A Cesária de sempre num álbum totalmente novo

Mãe Carinhosa, disco póstumo, é lançado nesta segunda-feira em todo o mundo. Oiça aqui cinco dos 13 inéditos.

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Cesária Évora em 2004 em Paris AFP

Durante os últimos dois anos da sua vida, depois do AVC num palco australiano em 2008, a cantora cabo-verdiana Cesária Évora fingiu não perceber as proibições médicas do consumo de álcool e tabaco. O médico, justificava-se na presença da sua amiga e tradutora, falava uma língua que ela não percebia. Portanto, não podia cumprir as suas ordens. Assim foi, até que, em Dezembro de 2011, o diabo da morte aprendeu a falar crioulo.

A notícia do desaparecimento não apanhou ninguém de surpresa. Muito menos José "Djô" da Silva. O homem que descobriu Cesária em Lisboa, em 1987, no restaurante cabo-verdiano do cantor Bana e a levou para Paris, sabia que o fim estaria próximo. Cesária também não o ignorava. Tanto assim que o alinhamento do seu primeiro disco póstumo - há material ainda para um segundo - tinha sido discutido e aprovado pela diva da morna. Mãe Carinhosa junta 13 temas gravados nas sessões de estúdio para álbuns anteriores de Cesária, entre Cabo Verde (1997) e Rogamar (2005), e conhece hoje edição mundial.

Mãe Carinhosa era, de certa forma, o plano inevitável, mas também o plano B. Quando a morte encontrou forma de chegar a Cesária, a cantora estava em processo de memorizar as letras para um novo álbum que havia de gravar. O estado de saúde levara-a já a anunciar o abandono dos palcos, mas a vontade de cantar disputava ainda um braço-de-ferro final com as limitações físicas com vista à gravação de um derradeiro disco.

Durante algum tempo, apesar da pressão da editora, Djô não conseguiu colocar Mãe Carinhosa em marcha. "Não estava com coragem de pôr a mão naquilo", confessa ao PÚBLICO. Não se tratava apenas de inventariar todos os temas que a sua discografia dispensara originalmente por excesso de material, mas ainda de alterar um par de coisas que o tempo mandasse - como regravar os coros registados em 1997, quando ainda não havia um coro em Cabo Verde que satisfizesse a produção. Mais do que tudo, faltava ao produtor e aos músicos fecharem-se numa sala a sós com a voz de Cesária. Este travão emocional desbloqueou em Agosto, no culminar de várias homenagens, diz Djô: "Comecei a sentir que o público ainda estava presente. Foi então que senti coragem para mexer, percebi que havia quem estivesse à espera disto".

Depois de peneirado todo o material inédito, as escolhas tentaram respeitar os autores preferidos por Cize (Manuel de Novas e B. Leza), como também era conhecida. De resto, pesou apenas a decisão de refazer alguns temas. Outros houve que ficaram tal como estavam. "O único refeito a 100% [exceptuando, naturalmente, a voz] é Dos Palavras, um tema em espanhol em que havia só voz e guitarra", esclarece o produtor. "Foi uma altura em que descobri que a Cesária cantava em espanhol e temas do Nat King Cole de que gostava. Insisti e gravámos três ou quatro, mas como não íamos usar todos, este ficou de fora". Na altura, percebendo um filão que se lhes apresentava, as editoras que a representavam nos mercados hispânicos esfregaram as mãos de contentamento. Mas Cesária deitou logo água na fervura: "Cantei aqueles porque os conhecia. Não canto mais nenhum porque não falo espanhol". Não se espere, portanto, nenhuma carta fora do baralho em Mãe Carinhosa. As canções que não entraram nas contas dos anteriores álbuns de estúdio mostram-nos a mesma cantora que já conhecíamos. "O disco tem o ambiente dos discos da Cesária", diz Djô. "O forte da Cesária não é inovar, é a emoção que ela tem na voz e que transmite nas gravações". E recorda a frase lapidar com que a cantora arrumava a questão: "Eu sei cantar e é assim".

Embora Cesária soubesse desde sempre que o sucesso planetário era apenas uma questão de tempo, é o encontro com José da Silva em Lisboa que dita o rumo da sua carreira. Nessa altura, garante Djô, em Cabo Verde "ninguém via a música como um trabalho, cantar era malvisto - uma mulher a cantar ainda pior - e os músicos eram não bandidos, mas, pelo menos, gentes da rua". Cesária, em 1987, era já uma cantora soberba, apenas à espera que o mundo arranjasse espaço para ela. Djô, músico emigrado em França desde os 13 anos, arrepiado desde que a ouviu nessas suas férias em Portugal, é o homem que a leva para Paris, onde passa quatro anos a batalhar para se rodear de quem oiça em Cesária o mesmo que ele. "Pode dizer-se que o sucesso da Cesária se deve muito à comunidade cabo-verdiana em França. Usei a comunidade durante esses anos para sobreviver, para nos preparar artisticamente".

Depois, tiveram de vencer a resistência a lançar uma "cantora nova" com a idade de Cesária (tinha então 46 anos) e resolver a contradição entre a música festiva que os cabo-verdianos dela esperavam - "a comunidade queria dançar e tínhamos de fazer música para eles", diz o produtor - e as mornas que seduziam o público das músicas do mundo. O equilíbrio entre essas duas vertentes é descoberto ao terceiro álbum, Mar Azul (1991), "um disco espontâneo, acústico, feito à moda de uma noite de Cabo Verde", que vende 50 mil exemplares e passa a servir de matriz a toda a sua restante discografia. Esse sucesso tem a sua expressão máxima na valorização de um povo. "Os cabo-verdianos nos Estados Unidos deixaram de dizer-se afro-americanos, começaram a reivindicar Cabo Verde. Ia a casa deles e via os artigos da Cesária colados nos frigoríficos. Esse orgulho de ser cabo-verdiano ganhou-se com a Cesária".