Congresso das Alternativas exige saída do Governo e união de toda a esquerda

"Estamos a ser alvo de políticas injustas e inconcebíveis. Trata-se de banditismo", diz Manuel Carvalho da Silva.

A demissão do Governo com a organização de mais manifestações e a união de toda a esquerda parlamentar como solução de futuro. Foi este o apelo que saiu neste domingo da sessão do Congresso Democrático das Alternativas (CDA) realizada no Porto.

“A luta de massas terá os seus efeitos. A manifestação [de sábado] teve um enorme significado. As manifestações têm de se tornar numa arma de pressão política acutilante. Este é um governo de ocupação, mas mesmo esses governos são corridos pelos povos. É urgente derrotar este Governo profundamente anti-democrático”, disse o ex-secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, durante o debate. Carvalho da Silva sugeriu mesmo a “maior ampliação” do “próximo “25 de Abril” e a “convergência mais ampla de toda a esquerda”.

Sob o tema “O País avalia a
Troika”, Carvalho da Silva salientou no debate que “não é a troika que avalia o País”. A troika “não tem qualquer autoridade para avaliar Portugal. É o país que avalia a troika e o enorme retrocesso civilizacional e social que estamos a viver. Estamos a ser alvo de políticas injustas e inconcebíveis. Trata-se de banditismo”, disse cativando o aplauso das centenas de pessoas que encheram o anfiteatro da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, um dia depois da manifestação organizada pelo movimento Que se Lixe a Troika. O sociólogo e investigador considerou ainda que “o Governo já não tem legitimidade porque não representa a maioria da população e não está a governar conforme o plano de governo que apresentou”. Carvalho da Silva lamentou, igualmente, a actuação do Presidente da República, Cavaco Silva. “Estar calado é a melhor forma de manter esta tropa no poder. É um drama para o país ter este Presidente da República num contexto destes”, disse.

No início do debate, Manuela Silva, do CDA, garantiu que o movimento não irá “permitir” que o “Governo destrua o Estado Social que é o melhor que a democracia construiu nas últimas décadas”. Já o economista José Reis considerou que o “país chumbou a troika por incompetência”. Em tom de ironia, garantiu que os técnicos da troika não são “estúpidos” nem “totós” face aos resultados que conseguem. “Não serão antes um conjunto de fanáticos ideológicos?”, questionou para logo a seguir responder: “a troika sabe tudo o que está a fazer. Precisam de nos submeter, de submeter os nossos direitos de trabalho e de embaratecer as nossas posições na economia internacional. É verdade que temos mais exportações, mas temos mais exportações baratinhas”, sublinhou. O economista, que considerou ainda que a troika, “ao serviço dos credores”, está a “proletarizar” o país e a criar um “exército de desempregado”, apelou ao “povo para que chumbe este Governo” e provoque a mudança “pela convergência das políticas de esquerda”. José Reis deixou bem claro que “a crise vence-se com a democracia e com o Estado Social e não contra eles”. A democracia “está em risco”, alertou ainda.

Por seu lado, Jorge Leite, professor jubilado especialista em direito do trabalho, lembrou os “números trágicos do desemprego em Portugal” e criticou o actual contexto “em que as pessoas em grandes necessidades são colocadas em situações de quase escravatura”. Referindo-se ainda à polémica em torno da lei de limitação dos mandatos, considerou um “escândalo” que “até agora nenhum partido tenha proposto a sua clarificação” e defendeu, nessa matéria, a intervenção do Tribunal Constitucional. Jorge Leite acusou também o Governo e a troika de estarem a “aproveitar a crise para prosseguirem objectivos privados” e reforçou a necessidade de criar condições para que “as alternativas de esquerda se unam e se entendam”. Já o professor de economia Carlos Pimenta lamentou o actual momento político e económico que se vive em toda a Europa. “Estávamos habituados a uma Europa que era a referência da solidariedade, mas hoje o que temos é uma Europa com valores esquecidos onde imperam as máfias”, apontou.