Como os heróis anónimos dos Descobrimentos abriram caminho à ciência moderna

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O primeiro globo terrestre na China (à esquerda); o único manuscrito do matemático português Pedro Nunes que não se perdeu e está em Florença; um atlas de Ptolomeu manuscrito no século XV, com iluminuras (em baixo); na página ao lado, a carta náutica portuguesa mais antiga que se conhece fotos Miguel Manso

A exposição 360º Ciência Descoberta é inaugurada esta sexta-feira em Lisboa. Muitas das peças, incluindo réplicas, vieram de Espanha, Itália, Inglaterra, que contam como as viagens oceânicas dos portugueses e espanhóis abriram as mentes.

O único manuscrito de Pedro Nunes que sobreviveu até aos dias de hoje, nunca antes mostrado em Portugal; a carta náutica portuguesa mais antiga que se conhece; o primeiro globo terrestre na China - tudo isto, e como as grandes navegações marítimas dos portugueses e espanhóis contribuíram para o aparecimento da ciência moderna no século XVII, encontra-se na exposição 360º Ciência Descoberta. Inaugurada hoje às 18h, está aberta ao público a partir de amanhã na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até 2 de Junho.

"Trata-se de uma exposição sobre ciência - não sobre os Descobrimentos em geral", esclarece o comissário, Henrique Leitão, historiador de ciência, no início do catálogo da 360º Ciência Descoberta.

Desfeitas eventuais dúvidas, a narrativa subjacente à exposição é a de como as grandes viagens de exploração do planeta que portugueses e espanhóis fizeram nos séculos XV e XVI - permitindo que o mundo conhecido deixasse de ser local, resumido à Europa e ao Mediterrâneo, e se estendesse a toda a Terra - influenciaram a ciência. E essa abertura geográfica, essa mudança de uma escala local para uma global, alargando-se aos 360º do horizonte, começou por se manifestar nas cartas náuticas.

Henrique Leitão e Joaquim Alves Gaspar, especialista em história da cartografia e consultor da exposição, param diante de uma preciosidade enquanto fazem de guias da exposição: a carta náutica portuguesa mais antiga que chegou até aos nossos dias, produzida em cerca de 1471, e que é da Biblioteca Estense Universitária, em Modena, Itália. Da autoria de um anónimo português, representa as costas ocidentais da Europa e de África, desde França até Lagos, no golfo da Guiné. O Mediterrâneo e o Norte da Europa nem aparecem. Ao lado dela, para se notar bem o salto dado em poucas décadas, está uma reprodução de uma carta náutica de 1439, de Gabriel Vallseca: ainda está centrada no Mediterrâneo.

"Pouco mais de 30 anos depois [da carta de Vallseca], a carta náutica portuguesa não inclui o Mediterrâneo e o que interessa é o Atlântico. São milhares de quilómetros. Esta carta documenta uma mudança extraordinária", sublinha Henrique Leitão, do pólo de Lisboa do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT). "Foi fundamental para apoiar ou documentar a exploração portuguesa ao longo da costa de África. Armando Cortesão [historiador português] conjecturou a data da carta porque os portugueses chegaram a Lagos em 1471", acrescenta Joaquim Alves Gaspar, também do CIUHCT.

Além dessa mudança de perspectiva do Mediterrâneo para o Atlântico, a carta portuguesa tem a particularidade de ter estar escrita ao longo da costa mas do lado terrestre, o que sugere que o lado de fora da linha costeira ficou desimpedido para ser utilizado na navegação. Esse é outro aspecto que a distingue da carta de Vallseca, bastante ilustrada.

A visão medieval do mundo está bem presente no modelo cosmográfico de Ptolomeu, do século II d.C., que foi conhecido na Europa principalmente no século XV - e é assim que esse mundo fechado pode ver-se num atlas de Ptolomeu manuscrito em 1466 por Francesco d"Antonio del Chierico, que também veio da Biblioteca Estense Universitária. África era uma massa de terra intransponível entre o Atlântico e o Índico e este era um mar fechado, como se observa em duas páginas abertas, cheias de iluminuras azuis. "Uma beleza", comenta Henrique Leitão.

Mas essa Terra que desde a Antiguidade se sabia ser uma esfera era altamente conceptualizada e abstracta. Os 360º dos círculos da Terra eram entidades mentais porque o globo terrestre não tinha sido realmente cruzado. "Tudo isso mudou drasticamente com as viagens marítimas do século XV", refere-se no catálogo da exposição.

Se na Europa se sabia que a Terra era redonda, na China não era assim. Por isso, o primeiro globo na China, feito por dois padres jesuítas, o português Manuel Dias e o siciliano Nicolò Longobardo, por volta de 1623, e que incorporou informação cartográfica portuguesa, assume particular relevância. "Para fazer um globo não era preciso um génio. Mas a China não sabia que a Terra era esférica e essa é a primeira representação esférica da Terra", conta Henrique Leitão. "Se só contarmos a história dos génios, tudo isto se perde. A história da ciência tem muito mais." É também uma história feita de heróis anónimos, ainda que nela também pontuem nomes bem conhecidos, como o matemático Pedro Nunes ou o médico Garcia de Orta. E é esse anonimato que também narra o globo da China que agora veio da British Library, em Londres, para a exposição. "Os cartógrafos, os médicos, os marinheiros, os pilotos, todas estas pessoas eram participantes do esforço comum de gerar conhecimento", refere o historiador.

