Há uma bomba-relógio química na Capela Sistina?

A Capela Sistina, com O Juízo Final ao fundo, preparada para o conclave que elegeu Bento XVI, em 2005
Foto
A Capela Sistina, com O Juízo Final ao fundo, preparada para o conclave que elegeu Bento XVI, em 2005 PIER PAOLO CITO/AP

O debate regressa, 20 anos depois do restauro dos frescos de Miguel Ângelo. Há quem defenda que os materiais usados para os limpar continuam a degradá-los. O chefe da equipa de restauradores diz que isso não passa de um disparate

Restaurar uma obra de arte com 500 anos, sobretudo quando o seu autor é um dos mestres do Renascimento e seguramente um dos maiores artistas de sempre, é polémica garantida. Foi assim com os frescos de Miguel Ângelo na Capela Sistina, cujo restauro terminou há 20 anos. O debate que na altura se instalou entre os especialistas - historiadores de arte, artistas e técnicos de conservação e restauro - está de volta.

Isto porque a delegação britânica do ArtWatch International, um watchdog criado por James Beck (1930-2007), professor de pintura e escultura da renascença italiana na Universidade de Columbia, e composto por peritos em arte e património que tem um papel particularmente activo no acompanhamento de projectos de restauro, decidiu publicar uma série de artigos em que faz a análise dos efeitos da intervenção nos célebres frescos da capela privada do Papa.

Em rigor, o 20.º aniversário do restauro só se cumpre no próximo ano (a intervenção no tecto terminou em 1990, enquanto O Juízo Final, na parede do altar, só ficou concluído quatro anos mais tarde), mas o ArtWatch UK quis tirar partido da proximidade do conclave que irá escolher o cardeal que vai substituir Bento XVI. Em breve, os media internacionais vão voltar a concentrar atenções na capela a que Miguel Ângelo dedicou dez anos da sua vida (pintou o tecto entre 1508 e 1512; e O Juízo Final entre 1535 e 1541) já que, por tradição, é lá que reúne o Colégio Cardinalício encarregue de eleger o líder da Igreja Católica. Mas, será que 20 anos são suficientes para avaliar o impacto do restauro numa obra criada há cinco séculos?

Para o director do ArtWatch UK, Michael Daley, artista e co-autor, com Beck, do livro Art Restoration: The Culture, The Business and The Scandal (John Murray, 1993), é mais do que suficiente. Sobretudo quando a intervenção cometeu "erros grosseiros" como abdicar de uma completa investigação histórica que lhe permitisse determinar com exactidão o número e a profundidade dos restauros anteriores, assim como de uma análise mais detalhada do original de Miguel Ângelo capaz de dissipar dúvidas em relação ao que o artista realmente pintou e às técnicas a que recorreu.

Daley garante que a equipa de restauradores, liderada por Gianluigi Colalucci, à data director do departamento de conservação de pintura do Vaticano, partiu de um pressuposto errado que, ao longo dos 15 anos de intervenção na capela, "danificou de forma irreversível" a obra de Miguel Ângelo: "Os restauradores insistiram sempre que Miguel Ângelo pintara apenas em buon fresco - uma técnica em que a pintura é feita aplicando os pigmentos directamente sobre o gesso ainda molhado. Estes pigmentos entranham-se no gesso (e na própria parede) fazendo com que a pintura seja muito resistente. Isto estava errado", garante o director da ArtWatch UK, num longo e detalhado email em que responde às perguntas do PÚBLICO. "Os pintores tinham de terminar, quase sempre, os seus frescos quando a superfície do gesso estava já seca [a técnica chama-se a secco]", isto porque a superfície de gesso era por regra grande e tornava-se impossível garantir que o tempo de secagem era uniforme.

Os danos irreversíveis que Daley aponta têm a ver, precisamente, com o facto de Colalucci e de os seus restauradores, apoiados por uma enorme equipa de peritos internacionais externos ao Vaticano, terem decidido retirar tudo o que estava pintado a secco, argumentando que seria resultado de acrescentos feitos por restauros anteriores. "Todas as alterações que Miguel Ângelo fez a secco ao seu original foram removidas", o que nem sempre é óbvio porque, por vezes, por baixo desta segunda camada de tinta estava outra aplicada pelo mestre quando o gesso estava ainda húmido, explica. Mas há casos em que esta remoção "expõe situações absurdas, como figuras femininas com dois pés esquerdos, como se de uma pintura cubista se tratasse, ou um calcanhar que deixa de ser arredondado para passar a ser pontiagudo".

