Retrato do escritor enquanto reaccionário e comunista utópico

Acaba de editar O Verão de 2012, livro em que reata um percurso interrompido na ficção narrativa. Historiador da arte e da arquitectura, Paulo Varela Gomes faz aqui o diagnóstico do "progresso" do país e do mundo, e discute o lugar que escolheu para assistir ao apocalipse.

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MIGUEL MANSO

Há duas ou três coisas que importa saber acerca de Paulo Varela Gomes, para que esta entrevista, que tem como pretexto o livro de ficção que acaba de editar, O Verão de 2012, possa ser integralmente compreendida. Antes de mais, deve ser dito que, embora muito mais conhecido pela sua obra académica, de historiador da arte e da arquitectura, esta não foi a primeira vez que fez uma incursão na ficção narrativa. Há uma zona de sombra do autor, vinda de há mais de 20 anos, onde se esconde um pseudónimo cheio de evocações: Heliogábalo. Foi com esse nome que publicou Peep Show (Black Sun Editores, 1987) e Encontro à Beira do Arno (Hiena, 1999). Nessa época já tinha lido muito Marx e Lenine, já tinha escrito e discursado muito pela revolução (provavelmente até já estava a entrar na fase do desencantamento), mas também tinha lido Bataille, que neste segundo livro parece ser um dos seus próximos. Deve também ser dito que foi crítico de arquitectura no Expresso e cronista da vida urbana (nomeadamente no PÚBLICO), à maneira de um sociólogo dos fenómenos de superfície. Esta foi a fase do "jovem Paulo Varela Gomes" (assim a designamos por analogia com o "jovem Hegel", ou o "jovem Lukács"), que, na sua fase madura - mas sempre radical e, felizmente, nunca coerente - foi por duas vezes director da Fundação Oriente, em Goa, e foi viver para o campo, a 30 quilómetros de Coimbra, perto de uma aldeia que tem um nome improvável.

O Verão de 2012 é um livro de um escritor relutante. Com várias incursões na escrita literária, mas sempre com muito pudor em reivindicá-la, revê-se nesta categoria?

Gosto dessa classificação porque não tenho nenhum prazer especial em escrever. A palavra "escritor" só se aplica a mim na medida em que toda a vida escrevi: comunicados associativos, textos académicos, textos jornalísticos, etc. Mas não estou à altura do significado mais elevado da palavra "escritor".

Mas há outra questão que me levou falar da atitude de relutância: oscila entre a ideia de que a literatura é uma coisa demasiado elevada, à qual não se acede facilmente, e a ideia de que é algo frívolo porque não tem notas de rodapé.

Não estou de acordo com a segunda parte. Não tenho nenhuma reverência especial pela escrita académica, a não ser como trabalho artesanal, porque dá muito trabalho e custa muito. Quanto à primeira parte: usa-se e abusa-se da palavras "literatura", tal como da palavra "arte". Se eu tivesse no meu percurso alguns livros, daqueles que gosto de ler, aceitaria designar-me como escritor. Ainda por cima, os livros de que gosto, não seria capaz de os escrever. Acho sempre que foram escritos por alguém que não é igual a mim. Por exemplo, um Sebald, para me referir a um escritor contemporâneo. Mas poderia também dizer um Stendhal ou um Thomas Mann. Quem coloca a fasquia a este nível só pode sentir-se desiludido ou relutante.

O seu livro, sendo embora classificável como de ficção, tem também algumas partes mais ensaísticas, de exposição de ideias. São as duas dimensões do escritor?

Isso é verdade, e é uma característica com a qual nem me sinto muito satisfeito. Gostaria que as ideias fossem mais trabalhadas através da palavra literária, de modo a que não se pudesse falar de dois registo e que o entrosamento não tivesse costuras. Por outro lado, a história deste livro explica um pouco porque é que ele é assim: porque andei durante algum tempo a pensar que gostaria de escrever um longo ensaio, sem notas de rodapé, sem remissões bibliográficas, sobre a opinião dos estrangeiros acerca de Portugal até ao século XIX.

O seu livro é muito mais devedor do romance do século XVIII do que do modelo, muito mais canónico, do romance do século XIX.

Sim, deve muito mais ao romance filosófico do século XVIII. Há uma frescura na novelística do século XVIII que me agrada muito. Sou bastante reaccionário, poderia mesmo classificar-me como um comunista reaccionário, no sentido em que não acredito nada no progresso e acho que em muitos aspectos o mundo antigo, o mundo pré-miguelista, tinha coisas muito melhores que o mundo de hoje. Não acredito nada no progresso nem no desenvolvimento nem no crescimento.