Os exploradores começaram a medir com instrumentos a latitude no mar e as cartas náuticas incorporaram esses conhecimentos. Da Alemanha veio a primeira carta, de 1504, com autoria de Pedro Reinel, que incluiu escalas de latitudes - uma das duas escalas de latitude que tem é para a Terra Nova, explica Joaquim Alves Gaspar. "É uma preciosidade sem preço", considera Henrique Leitão.

Há mesmo uma reprodução de planisfério, feito em 1529 por Diogo Ribeiro (um português que trabalhava para Espanha), que incorpora a representação de instrumentos científicos. Astrolábios, quadrantes... Tal como esta reprodução vinda do Museu Naval de Madrid, há uma outra de um planisfério de Juan de La Cosa que, em 1500, representava a América pela primeira vez - neste caso, as Antilhas, onde Cristóvão Colombo tinha chegado em 1492.

"Uma bomba mental"

Nesta aventura de descobrimento do planeta, Pedro Nunes (1502-1578), considerado o mais importante matemático da história portuguesa, teve um papel importante. Os seus desenvolvimentos matemáticos foram relevantes para a navegação.

Chegaram até nós várias das suas obras impressas, mas os manuscritos perderam-se todos com uma única excepção, na qual estão "importantes desenvolvimentos sobre as propriedades matemáticas da linha de rumo, mais tarde chamada curva loxodrómica", refere a informação na exposição sobre o manuscrito de cerca de 1540.

Descoberto em 1944 na Biblioteca Nacional de Florença, é conhecido por Defensão do tratado da rumação do globo para a arte de navegar e nele Pedro Nunes faz a defesa de um texto seu, que se perdeu, que tinha sido criticado por um bacharel. "É a primeira vez que é mostrado em Portugal", sublinha Henrique Leitão.

Só estas peças? Não, há bastantes mais. Sem que a exposição esteja atulhada de peças, através delas pretende-se viajar desde a Idade Média até ao século XVII e mostrar que há uma outra narrativa até há pouco tempo ignorada sobre a ciência e as descobertas dos portugueses e espanhóis. Que é esta: "Não se pode compreender o surgimento da ciência moderna sem compreender o que se passou [antes] em Portugal e Espanha. Esta exposição aparece no momento em que a historiografia internacional reconhece a importância da ciência ibérica de uma maneira que não reconhecia há 50 anos", diz o historiador.

"Na Idade Média, havia uma presunção enciclopédica, havia a ideia de que se sabia tudo. O mundo medieval é local. Isto vai literalmente explodir no século XVI. Temos pessoas simples a dizer que as enciclopédias estão erradas. Já viu a bomba mental que isto é? Começou na Península Ibérica e propagou-se pela Europa."

O questionamento das verdades e autoridades do passado era mesmo uma questão de vida ou morte, como aconteceu com os atlas de Ptolomeu. Informações erradas podiam resultar em naufrágios.

Apareceram assim pessoas com pouca instrução a fazer medidas de navegação, a recolher informações sobre a descoberta de novas terras, novos animais, novas plantas. Para tal, treinaram-se pessoas que mal sabiam ler e escrever, criou-se literatura técnica que já não estavam em latim e formaram-se profissionais intermédios entre a universidade e os artesãos. "Qualquer marinheiro português ou espanhol sabia tomar medidas, consultar tabelas - esse é o grande contributo ibérico e não se pode ignorar que é importante para o aparecimento da ciência moderna. O homem medieval não fazia isso, só as elites."

Além disso, diz ainda o historiador, havia um optimismo, uma autoconfiança, um deslumbramento, uma curiosidade pelo mundo por parte dos portugueses daqueles tempos. E isso, acrescenta, está expresso em frases de contemporâneos daqueles tempos que valorizavam o saber adquirido directamente e acreditavam que o que não se conhecia naquela altura se conheceria um dia.

Eis algumas frases na exposição: "A verdade tem pés, e anda e nunca morre" - Garcia de Orta dixit, 1563. "O que não sabemos hoje, saberemos amanhã", de novo Garcia de Orta, que estudou as plantas e seus usos farmacêuticos. "Digo que se sabe mais num dia pelos portugueses, do que se sabia em 100 anos pelos romanos", ainda Garcia de Orta. "A experiência é a madre das coisas, por ela saberemos radicalmente a verdade", Duarte Pacheco Pereira, 1506. "Neste deserto se criam aves que se chamam emas, que quando voam não levantam os pés do chão", frei João dos Santos, 1609. Ou ainda "a fruta [manga] é gostosa e suave com doçura e além de prestar para comida serve para medicina", Manuel Godinho de Erédia, 1612.

Tanta autoconfiança traduziu-se por exemplo em livros que dizem como construir os navio; tanto deslumbramento encontra-se em livros sobre plantas e animais exóticos.

Mas alguma coisa se perdeu depois pelo caminho? "Estou de acordo", responde Henrique Leitão. "Os fluxos de dinheiro deslocaram-se para o Norte da Europa e a ciência foi para o Norte da Europa. As instituições de educação na Península Ibérica são muito débeis."

Nesta história não abundam pois vultos da ciência ibérica, não há um Copérnico, um Galileu, um Newton. Mas contá-la passa, pelo menos na exposição, por 300 nomes de heróis, uns mais anónimos do que outros, escritos numa parede.

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