Imprensa internacional noticia morte de Chávez com foco na sucessão

A imprensa internacional nas suas edições online ou versões impressas desta quarta-feira dá grande destaque à morte do Presidente venezuelano.

Foto
Colombiana lê sobre a morte do Presidente venezuelano AFP

Nos Estados Unidos, o New York Times no seu site dedica vários artigos à morte de Chávez, dizendo que o Presidente deixa um país dividido e numa crise profunda, salientando ainda os bloqueios vividos com os Estados Unidos e atribuindo a esse facto alguns dos problemas do atraso no desenvolvimento venezuelano. Quanto à sua personalidade, são destacadas as aptidões oratórias e os ataques audazes, bem como a capacidade de ter feito com que os mais pobres se sentissem ouvidos. Num artigo de opinião de Rory Carroll – autor do livro Comandante: a Venezuela de Hugo Chávez, editado pela Penguin, e correspondente do Guardian –, o líder venezuelano é acusado de ter sido sobretudo um mau gestor, dizendo que os seus fracassos prejudicaram mais o país do que a sua própria ideologia, que também é condenada. O autor critica sobretudo a corrupção, a política de preços do país e as falhas das infra-estruturas, nomeadamente as viárias e as redes energéticas com falhas permanentes.

Já o Huffington Post faz o título na sua edição com “A vida depois de Hugo” e adianta que após o anúncio da morte do Presidente muitos venezuelanos saíram à rua e, com medo do futuro, tentaram armazenar água e comida para o caso de acontecer uma revolução. Destaca-se também o reforço de segurança no país e a incerteza, apesar de os chavistas estarem há muito a planear a sucessão, visto que a situação de saúde de Chávez desde Dezembro que permanecia envolta em grande mistério e incerteza.

Por seu lado, o Washington Post descreve que o soldado que chegou a sonhar com a revolução acabou por ser líder de uma das maiores potências mundiais do petróleo e refere a sua cruzada contra a influência dos Estados Unidos. O jornal escreve que Chávez sempre gerou sentimentos controversos, criando grandes paixões mas também reacções opostas, deixando um país dividido e numa “profunda crise institucional”.

No Reino Unido, a BBC diz que Chávez morreu após uma luta contra o cancro e apresenta dois perfis de possíveis sucessores interinos: Nicolás Maduro e Diosdado Cabello. Refere também o legado económico do líder da Venezuela e fala num país que mudou com os seus mandatos, em alguns pontos para melhor, noutros para pior, e que agora se teme o futuro de um país dividido.

Já o Guardian, além do obituário, apresenta um artigo de opinião onde se entende que a morte de Chávez pode representar uma oportunidade de começar do zero para os Estados Unidos e a América Latina. Questiona-se também quem poderá ser o sucessor e salienta-se que o Presidente deixa um legado “envenenado” a quem o substitua, já que o país está dividido e empobrecido e o risco de protestos é grande.

Em Espanha, o diário El País faz título com a morte de Hugo Chávez e apresenta vários artigos sobre o tema na sua edição online. Num deles, é referido que “a esquerda da América Latina fica órfã sem o comandante” e diz-se que a morte do Presidente da Venezuela terá também efeitos em países como Cuba, com que mantinha uma estreita relação e onde foi inclusivamente tratado desde que lhe foi diagnosticado um cancro no Verão de 2011.

O El País levanta várias questões, como o que representa o fim da era Chávez para os regimes autoritários daquela zona do globo e se há o risco de Cuba sofrer uma crise de reabastecimento ou uma nova crise migratória. “Poderão os seus sucessores em Caracas cobrir o vazio que deixa o seu carisma?”, questiona o diário espanhol. O editorial também é dedicado à morte de Chávez, defendendo que o fim da sua liderança representa um virar de página para a Venezuela contemporânea e permitirá que algumas das facções chavistas que ficaram adormecidas até agora com o carisma do líder despertem, apontando-se o vice-presidente, Nicolás Maduro, como o sucessor natural.

Já o diário El Mundo, além dos pormenores relacionados com o anúncio da morte, funeral e convocação de eleições no prazo de 30 dias, adianta que “o chavismo manobra para que Maduro presida até às novas eleições” e faz um perfil do comandante intitulado “Santo e Satanás”, onde diz que Chávez se sentia um profeta de Bolívar e irmão de Fidel. Escreve ainda que o Presidente foi visto por muitos como um “herói movido por impulsos humanitários” e por outros como “um ditador sedento de poder”. Quanto ao futuro, um artigo alerta para os efeitos que a morte poderá ter em Cuba e para as complicações de uma transição num país “minado pela violência e empobrecido por uma economia colectivista”.