Antes de entramos nessas questões ideológicas: o olhar dos estrangeiros sobre Portugal funciona no seu livro como se procurasse a mediação de um olhar antropológico...

Ou mesmo entomológico, ou etológico... Desde pequeno que me sinto muito insatisfeito com este país. A sua história nos últimos séculos entristece, amarfanha. E encontramos no olhar dos estrangeiros uma crueldade que me magoa, mas ajuda a um olhar mais lúcido.

No livro, recorre sobretudo ao olhar do Beckford...

O Beckford tem um olhar muito formalizado, ele precisa do favor da corte de Lisboa. Tem um género de escrita quase diplomático, muito hábil, que lhe permite dizer uma coisa e o seu contrário. Interessou-me o Beckford por causa desta habilidade. Ele nunca é brutal, é muito gentil.

Mas as observações dele sobre Portugal podem ser transferidas para a actualidade?

Não, são muito localizadas no tempo. No século XVIII, o país está num ponto de viragem, em fase de descida no ranking, como se diz agora, para se tornar equiparável a um pais africano.

O livro constrói-se sobretudo em torno do tema da doença: a doença literal do protagonista e a doença como metáfora do estado do país e do mundo. Teve presente a respeitável tradição desta metáfora?

Sim, essa maneira de ver a civilização a partir de uma metáfora orgânica, biológica, foi um pensamento típico do pessimismo cultural das primeiras décadas do século XX. Tal como nessa época, no princípio do século XXI alguma coisa está a funcionar muito mal no mecanismo. No mundo ocidental (ao contrário da energia imensa que vem do chamado Terceiro Mundo) toda a energia se está a extinguir. Olhamos em volta e vemos um organismo a encolher-se sobre si mesmo. Por exemplo, o decréscimo enorme da taxa de natalidade é o reflexo óbvio de um organismo que se encolhe, que não tem nenhum horizonte a não ser a sua progressiva extinção. E podemos ver o mesmo na extinção de uma quantidade de categorias do pensamento, da política, da economia, como se fossem velas de um bolo a apagar-se. E sem que vejamos nenhuma vela a acender-se. Por mais que haja aldrabões que nos vêm dizer que estão a acender velas, o que estão é a provocar incêndios.

Daí a necessidade de fazer "diagnósticos", um exercício que você prossegue...

Pode ser que o pensamento actual não tenha novos meios de diagnóstico, mas a realidade mudou muito. As pessoas pensam ainda de uma maneira muito desfasada das exigências da realidade. Ainda não nos conseguimos habituar a um mundo que é radicalmente diferente do mundo antigo. O mundo burguês, que começou a morrer no século XVIII, acabou. Não sei o que temos, mas sei que há uma enorme desorientação em todos os campos do pensamento. Acho muita piada àqueles comunistas italianos que, depois da queda da União Soviética, chamaram ao seu partido "A Coisa". Nós também não conseguimos ainda pensar bem "a coisa". Aquilo com que consigo sentir-me mais seguro é ainda com as categorias do século XVIII, ou mesmo do século XVII, que me parecem mais sólidas do que tudo isto que se está a dissolver no ar.

A seguir, o século XIX erige o progresso como sua categoria fundamental, contra a qual O Verão de 2012 é quase um manifesto. Se tivermos em conta o seu passado político, temos de admitir que houve uma viragem enorme...

Claro que há uma viragem, mas o optimismo sempre me irritou profundamente. Mas acho que há razões objectivas, mais uma vez, para esta mudança: o facto de eu ter deixado de viver na cidade e também o de ter vivido no chamado "Terceiro Mundo", na Índia. Isso faz com que olhe à minha volta com muito cepticismo em relação à ideia de que as coisas estão melhor e o destino delas é estarem melhor. Elas não têm destino nenhum. No campo percebe-se isso muito bem, como se percebe no Terceiro Mundo - que se a felicidade é uma medida das coisas humanas, como o Saint-Juste exigia, então não estamos a caminhar para a felicidade, mas para outro sítio qualquer. É um logro acreditar que a tecnologia, a ciência e progresso vão resolver todos os problemas. Os problemas dos homens, das mulheres e dos animais são os mesmos e isso percebe-se muito melhor no campo do que na cidade. A cidade é um lugar de ruído, no campo há muito mais silêncio. Por alguma razão os reaccionários de todos os tempos se afastavam do mundo. Quando paramos para pensar, percebemos que o progresso é uma falácia. O único progresso objectivo que existe diz respeito às questões da saúde. Agora, os ocidentais deixaram de crescer e de se multiplicar, mas vivem muito mais tempo. Países cheios de gente velha, sem crianças em lado nenhum, que horror! É um panorama apocalíptico. Eu gosto muito das pessoas, mas detesto a humanidade.

