Habemus Grillo

As eleições italianas foram uma machadada violentíssima no "consenso da austeridade"

De Berlim a Lisboa, passando por Bruxelas e pelas grandes praças financeiras do continente, a Europa tremeu com os resultados das eleições italianas. O espectro da ingovernabilidade é uma má notícia para o programa de reformas iniciado pelo Governo cessante de Mario Monti, que retirou a Itália e a zona euro do caminho para o abismo. Mas os eleitores transalpinos pensam de outra maneira: chumbaram sem apelo nem agravo a candidatura de Mario Monti e reabilitaram Silvio Berlusconi, o homem que empurrou o país para a crise. Não deram ao centro-esquerda de Pier Luigi Bersani o músculo para governar, mantendo, ainda que num ritmo mais moderado, um programa de reformas próximo do de Monti. Em vez disso, preferiram catapultar o movimento populista de Beppe Grillo.

A eventualidade de surgirem entendimentos pontuais entre Bersani e Grillo era a possibilidade mais concreta para sair do impasse. Mas essa hipótese frágil não permite fechar os olhos ao que aconteceu: os eleitores chumbaram em massa a política de austeridade e esse voto diz respeito a toda a Europa. É evidente que, apoiando as promessas demagógicas de Berlusconi e Grillo, esses eleitores mostraram não ter o sentido da realidade. Mas, seja como for, o resultado destas eleições é uma machadada violentíssima no "consenso da austeridade" que está instituído entre as elites europeias. Ficou claro que, num país-chave da zona euro como é a Itália, esse consenso não existe. E as escolhas futuras da Europa terão que levar esse factor em conta. Não é só em Itália que o descontentamento está a potenciar líderes populistas, porque os partidos tradicionais não têm soluções concretas. Mais do que o receio de que os mercados voltem a abalar o euro, as eleições italianas puseram a descoberto uma crise política europeia. E isso é um assunto muito mais sério do que uma crise financeira.

Sarilho de fardas no horizonte

No PREC de 1975 costumava gritar-se "soldados ao lado do povo" para evitar que o Exército, mobilizado ao sabor de poderes que se entrechocavam, não agisse em desfavor dos que, na rua, faziam o que lhes ditava a fúria do momento. Na maioria dos casos, resultava. Agora, num momento em que o cinto da austeridade aperta também o orçamento das Forças Armadas, estas começaram a mobilizar-se por camadas: primeiro os generais na reserva, depois o Conselho de Chefes de Estado-Maior, por fim os oficiais, sargentos e praças. Todos, em suma. E enquanto as chefias militares, embora críticas e alerta, juram lealdade ao Governo, já os oficiais, sargentos e praças garantem que estão "com os cidadãos de onde emanam" (forma actual de dizer que estão do lado do povo) e admitem "todos os cenários de protesto". Sem se imaginar, ainda, o que quer isto dizer, de uma coisa ninguém duvida: há um sarilho de fardas no horizonte. Passos Coelho terá dado conta?