Em França, o Le Figaro dá especial destaque à personalidade do Presidente venezuelano. “Hugo Chávez, o fim de um provocador”, diz a manchete do site, acrescentando-se que adorava cultivar a sua imagem de “dirigente incontrolável, fantástico e imprevisível”. O diário diz ainda que o país está em choque com a sua morte, tendo saído para as ruas em movimentos espontâneos, e refere que a mudança trará sempre uma nova cara para a Venezuela.

O Le Monde descreve o percurso de Chávez de militar a Presidente e diz que, se entre os opositores foi considerado um autocrata, a verdade é que também suscitou grandes paixões depois de chegar ao poder. O jornal recupera algumas da suas declarações marcantes e descreve-o como a figura do socialismo latino-americano.

Na Venezuela, o El Universal apresenta uma fotografia de Chávez com um fundo negro, plasmando o luto nacional e percorre os vários momentos da vida de um homem que “entrou na história”, descreve como nasceu o mito e como a doença se manifestou com uma simples dor de joelho. Em termos de reacções, o jornal destaca a necessidade de uma transição tranquila e apela à paz no país, sublinhando que a história está apenas a começar e que esta é uma oportunidade de abrir um novo capítulo no chavismo e de amadurecer algumas reformas.

O El Mundo da Venezuela utiliza um laço negro no seu logótipo para assinalar o luto e escreve que com a morte do Presidente termina uma era no país. São também apresentadas duas fotogalerias, uma sobre a fé e devoção de Chávez desde que lhe foi diagnosticada a doença e outra sobre a estreita relação com Fidel Castro. O título da edição impressa diz que “Começa o chavismo sem Chávez” e um artigo considera que a morte do líder abre um vazio na esquerda da América Latina e questiona se será possível manter a sua “generosidade” na distribuição de petróleo naquela zona.

O El Nacional, também publicado a partir de Caracas, dá conta de um país a chorar a morte de Chávez e descreve-o como “o homem que quis mudar o mundo” de forma irreverente e com uma campanha anti-imperialista em relação aos Estados Unidos.

Os jornais da América do Sul também dão destaque à morte de Hugo Chávez, recordando a vida e as “frases polémicas” do Presidente venezuelano e centrando as suas análises na sucessão, descreve a Lusa. O Clarín, da Argentina, destaca “como será a sucessão presidencial”, explicando que devem ser convocadas eleições num período de 30 dias. O jornal sublinha ainda que a Venezuela foi “blindada” por um forte dispositivo de segurança.

No Brasil, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo destacam as declarações do Presidente dos EUA, Barack Obama, que considerou que a morte de Chávez abre “um novo capítulo” na história da Venezuela. Os dois jornais têm já nas suas páginas na Internet perfis de Nicolás Maduro. Segundo a Folha de São Paulo, o “Governo brasileiro aposta na eleição de Maduro para suceder Chávez”, enquanto o Estado de São Paulo considera o vice-presidente da Venezuela “o herdeiro leal e pragmático do chavismo no país”.

O El Tiempo, que se publica em Bogotá, analisa “a economia sob o Governo de Hugo Chávez” e “o chavismo depois de Chávez”. “Apesar da doença, das recaídas, do reconhecimento da fragilidade cada vez mais evidente do líder, o chavismo não se preparou nem foi preparado para se ver ao espelho sem o rosto de Hugo Chávez como máximo guia”, escreve o jornal. A “Venezuela vive horas de angústia: o que acontecerá agora na Venezuela sem Chávez?”, questiona o El Comercio, do Equador, que cita a Constituição venezuelana para explicar o processo de sucessão presidencial.

El Mercurio, de Santiago do Chile, diz que Chávez foi “o herdeiro perdido de Fidel” e que o vice-presidente, Nicolás Maduro, “deverá assumir a responsabilidade de prosseguir a revolução bolivariana”. Todos os sites dos maiores jornais dos países vizinhos da Venezuela incluem dossiers sobre Chávez e sobre a história do país nos últimos 14 anos, o tempo em que o Presidente esteve à frente dos destinos do país.