Número de hipertensos controlados quadruplicou numa década

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A hipertensão arterial é uma doença crónica, mas pode ser reversível DANIEL ROCHA

Uma parte substancial da população sofre de hipertensão arterial, mas houve melhorias no controlo da doença, entre 2003 e 2012, e o consumo de sal baixou. Os mais jovens ainda ignoram a patologia

Na última década, foi notável a evolução no controlo e no tratamento da hipertensão arterial em Portugal, doença que afecta mais de 40% da população. A percentagem de hipertensos com a doença controlada quadruplicou e agora só um quarto dos doentes continua por tratar, quando em 2003 a proporção dos que estavam medicados era apenas um terço do total. Também o consumo diário de sal diminuiu. Em síntese, estas são as principais boas notícias do estudo PHYSA - Portuguese Hypertension and Salt Study, realizado em 2012 pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) em conjunto com a Universidade Fernando Pessoa e que ontem foi apresentado no 7.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global, em Vilamoura.

Se a prevalência da hipertensão continua muito elevada na população residente em Portugal continental (42,2% sofre da doença), mantendo-se praticamente ao mesmo nível do último estudo, realizado em 2003 (42,1%), os especialistas preferem destacar os passos dados em apenas dez anos. A percentagem de doentes em tratamento (medicados) passou de 38,9% para 74,9%, já para não falar no enorme salto conseguido no controlo da doença (casos em que a medicação é eficaz). A pressão arterial média também é inferior à observada em 2003, baixou de 13,8 para 12,7 - os valores ideais são 120/80 mm Hg (milímetros de mercúrio), acima de 140/90mmHg está-se numa situação de hipertensão.

"Tudo tem vindo a melhorar, estamos ao nível dos melhores países", conclui o presidente da SPH, Fernando Pinto, para quem agora é "preciso não deixar estragar" estes resultados. Mas há uma conclusão do estudo que preocupa o cardiologista. Ao contrário do que seria de esperar, é na população mais jovem (menos de 35 anos) que o desconhecimento da doença é maior, tal como o nível de tratamento. Um resultado que merece um alerta porque é justamente até esta idade que é possível prevenir a patologia, explica Luís Martins, cardiologista e um dos coordenadores deste estudo. "De uma maneira geral, a partir dos 65 anos apenas podemos retardar a morte e, entre os 35 e os 64, [o que] podemos [é fazer] regredir a doença", explica. Se nada for feito entretanto, avisa, muitos "vão ficar incapacitados".

Outra conclusão curiosa é a de que a prevalência de hipertensão arterial não é igual em todo o território. No Alentejo, é mais elevada, atingindo metade da população, enquanto no Norte é consideravelmente mais baixa (39,1%). "Aumenta à medida que nos vamos deslocando para sul", descreve Fernando Pinto.

Os motivos que justificam estas diferenças regionais vão ter que ser analisados no futuro, até porque um dos factores que contribuem para a hipertensão arterial é o consumo excessivo de sal e o Norte é líder neste problema (ver infografia). O estudo incluiu a análise do consumo de sal e também aqui há boas e más notícias: apesar de ter diminuído (é agora de 10,7 gramas por dia, em média, contra 12 g/dia, em 2005), ainda continua a ser quase o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (5,5 g/dia).

Luís Martins não deixa, mesmo assim, de destacar a importância desta diminuição. "Apesar de pequena, é uma redução significativa, dado que grande parte dos países levou cerca de 20 anos a conseguir este tipo de evolução, como é o caso da Finlândia ou da Inglaterra", nota. "Estamos no bom caminho, mas precisamos de ir mais longe e para isso precisamos do contributo dos políticos", acrescenta o cardiologista, que lembra que a SPH não defende medidas punitivas, mas sim mais informação. "A lei do sal não foi suficientemente regulamentada. Ficamos apenas pelo sal no pão", lamenta. "Demos um passo, mas a maratona ainda está no início", corrobora Fernando Pinto. Os especialistas pretendem que a rotulagem dos alimentos permita identificar de uma forma fácil a percentagem de sal, utilizando-se, por exemplo, as cores dos semáforos (vermelho, amarelo e verde).

A hipertensão arterial é uma doença crónica, mas pode ser reversível. A maior parte dos doentes toma medicamentos, mas há casos em que é possível controlar a hipertensão só com alterações de estilo de vida. O que passa por redução e manutenção do peso ideal, exercício físico pelo menos três vezes por semana (entre 50 e 60 minutos), redução da ingestão de álcool e, sobretudo, diminuição de sal. "Mas como é que se mudam estilos de vida numa altura em que as pessoas só podem comer "porcarias"?", pergunta Luís Martins, que teme que a crise afecte os bons resultados obtidos (ver caixa).

A amostra deste estudo realizado em 2012 foi constituída por 3720 pessoas, estratificadas por sexo, grupo etário e região, sendo, assim, representativa da realidade de Portugal continental. Além de medições múltiplas da pressão arterial efectuadas por investigadores treinados para o efeito, foi feito o cálculo do consumo de sal pelo doseamento de sódio na urina de 24 horas em mais de 3 mil amostras para se perceber a sua correlação com a hipertensão.