A espátula é uma arma nas mãos da brigada anti-grafitti do Porto

Projecto Por um Porto mais Limpo fez ontem a quarta investida nas ruas do Porto, a remover cartazes e a apagar tags e grafitti

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A iniciativa resulta de uma parceria entre câmara, a Federação Académica do Porto e a U. Lusófona ADRIANO MIRANDA

"A câmara assume a despesa?", perguntava, desconfiado, o homem que metia a cabeça de fora da porta do armazém.

Os cinco funcionários da Câmara do Porto, que ontem, acompanhados por cerca de 30 voluntários da Universidade Lusófona (UL), se preparavam para limpar os grafitti dos vidros sobre a porta do armazém, não contavam com esta. Lá explicaram que estavam a limpar fachadas, no âmbito do projecto Por um Porto mais Limpo, e que a remoção dos tags não ia custar nada ao dono da casa. "Ainda bem, porque senão tinha que falar com o meu patrão", respondeu o empregado, aliviado.

Quando a "equipa anti-grafitti e cartazes" chegou à Rua das Galerias de Paris, às 10h, o movimento era quase nulo, como habitualmente nas manhãs de quinta-feira. Os homens da câmara tinham vestidos coletes de identificação onde se lia "Manutenção" e, ao descarregarem o material das carrinhas, alertavam, de forma efusiva, que iam vedar o passeio à circulação dos peões: duas grades de madeira, ligadas por uma fita de sinalização vermelha, trataram disso.

Empregado num dos cafés das "Galerias", Manuel Pereira, de 61 anos, também ficou surpreendido com a entrada em cena daquela brigada. Apesar de ver a iniciativa com bons olhos - "manter a rua limpa" é uma boa causa -, parecia não dar muito pelo sucesso da intervenção, a médio prazo. "Amanhã vão colar outros cartazes", lamentava. E pedia "fiscalização", para prevenir reincidências.

Os primeiros cinco estudantes voluntários vinham cheios de energia. Apressaram-se a calçar as luvas, a carregar latas de tinta e diluente e começaram a arrancar cartazes e flyers das paredes. Primeiro à mão, depois com ajuda de espátulas, em luta com as réstias de papel colado mais renitentes. Do outro lado da rua, alguns "doutores" assistiam aos trabalhos dos colegas caloiros. As camisolas e o hino que entoavam a pulmões abertos identificavam-nos como alunos da UL.

A brigada da câmara que declarou guerra aos grafitti está na rua desde Novembro e conta com a ajuda de 50 a 80 voluntários, em cada investida. Ontem, porém, o estado do tempo e a greve nos transportes públicos fizeram diminuir a adesão, explicava Eduardo Ribeiro, vice-presidente da associação de estudantes da UL. Todos os custos associados ao projecto Por um Porto mais Limpo - uma parceria entre câmara, Federação Académica do Porto e UL - são suportados pelo município.

Joana Soares, adjunta do vereador com o pelouro do Ambiente, escusou-se a falar de números, mas admitiu que o investimento é "elevado", até porque as "reincidências" obrigam a segundas intervenções. Acrescentou que as zonas das intervenções são escolhidas em função quer dos "pedidos de munícipes" quer do nível de degradação do espaço público. Depois das ruas de Júlio Dinis, Miguel Bombarda e Santa Catarina, esta foi a quarta zona a ser limpa. Mas não deverá ser a última.

Entreaberta, a porta traseira da carrinha de apoio deixava à vista tintas, pincéis e vassouras. Os escadotes estavam a uso, com alunos empoleirados para chegarem aos sítios mais inacessíveis das fachadas. Eduardo, de 21 anos, lutava com um tag, desenhado com uma tinta roxa que não se deixava apagar. "Os grafitti são um tipo de arte, mas deviam existir locais próprios", comentou, numa das pausas.

Joana Soares desenvolveu a ideia de que o inimigo não são tanto os graffiti, mas a forma como estes desrespeitam o espaço público. "Se nos chegar algum projecto para grafitar, os serviços responderão", de acordo com as circunstâncias concretas. Entre rajadas de vento, o trabalho da brigada começou a ganhar expressão. As paredes estavam limpas e o saco de lixo cheio. Ontem, a brigada ganhou a batalha. Mas não teve ninguém a aplaudi-la.