Beppe Grillo ocupa a cena e diz: "Bersani é um morto que fala"

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Comentadores perguntam "o que fazer com Beppe Grillo" e o M5S GIORGIO PEROTTINO/REUTERS

As eleições criaram uma situação de paralisia institucional que afasta todas as saídas "normais". Os partidos movimentam-se num teatro de sombras. Aguarda-se uma iniciativa do Presidente Napolitano

A vida política italiana passou a rodar em torno do comediante Beppe Grillo e do "antipolítico" Movimento 5 Estrelas (M5S), o real vencedor das eleições de 24 e 25 de Fevereiro. As soluções institucionais normais estão bloqueadas. Não há nenhuma maioria governamental em vista. Fazem-se as primeiras manobras de aproximação ou ruptura. De facto, todas as forças políticas aguardam uma iniciativa do Presidente da República, Giorgio Napolitano.

Formalmente, a iniciativa pertence ao Partido Democrático (PD), maioritário na Câmara dos Deputados. Na terça-feira, o seu líder, Pier Luigi Bersani, excluiu um acordo com o Povo da Democracia (PdL), de Silvio Berlusconi, e fez uma proposta de diálogo ao M5S, pedindo a Beppe Grillo que diga o que quer.

O comediante respondeu ontem no seu blogue: "Bersani é um morto que fala" - alusão ao título de um filme de Totò. "Há dias que vem assediando o M5S com propostas indecentes, em vez de se demitir." O seu movimento não votará a confiança a nenhum Governo. Não fará "negociatas". Votará as leis caso a caso, conforme a sua opinião.

Impotência do PD

O PD está confrontado com duas escolhas "impossíveis": formar um Governo minoritário apoiado pelos eleitos do M5S ou resignar-se a uma "grande coligação" com Berlusconi. A opção divide o partido. Um acordo com Berlusconi daria a Grillo mais um grande tema de protesto e o monopólio da oposição. Fazer um Governo minoritário, dependente dos "grillini" no Senado, seria cair numa armadilha que deixaria ao M5S a arbitragem do calendário político e da abertura de crises.

Bersani está enfraquecido pela sua meia vitória - no fundo, uma derrota - e a decisão acabará por passar para as mãos do PR, o "realizador" do filme que se segue. Não se exclui, dada a emergência financeira, a formação de uma "grande coligação" presidida por um independente. Fala-se no antigo primeiro-ministro Giuliano Amato. A sua tarefa seria promover as reformas políticas mais urgentes, a começar pela lei eleitoral. De momento, trata-se de meras especulações.

Um analista do Corriere della Sera frisa que a manobra de aproximação a Grillo será um passo táctico do PD antes de se resignar à "grande coligação". De resto, "Napolitano jamais daria cobertura a um Governo de minoria do PD exposto ao apoio externo dos "grillini"."

A falência dos partidos italianos e o impasse institucional criado pelas eleições custaram à Itália, num só dia e em alta dos juros, 17 mil milhões de euros, constata o diário económico Il Sole 24 Ore. "As chancelarias europeias estão preocupadas, porque é real o perigo de a Itália voltar à borda do abismo e de arrastar o euro no seu drama", escreve La Repubblica. Um responsável económico do PD anunciou a possibilidade de antecipar a data de abertura do parlamento para tranquilizar os mercados: "O aumento do spread poderá vir a custar quatro vezes o valor do IMI de que tanto se falou na campanha eleitoral."

Que fazer do M5S?

As eleições paralisaram o sistema político e resultaram, na expressão de um constitucionalista, numa "catástrofe institucional". A imprensa de ontem reflecte o novo clima.

O La Stampa publica dois grandes editoriais paralelos. O primeiro, assinado pelo politólogo Luca Ricolfi, intitula-se A esquerda que não aprende com os seus erros. O segundo, do analista Luigi La Spina, A direita que não encontra uma alternativa [a Berlusconi].

É uma constatação de falência dos dois pilares do sistema. Um sistema em ruína, que deixou de ser bipolar para dar lugar a "três grandes minorias impotentes", resume o constitucionalista Michele Ainis no Corriere della Sera.

As opiniões mais interessantes resumem-se numa pergunta: que fazer com Beppe Grillo? Durante a campanha, a maioria das opiniões era francamente hostil ao M5S. Perante a sua numerosa bancada parlamentar, surgem as interrogações.

O politólogo Piero Ignazi frisa, na sua coluna no semanário L"Espresso, que estes movimentos depressa se confrontam com uma escolha: a institucionalização ou o desaparecimento. Recorda o efémero movimento "populista" de Pym Fortyun na Holanda, que não sobreviveu ao sucesso eleitoral. Em breve, Grillo será confrontado com escolhas pesadas, como a eleição do Presidente da República. "É a médio prazo que se mede a verdadeira consistência deste tsunami."

Barbara Spinelli, colunista do La Repubblica, vê méritos na acção de Grillo, que representaria a revolta de uma "geração perdida" e denuncia a corrupção e a ineficiência da política. Lembra uma declaração de Grillo ao The Economist: "O meu movimento é um antidetonador, regula o medo." Pensa Spinelli que o M5S poupa a Itália a movimentos de extrema-direita que florescem na Grécia ou na Hungria.

No Corriere della Sera, o historiador Ernesto Galli della Loggia vai mais longe. "Querer mandar para casa uma classe política inteira não será um objectivo político (...) e também um ambicioso programa eleitoral?" Perante uma classe política "fechada na impotência do seu fingido poder", não será este "bufão shakespeareano, na sua loucura, o único capaz de dizer o que os outros não podem dizer?"

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