A música do coração que vem do lixo

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Quando Ada (fotografia grande à esquerda) começou a tocar na orquestra de instrumentos reciclados não imaginava como a sua vida iria mudar. À esquerda nesta página, Favio Chávez, director da orquestra; e em baixo ao centro, um apanhador de lixo do bairro Fotos: creative vision foundation

Num aterro sanitário, graças ao ecologista Favio Chávez, nasceu uma orquestra onde latas se transformam em violinos e tubos de plástico em flautas. Tocados por 25 meninos e meninas, serão expostos, em Abril, no maior museu de instrumentos musicais do mundo - ao lado do piano de John Lennon

A vida de Tania Vera, 15 anos, mudou de ritmo quando começou a tocar Mozart num violino emprestado por Favio Chávez, ambientalista e professor de música, que das 1500 toneladas de lixo diariamente despejadas no maior aterro sanitário do Paraguai formou a Orquestra de Instrumentos Reciclados de Cateura. Em Junho, a jovem obteve o seu primeiro documento de identidade: um passaporte para viajar até ao Brasil. "Nunca tinha visto o mar."

Tania é um dos 25 elementos da orquestra que se tornou famosa em todo o mundo quando o vídeo (http://vimeo.com/51890020) de apresentação do documentário Landfill Harmonic foi partilhado nas redes sociais na Internet. "Jamais esperámos esta repercussão", confessa Chávez, em várias conversas que, desde Dezembro, temos mantido por email, telefone, Facebook e Skype. O êxito foi tão grande - até a Dinamarca já pediu assessoria para o Instituto de Recuperação das Crianças Vítimas de Tortura, que ajuda sobreviventes dos conflitos no Ruanda e no Burundi - que o maestro tem planos para criar uma organização governamental.

"Gosto do violino desde que o vi", exulta Tania, num testemunho que Chávez transcreveu, porque ela não tem computador nem telefone. O seu povoado, Cateura, são sete bairros, ao longo do rio que nasce no estado de Mato Grosso e define parte da fronteira entre o Paraguai e o Brasil. A maioria das 2500 famílias sustenta-se separando o lixo para a indústria de reciclagem; e a maior parte enfrenta a toxicodependência, o alcoolismo e a violência doméstica. O pai de Tania é viciado em crack. A mãe é empregada doméstica e a única fonte de subsistência.

Para entender a história de Tania, e as das irmãs Noelia e Ada Ríos e de Ronal Servian, é preciso recuar a Carapeguá, a 83km da capital do Paraguai. Foi aí que Favio Hernan Chávez Morán, nascido há 37 anos, em Buenos Aires, foi viver quando os pais regressaram à pátria, depois de terem ido à procura de melhores empregos na Argentina.

"Vivi em Carapeguá dos 4 aos 29 anos", diz Chávez. "Aprendi desde pequenino a cantar e a tocar guitarra. Quando o professor de música no colégio se reformou, o director da escola "contratou-me" para ensinar o que eu aprendera aos meus colegas, incluindo os mais velhos, até que chegasse um substituto. Eu tinha 12 anos, e senti-me o máximo! A partir dali, ganhei gosto pelo ensino da música e, embora fosse menor, fui escolhido para ser director do coro da Catedral de Carapeguá."

Chávez prossegue: "Tive sorte de aprender imenso com músicos populares, porque tenho um registo de voz muito agudo (sou tenor). Todos me incentivavam a cantar. Em 2002, depois de me inscrever no Conservatório de Assunção, comecei a dar aulas de música aos meninos de Carapeguá e criámos uma pequena orquestra, que ainda existe - vou lá de 15 em 15 dias. Continuo a ser o director mas são agora alguns dos meus antigos alunos que ensinam os mais novos."

"Só consegui tudo isto com o apoio dos meus pais, donos de um supermercado em Carapeguá: todos os meus irmãos seguiram a via do comércio ou finanças - sou a única ovelha negra", explica bem-humorado. Mas porque "não se pode viver só da música", Chávez teve de seguir outras vias profissionais. Em Assunção, onde vive, próximo de Cateura, licenciou-se em Engenharia e Ecologia Humana e em Filosofia. "Em 2006, comecei a trabalhar no aterro como ambientalista, mas desde o início senti o desejo de fazer mais."