Claro que, a 20 metros do chão, tudo isto se torna impossível de ver, admite Daley, "mas está lá" e, para este activista, basta comparar os frescos com uma cópia da época ou com fotografias do início do século XX para identificar as diferenças.

"Miguel Ângelo aplicou sobre o buon fresco camadas transparentes de tinta para criar sombras e ilusões capazes de tornar as figuras mais esculturais. Há drapeados que foram alterados pelo próprio pintor que desapareceram, expondo aquilo que ele nunca quis que víssemos."

A questão das sombras para criar volume é essencial neste mestre do Renascimento, lembra Daley, que acredita que, se pudesse ter recusado a encomenda de Júlio II, Miguel Ângelo provavelmente tê-lo-ia feito - "considerava-se um escultor e não um pintor". Dizem alguns historiadores que o artista terá mesmo chegado a convencer-se de que o pedido do Papa se devia a manobras de bastidores dos seus rivais que, perante uma encomenda que o obrigava a usar o pincel e não o martelo e o escopro, esperavam vê-lo falhar.

Intervenção desnecessária

Colalucci rejeita, como seria de esperar, as críticas da ArtWatch, que o acusa, entre outras coisas, de limpar os frescos com um solvente - o AB57 - criado para intervir em pedra e não em tinta, cujos efeitos estavam ainda pouco estudados na década de 1980, quando o restauro da Sistina começou (1980-1994).

Antes de ser usado na capela, contrapõe este especialista que é autor de várias obras sobre os frescos de Miguel Ângelo, o AB57 era aplicado em frescos há mais de dez anos. Este produto, explica ao PÚBLICO, foi sobretudo usado para retirar a cola animal que cobria a pintura, escurecendo-a, e que fora aplicada, na sua opinião, pelos restauradores dos séculos XVIII e XIX. "Esta limpeza foi feita sem danos nem problemas", garante, porque embora todo o solvente seja perigoso, os riscos diminuem drasticamente quando é manuseado por uma "equipa de técnicos competente e com muita experiência", como a que trabalhou para o Vaticano na Sistina.

A remoção desta cola foi, segundo Charles Hope, historiador de arte e antigo director do prestigiado Warburg Institute, centro de investigação da Universidade de Londres, outro dos erros cometidos pela equipa de Colalucci. Tal como Daley, Hope, autor de vários livros sobre Leonardo da Vinci, Ticiano e outros mestres do Renascimento italiano, acredita que a cola foi aplicada pelo próprio Miguel Ângelo. "O tecto, tal como o vemos hoje, parece muito diferente de outros frescos da Renascença do mesmo período, e até mais tardios. Creio que isto se deve ao facto de, no decorrer do restauro, terem sido retiradas grandes áreas de "cola", que provavelmente terão sido aplicadas por Miguel Ângelo com o objectivo de reduzir o brilho da camada de fresco." O historiador defende, também, que à semelhança de outros pintores seus contemporâneos, é natural que o artista tenha retocado a obra quando o gesso estava já seco. "Acho que o tecto depois do restauro é muito menos impressionante."

Embora reconheçam que os frescos estavam sujos, algo natural para uma obra com 500 anos, Daley e Hope são da opinião de que a intervenção dos anos 1980 e 1990 era desnecessária, já que a pintura não corria risco de desaparecer.

Daley defende, aliás, que o Vaticano só tomou a decisão de avançar com o restauro por "motivos estéticos" - queria os frescos mais brilhantes e atraentes - e que a obra de Miguel Ângelo está hoje mais ameaçada do que nunca. Porquê? Porque o solvente usado fragilizou a camada pictórica. Como? O AB57 "simplesmente devorou tudo o que tinha sido pintado a secco", e mesmo o fresco foi afectado, já que, com a sua superfície muito seca e porosa, o mais natural é que resíduos do solvente se tenham entranhado na parede e que continuem a causar danos, porque são activados pela humidade resultante da respiração dos milhares de pessoas que todos os dias visitam a capela e por outros agentes poluentes que estão no ar.

"O restauro criou uma bomba-relógio química. Ao removerem o que fora pintado a secco, os restauradores expuseram a superfície absorvente do gesso à poluição atmosférica e à humidade pela primeira vez na história."

Ao contrário de Daley, Colalucci defende que "os frescos estão em perfeito estado de conservação" e, embora conceda que haja outros especialistas com opiniões distintas da sua, diz que "alimentar esta polémica é ridículo, uma vez que o tempo provou que os receios do passado não se confirmaram". Nas pinturas da capela, que são cuidadosamente monitorizadas pelos técnicos de conservação dos Museus do Vaticano, "estivemos particularmente atentos para que não restasse nenhum resíduo do solvente, nem na camada pictórica, nem no gesso. E para que nenhum pigmento sofresse com a sua aplicação."