Quem o conhece sabe que, mesmo numa altura em que o seu empenhamento político parecia colocá-lo mais próximo da ideologia do progresso, era para um comunismo nada ortodoxo que tendia.

É verdade. Muito embora eu creia que no próprio Marx o que há é a tentativa de demolir o mundo existente e depois logo se via. Quando se abandonou o "depois logo se vê" e passámos à fase prática de construir um mundo novo, aí as coisas descarrilaram tragicamente.

Talvez as páginas mais marcantes do seu livro sejam aquelas que dedica ao campo. Quem o conheceu quando era profundamente urbano, e até um ilustre representante da vida urbana lisboeta, é levado a pensar numa conversão.

O clique, o momento da revelação, foi a Índia, onde não há - ou não havia - cidades como as entendemos aqui nem campo como o concebemos. Depois de ter estado na Índia alguns meses seguidos, quando desembarquei num aeroporto europeu senti-me profundamente insultado, com vontade de pegar numa arma automática e destruir as montras e os expositores. Não é um insulto à miséria, não, é um insulto à inteligência, é uma exibição ostensiva da estupidez do capitalismo.

No seu livro há a evocação da Troika, a realidade nacional mais imediata como pano de fundo, e um episódio que pode ser lido como um apelo à insurreição...

Um dos meus lados é o da vontade de ter uma arma automática e limpar o sarampo a gente que visivelmente anda a pedi-las; o outro lado é o da adesão àquela frase do Gandhi que diz que "não há nenhuma causa pela qual esteja disposto a matar, embora haja causas pelas quais estou disposto a morrer". Se as pessoas conseguem abafar a sua fúria é certamente por causa do medo. O terror é-lhes imposto e deixa-as incapazes de reagir. Mas isto indigna-me porque houve quem tivesse reagido em condições muito piores. Sinto uma fúria enorme contra esta gente que nos governa e nos governou, considero-os piores do que os salazaristas. As pessoas vivem no engano o tempo todo: porque têm direito a voto e os jornais podem criticar o poder politico julgam que isso lhes dá algum poder soberano. O único poder que têm é o de irem colocar um voto na urna de quatro em quatro anos para fazerem um escolha num horizonte completamente limitado. A maneira suave com que age esta forma de ditadura é repugnante. É preferível a clareza da repressão a esta maneira de nos tirarem a alma, a honra, de fazerem de nós uns farrapos.

É para essa miséria que o seu livro remete constantemente, tal como para a devastação da paisagem. Ao relacionar tão estreitamente a questão estética com a questão ética não receia cair numa forma de puritanismo?

O gosto pelo belo é uma defesa contra o puritanismo, é um grande campo de liberdade, pelo menos para mim. O facto de ter aprendido a ver, que é uma coisa muito rara, tal como ter aprendido a ler, é um despertar para a infinita riqueza do mundo humano e não humano. E isso permite-me dizer, de maneira ingénua, que o mau gosto ganhou. Neste domínio, a democracia foi uma coisa desastrosa. Vivemos num mundo feio, onde as pessoas não têm respeito por nada, a não ser pelo dinheiro que está em cima de tudo. Mas há sítios mais feios do que outros. Em Portugal, a catástrofe aconteceu há menos tempo, mas foi enorme. Bem sei que neste sítio onde vivo, há 30 anos, os miúdos ainda iam descalços para a escola e atravessavam no Inverno os ribeiros a vau. Tenho, pois, de reconhecer que as coisas melhoraram imenso. Mas esses mesmos miúdos que agora têm sapatos e pontes e viadutos não são capazes de ver a fealdade do ambiente em que vivem, nunca leram um único livro, ficam fixados à televisão ou ao ecrã do computador e só vêem lixo. Era inevitável as coisas serem assim? Eu, que sou um comunista utópico, acho que outra coisa é possível. Nada disto acontece por acaso, mas porque há uma mobilização infinita do capital. Neste país, assim que nos deram dinheiro, demos cabo de tudo. E encorajaram-nos a fazer isso. De facto, sou reaccionário.

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