Papa despede-se dos fiéis, à espera de um outsider capaz de reformar a Igreja

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"Dentro da Cúria consumam-se algumas batalhas nada espirituais", diz o jornalista Paolo Rodari MAX ROSSI/REUTERS

Retrato que emerge dos escândalos exagera a realidade, mas também a reflecte. Sem uma mudança profunda na Cúria, não haverá revolução no Vaticano.

A Praça de São Pedro já está a postos para receber a enchente que nesta quarta-feira ali acorrerá para ver Bento XVI na audiência geral que será o seu último acto público enquanto Papa. Na quinta-feira, deixará o Vaticano para trás e entregará nas mãos de outros a tarefa de transformar a Igreja que ele declarou falível e permeável ao pecado, abalada por "divisões que [lhe] deturpam a essência".

O Vaticano espera pelo menos 200 mil pessoas, o dobro das que assistiram ao Angelus, no domingo. Nas cadeiras cinzentas, dispostas em filas intermináveis, e à volta destas, vão juntar-se crentes comuns, mas também os membros do governo que acompanharam Ratzinger no exercício do seu poder sobre a Igreja, a Cúria Romana, incluindo muitos dos que dentro de alguns dias participarão na escolha do seu sucessor.

"Quando o muro de Berlim caiu, eu disse a alguns amigos que talvez viéssemos a assistir a qualquer coisa de inimaginável nas nossas vidas, que depois da queda do comunismo de Estado assistiríamos com toda a probabilidade ao fim da Igreja Católica como a conhecemos", diz o filósofo Giacomo Marramao numa conversa no seu escritório da Fundação Basso, entre o Panteão e o Senado, numa Roma de palácios que não dista muito do Vaticano.

Marramao pesa as palavras: "O último grande combate da Igreja foi a luta contra o comunismo, que João Paulo II venceu. Agora tem vários inimigos, o consumismo, os mercados, o capitalismo selvagem, mas nunca mais voltou a ter um verdadeiro adversário, uma potência com a qual travar uma luta cultural". Por isso, é chegada a hora de mudar a "função histórica" da Igreja Católica, de a fazer caminhar no sentido "da intensificação da experiência da fé", diz o filósofo. Faz falta "uma inversão da autoridade, é preciso abandonar a autoridade de Roma, das divisões corporativas e dos acordos diplomáticos, e substituí-la pela autoridade dos oprimidos".

Bento XVI, afirma Marramao, soube ler o momento actual e a sua renúncia oferece à Igreja Católica uma oportunidade única de mudança. A renúncia não basta. Para a reforma se concretizar, "é preciso um acto de coragem, um novo Papa que dê um sinal muito forte, uma figura inovadora que não pode ser apenas carismática".

Uma minoria podre
Marramao tem a certeza de que Ratzinger escolheu abandonar em vida a liderança da barca de São Pedro para abrir caminho a esta revolução. Mas não sabe se a Cúria o ouviu. Paolo Rodari, vaticanista do jornal Il Foglio (antes escreveu no La Reppublica e no Il Sole 24 Ore, entre outros), autor de vários livros sobre o Vaticano e sobre Bento XVI, também acredita que atrás da renúncia esteja "a vontade de dar um sinal muito forte a uma Igreja que não conseguiu reformar-se, principalmente a uma Cúria que não quis nem soube auxiliar o Papa na sua governação, nas mudanças que quis pôr em prática".

"A maioria dos que integram a Cúria quer o bem da Igreja, mas há uma minoria que tem outras preocupações. Alguns chegam ao Vaticano e continuam a trabalhar na defesa dos seus próprios interesses. Diria que este é um elemento fisiológico, é natural, vão existir sempre maçãs podres em qualquer governo, a Igreja não é excepção", descreve Rodari.

Se nos fixarmos em algumas das notícias publicadas no último ano, desde o início do Vatileaks, o caso de fuga de documentos que culminou na acusação do mordomo do Papa, Paolo Gabriele, condenado entretanto pelo roubo de correspondência, o retrato que emerge da Cúria romana é o de um ninho infestado nas mãos de grupos de pressão liderados por homens envolvidos em lutas de poder mesquinhas e capazes de tudo para alcançar os seus fins.

Segundo escreveu o jornal La Repubblica a semana passada, um destes grupos de pressão está unido pela sua "orientação sexual" - um lobby homossexual no interior do Vaticano que ameaçava a Igreja por se expor a ameaças de chantagem. Essa revelação, alegadamente contida no Relationem, o relatório fruto da investigação que o Papa ordenou na sequência do Vatileaks, teria sido determinante para Bento XVI abandonar a liderança dos fiéis.

Batalhas nada espirituais
"O relatório dos três cardeais é secreto e vai permanecer assim, pelo que é muito difícil avaliar o quadro que sai destas notícias. Será um retrato romantizado, muito italiano, mas tem uma parte de verdade", diz Rodari. "Não conhecemos o relatório, mas conhecemos os documentos roubados, e esses bastam para mostrar que dentro da Cúria se consumam algumas batalhas nada espirituais. Que existem grupos antagonistas, sensibilidades diferentes, redes políticas até, lideradas por pessoas que se escondem atrás das suas funções religiosas".

Como o cardeal Tarciso Bertone, o poderoso secretário de Estado do Vaticano, e o principal alvo dos documentos trazidos a público com o Vatileaks.

Ali se lê que Bertone condenou um padre ao exílio nos Estados Unidos por este ter exposto a corrupção no Vaticano. Ali se descreve como Bertone terá tentado alargar a sua autoridade a Milão, despedindo o chefe do Instituto Toniolo (a fundação que controla a Universidade Católica da cidade, de onde saíram três dos ministros nomeados por Mario Monti) ou ordenando ao ex-chefe do Banco do Vaticano que comprasse um hospital falido, fundado por um confidente do antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

O banqueiro, Ettore Gotti Tedeschi, recusou investir no hospital depois de consultar as contas (quando o principal contabilista já se tinha suicidado) e descobrir que devia 1,5 mil milhões de euros e que a sua administração era alvo de um inquérito por fraude. Tinha sido Bertone a nomear Gotti Tedeschi e terá sido o cardeal a removê-lo, numa vingança pela desobediência.

Bertone é um dos "grandes eleitores" do conclave que terá início na primeira metade de Março, quando a hierarquia da Igreja, vinda de todo o mundo católico, se encerrar na Capela Sistina até o fumo branco assinalar a eleição de um Papa.

Rodari admite que os cardeais que já estão na Cúria deverão tentar determinar a escolha do sucessor, mas defende que "não é certo que o consigam".

O vaticanista não consegue "ver um candidato com possibilidades de ser eleito entre o chamado partido romano", mas diz que para reformar a Cúria e mudar a Igreja Católica não basta que o próximo Papa não seja de Roma. "Terá de ser um outsider, que venha de longe e que tenha força física e vontade suficiente", sentencia Rodari. Porque "sem uma mudança profunda na Cúria qualquer mudança é muito difícil." A mudança que deseja Marramao, segundo o qual Bento XVI quis "enterrar para sempre o Papa monarca", líder de um governo corrupto e distante dos fiéis, ou outra mais modesta.