Restauro excepcional

Para Antonio Paolucci, director dos Museus do Vaticano, não há dúvidas de que "o restauro feito nos anos 1980-1990 é hoje considerado excepcional". E se há uma preocupação com os efeitos que o número crescente de visitantes pode ter sobre a obra de Miguel Ângelo - tema que dominou o 500.º aniversário da Capela Sistina, no ano passado -, ela nada tem a ver com o trabalho de Colalucci e da sua equipa, garantiu ao PÚBLICO num breve email. "O número de visitantes quase duplicou nos últimos 20 anos. Hoje temos cinco milhões por ano. Esta grande pressão de públicos cria problemas ambientais relacionados com a circulação do ar e a eliminação de poeiras e poluição." Para lidar com o problema, os técnicos do Vaticano estão a trabalhar num novo sistema de ar-condicionado que, segundo Paolucci, será apresentado em breve.

Esta não é a primeira vez que o Vaticano promete criar um "super-sistema" de ar-condicionado para a Capela Sistina, recorda Michael Daley. "Já sabia que tinha de o fazer há 20 anos e falhou. [...] Agora o Vaticano repete a promessa. Ou não fez nada então, ou fez, mas não resultou."

Daley reconhece que a pressão dos visitantes é um problema sério, mas argumenta que seria menos prejudicial antes do restauro. "O número de visitantes é indefensável em termos ambientais - nenhum sistema de ar-condicionado poderá lidar com o problema sem transformar a capela em algo parecido com a sala de máquinas de um navio. E também é indefensável no que diz respeito ao comportamento, ao barulho, ao desrespeito pela história, pelo significado cultural e pela natureza sagrada daquela que é a capela privada do Papa."

Na imprensa internacional, no final do ano passado, foram muitos os que se manifestaram contra o "circo" que se instalou na capela, cada vez mais longe do silêncio e da intensidade espiritual que Miguel Ângelo procurou criar. O crítico literário Pietro Citati foi uma das vozes mais activas.

Nas páginas do jornal Corriere della Sera, Citati lançou um violento ataque contra as autoridades do Vaticano por tratarem a capela como uma máquina de fazer dinheiro, permitindo que hordas de turistas a invadam todos os dias. Em resposta ao crítico, Paolucci, falou no novo sistema de ventilação e na eventualidade de vir a ter de restringir o número de visitantes, proposta que não está, para já, em cima da mesa.

Para Daley, as declarações de Paolucci são uma admissão de culpa disfarçada. O director dos museus da cidade dos Papas não podia estar mais em desacordo: "O restauro dos frescos da Capela Sistina vai durar os próximos séculos. O problema que estamos a tentar resolver deve-se, precisamente, ao seu enorme sucesso."

Charles Hope, que na fase inicial dos trabalhos no tecto da capela chegou a apoiar a intervenção por acreditar, como a maioria, que tinha sido restaurado no passado variadíssimas vezes, diz não ter dados que lhe permitam garantir que os frescos estão hoje mais ameaçados do que no passado. Mas garante que todo o processo - e a polémica - lhe ensinou muita coisa. Em primeiro lugar, que a investigação histórica nunca é de mais, em segundo, "que aqueles que tomam decisões não devem deixar-se intimidar pelos conservadores-restauradores". "Os frescos da Capela Sistina formam, muito provavelmente, o mais famoso conjunto de pintura do mundo. Sobreviveram bem durante meio milénio e talvez tivesse sido melhor que as autoridades do Vaticano tivessem visto como inevitável que eles revelassem sinais de envelhecimento. Tentar recuperar a aparência que teriam quando foram pintados - algo sobre o qual podemos apenas especular - foi sempre demasiado ambicioso e irrealista."

Michael Daley vai mais longe, dizendo que "o novo Miguel Ângelo" que os partidários do restauro dizem ter ficado a descoberto há 20 anos é pura e simplesmente "uma invenção", nunca existiu. "A história do restauro em arte é uma sucessão de promessas de panaceias técnicas que falharam, regra geral, tal como a do Vaticano vai falhar dentro de algumas décadas. É urgente que se crie na arte o equivalente às políticas europeias para a agricultura: devíamos pagar aos restauradores para não fazerem nada."

P24 O seu Público em -- -- minutos

-/-

Apoiado por BMW
Mais recomendações