Em Cateura, um lugar que o Rio Paraguai inunda a cada 6-8 meses, na região de Bañados Sur, onde vive um milhão de pessoas - os mais pobres entre os pobres - ou metade dos habitantes de Assunção, a missão inicial era "orientar no sentido de uma mais organizada selecção dos resíduos". Desde logo, porém, deu-se conta de que muitas crianças recolhiam lixo e procuravam comida. "Tentei oferecer-lhes uma alternativa, ensinar música, mas os cinco instrumentos que eu tinha não eram suficientes; além disso, não podia deixar que os levassem para casa, e isso causava brigas", recorda o ecologista do Projeto Procicla, ligado ao Banco Interamericano de Desenvolvimento.

"Um dia, encontrei um reciclador, Nicolás Gómez, ou "Cola", e perguntei-lhe se podíamos usar velharias para fazer instrumentos", conta. "Ele encontrou uma bateria abandonada e danificada, e arranjou-a. Como tinha sido carpinteiro, pedi-lhe que me ajudasse a montar um violino - usámos um tubo de plástico e um tacho. O som era bom e avançámos. Com latas fizemos tambores, e velhas chapas de radiografias serviram para membranas; também aproveitamos garfos e outros utensílios de cozinha. "Cola" é o artesão, eu testo o que ele fabrica e aprovo. Hoje, além de violinos, temos guitarras, violas, violoncelos, contrabaixos, flautas, saxofones, clarinetes trompetes e percussão - já perdemos a conta ao que reciclámos."

"Há muitos compradores interessados, mas isto não é um adorno - um violino, no Paraguai, custa mais do que uma casa; os nossos têm pouco valor comercial mas para as crianças representam tudo. É uma causa nobre", orgulha-se Chávez, que só aceitou ceder parte do espólio saído das mãos de "Cola" ao (maior) Museu de Instrumentos Musicais, em Scottsdale (Arizona, EUA). Ficará numa exposição permanente, ao lado de um dos pianos de John Lennon e de guitarras de Eric Clapton. A inauguração está prevista para Abril, e as documentaristas Alejandra Amarilla Nash e Juliana Peñaranda-Loftus planeiam exibir o seu vídeo em Los Angeles, Nova Iorque e outras cidades americanas. Esperam com isso angariar apoios para vários concertos. Até agora, a Orquestra de Cateura foi apenas ao Brasil e à Colômbia, mas os convites para outros países (um festival em Oslo/Noruega está agendado para Setembro), e também algum financiamento (nacional e estrangeiro), começam a chegar.

Acto de coragem

Os instrumentos reciclados são usados para as aulas, agora frequentadas por 75 meninos e meninas. "Os mais novos, de cinco e sete anos, chegaram em Janeiro", informa Chávez. "Vieram sozinhos, sem os pais, num acto de coragem, talvez influenciados pela fama que o vídeo nos deu. Estas crianças são como adultos. Muito cedo são largadas nas ruas ou confinadas a trabalhos domésticos."

O pai de Tânia Vera ainda é "reciclador" no aterro. Ela, que vive numa barraca de madeira junto do rio contaminado, foi uma das primeiras alunas de Chávez, juntamente com as suas irmãs: Jessica, 18 anos, Larissa, 16, e Nicol, 10. "Íamos sempre juntas porque essa foi a condição para podermos sair", conta a violinista. "Foi difícil aprender a tocar porque só podíamos praticar uma a duas vezes por semana e, às vezes, muitos meninos usavam o mesmo instrumento. Os instrumentos reciclados ajudaram-nos a praticar mais porque já podíamos levá-los para casa."

Um dia, Chávez mostrou um violoncelo a Jessica. "Ela gostou muito", lembra Tania. "Fez parte da orquestra até nascer o seu bebé, há dois anos - sou a única das minhas irmãs que não desistiu." Este é um ponto que o maestro faz questão de realçar: "Jessica engravidou aos 15 anos e deixou de tocar, mas Tania, agora no 9º ano, tem planos para frequentar a universidade: ganhou um objectivo. As famílias também se orgulham e organizam. Se uma criança só tem um vestido ou calças sujos ou gastos, há sempre quem empresta outros limpos ou novos; se um pai está demasiado embriagado ou drogado, outros oferecem-se para acompanhar os seus filhos aos concertos, em zonas mais perigosas. Há um sentimento de companheirismo que antes não existia."

Favio Chávez é uma peça fundamental nesta cadeia de solidariedade. "O professor ajudou-nos muito", elogia Tania. "Arranjou trabalho para Jessica numa fábrica de roupas, e deu dinheiro para que ela tivesse o seu bebé. Ele aceitou, a pedido da minha mãe, ser padrinho da minha irmã Nicol, que nunca tinha sido registada. Com ele fui ao Brasil; antes mostrou-nos o filme Rio - e foi lindo conhecer todos aqueles lugares que tínhamos visto no ecrã."

