durante algum tempo, utilizaram-nos, agora usam réplicas, parte do produto do trabalho de investigação e construção de instrumentos antigos dos Galandum.

O estudo da música mirandesa foi o elo de união dos Galandum Galundaina. Conheceram-se no Porto, onde estudaram em alturas distintas ("somos de aldeias diferentes e ao ter sete anos de diferença...", comenta Paulo Preto em relação a Paulo Meirinhos, o mais velho dos irmãos), através da música: todos passaram pelo conservatório e Escola Superior de Música e a determinada altura, já Paulo Preto estava de volta a Miranda a tocar, a aprender, com os velhos gaiteiros, descobriram que estavam todos a estudar a música mirandesa, as suas raízes e evolução. O Festival Intercéltico do Porto mostrou-lhes que ela podia ser mais do que o "lá-lá-lá-lá à volta da lareira", abriu-lhes as portas das músicas do mundo e da "imensa minoria" que ela atrai. Esta noite estão (mais uma vez) de volta a casa. Sentem-se "mais nervosos" quando tocam aqui, confessa Manuel Meirinhos.

- Todos conhecem as músicas e os mirandeses são muito críticos. Transportamos o peso da cultura e a necessidade provar que somos bons.

- Mas tanto novos como velhos gostam.

- Nos bares, à noite, até há pauliteiros. Há 20 anos isso não acontecia.

Dois vivem no Porto (Alexandre e Manuel), às vezes a música começa pela Internet, mas as raízes nunca fogem. Os Galandum Galundaina reacenderam o orgulho mirandês na sua cultura - e ensinam o que é ser "galante" (galandum) e "boémio" (galundaina).

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