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Cardeais querem conhecer conclusões de investigação ao escândalo Vatileaks

O acesso ao documento que o diário italiano La Repubblica alegou estar na origem da renúncia do Papa Bento XVI foi debatido na reunião do colégio cardinalício.

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O cardeal italiano Renato Martino é um dos que participam no conclave Tony Gentile/REUTERS

Um grupo de cardeais exigiu conhecer as conclusões da investigação encomendada por Bento XVI à fuga de informação de documentos secretos do Vaticano, conhecida como "Vatileaks", antes do início do conclave destinado a eleger o novo Papa.

Na primeira reunião preparatória do colégio cardinalício, destinada a acertar a data do conclave, o relatório originado pelo Vatileaks foi motivo de debate. Sem outros comentários, o porta-voz do Vaticano considerou “normal” o desejo dos cardeais de se inteirarem da “situação” – Federico Lombardi nada disse sobre se o pedido de acesso ao documento produzido por uma comissão de três cardeais da confiança de Bento XVI seria atendido ou não.

O presidente da Conferência Episcopal do Brasil, Raymundo Damasceno, foi um dos que exprimiram publicamente o seu desagrado na segunda-feira com a reserva do relatório que será transmitido por Bento XVI ao seu sucessor. “Por que é que os cardeais, que são os conselheiros mais próximos do Papa, não podem ter acesso a esse documento?”, questionou.

Damasceno, que é o arcebispo de Aparecida, falava em nome dos cinco cardeais brasileiros que participarão no conclave da Capela Sistina, no Vaticano. “Por que é que ainda não nos entregaram esse documento secreto? Eu quero conhecer o seu conteúdo. Todos os cardeais querem”, confirmou o cardeal de Salvador da Bahia, Geraldo Majella Agnelo.

Outros dirigentes eclesiásticos citados pela Reuters reforçaram a mesma tese, considerando que o conhecimento prévio do teor e extensão dos “males” da Igreja é “indispensável” para que possam decidir sobre o “perfil mais adequado” para responder aos desafios e necessidades da Igreja. “Se quisermos tomar uma boa decisão, teremos de ter alguma informação”, defendeu o sul-africano Wilfrid Napier.

Um cardeal que não foi identificado, mas que já não tem direito de voto (tem mais de 80 anos), disse àquela agência que a eleição do futuro pontífice deveria ter em conta a “verdade sobre o que sucede na Santa Sé”.

“Alguns membros do colégio cardinalício que estão interessados em obter informações sobre a situação da Cúria e da Igreja, no geral, pedirão aos irmãos para serem informados”, respondeu Federico Lombardi, supostamente referindo-se a Julián Herranz, Josef Tomko e Salvatore De Giorgi, os três autores do relatório (e que não participam no conclave).

O documento assumiu especial importância depois do diário italiano La Repubblica ter associado a renúncia do Papa às conclusões do relatório de 300 páginas, que, segundo avançou, identificava uma teia difusa de interesses e grupos de lobby – incluindo um alegado lobby gay – no seio do Vaticano.

O jornal dizia ainda que o relato dos três cardeais traçava um quadro de luta de poder, corrupção e chantagem na hierarquia eclesiástica.
 

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