Animação em 3-D, realizado por Carlos Saldanha, brasileiro radicado nos EUA, o filme aborda o problema do tráfico de fauna amazónica para os EUA, não admirando o fascínio que exerceu sobre os miúdos em Cateura. Tania adorou voar até ao Rio e, do que aprendeu a tocar, não hesita em dizer que "Mozart é o mais difícil", embora goste de tudo. "A música é, para mim o mais importante", frisa. "Vou sempre à escola e depois volto para casa, para cuidar das minhas irmãs, cozinhar e cuidar de tudo. A minha mãe e Jessica têm orgulho em que eu faça parte da orquestra, mas nunca podem ver-me. O meu pai continua no aterro, mas já não vive connosco. Gostava muito de ser uma artista profissional, para ajudar a minha mãe e irmãs com o dinheiro que ganhar a tocar violino."

Os sonhos

Na orquestra de instrumentos reciclados, que tem página no Facebook, há uma outra violinista com o mesmo sonho: Ada Ríos, 14 anos. E também ela, exprimindo-se num castelhano quase poético, usando o telemóvel de Chávez, descreveu-nos a aventura no Rio: "Foi uma maravilha estar na cidade maravilhosa, nas praias de Ipanema e Copacabana, com as ondas nos pés, e os pés no Corcovado." Num concerto no Fórum de Empreendedorismo, tocaram tudo, de My Way de Sinatra a Tico-Tico no Fubá de Zequinha de Abreu.

Num dia de aulas, com o maestro a seu lado, Ada exalta: "A orquestra deu sentido à minha vida. Mas quando a minha avó me inscreveu fiquei muito zangada por ela não ter pedido a minha opinião. Hoje, estou grata. O que mais quero é sair do Paraguai, ser reconhecida como uma violinista talentosa."

"Começámos a assistir às aulas de música, há três anos, quando a minha avó, que é recicladora, passou um dia pela escola onde os meninos estavam a tocar", confirma Noelia, a irmã de 12 anos e membro mais jovem da Orquestra de Cateura (escolheu a guitarra). "A minha avó sempre gostou de música e aproximou-se para perguntar quanto teria de pagar. Ao saber que era grátis, registou-nos logo. Quando chegou a casa e nos contou, ficámos furiosas porque nunca pensámos estudar música. A minha mãe também discordou, mas o meu pai ficou encantando e obrigou-nos a assistir à primeira aula."

Seja Beethoven ou Beatles, os acordes que soam dos instrumentos reciclados parecem perfeitos, mas Favio Chávez explica. "Quem conhece música repara logo que o timbre é diferente; os violinos, por exemplo, têm menos volume porque são feitos com metal; o violoncelo já se parece com um mais formal, talvez devido ao material, uma lata de azeite de 30 litros. Tentámos com latas de 20 e 40 litros, e não resultou. Tudo se resume à acústica. A lata é mais opaca do que a madeira." Já em comparação com os instrumentos de sopro fabricados na China, Chávez não hesita em classificá-los de "má qualidade", elogiando os reciclados de Cateura, porque "são de latão, mais grossos e duram mais de três anos."

Voltamos a Noelia. "A minha mãe faz tortilhas em casa, para vender fora, e o meu pai, que era reciclador, também foi inscrito pela minha avó num curso de costura e bordados à máquina; agora é essa a sua profissão", alegra-se. "Porque o meu papá faz muito barulho com a máquina de coser, e a nossa casa só tem uma assoalhada, eu e Ada vamos para a rua praticar. Desde que a orquestra se tornou conhecida, temos tido muitos concertos, com bilhetes pagos - esse dinheiro vai para um fundo que permite ajudar a nossa família. Com parte desse dinheiro, o meu papá comprou materiais para construir um anexo, onde eu e a minha irmã poderemos tocar mais tranquilamente." Ao contrário dos outros meninos da orquestra, ainda não viajou porque é nova e não sabe todo o repertório. "Mas estou a praticar intensamente para que, este ano, também possa sair do país". "Toda a minha família se orgulha de nós", comove-se Noelia, cuja avó continua a ser recicladora. O seu sonho, hoje, é ser célebre como Berta Rojas, "uma das maiores guitarristas do Paraguai".