Meio milénio da história da cidade de Olisipo revelado na Praça D. Luís I

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Os vestígios foram descobertos durante a construção de um parque de estacionamento subterrâneo Rui Gaudêncio

O investigador Carlos Fabião destaca a importância deste achado e avisa que vestígios análogos já foram e continuarão a ser destruídos, enquanto não houver "uma política sistemática de arqueologia preventiva nas frentes ribeirinhas"

A descoberta de uma grade de maré do século XVII, que teria servido de estaleiro de reparação naval ou rampa de lançamento de embarcações, já tinha deixado os arqueólogos impressionados. Mas as escavações em curso na Praça D. Luís I, em Lisboa, acabaram por revelar algo mais: um fundeadouro romano usado pelo menos entre os séculos I a.C. e V d.C., no qual foram encontradas meia centena de ânforas e algumas peças de cerâmica.

"Temos no mínimo meio milénio de história documentado neste fundeadouro", explicou ao PÚBLICO Alexandre Sarrazola, o coordenador dos trabalhos, a cargo da empresa ERA-Arqueologia.

Este local de ancoragem de embarcações da época romana encontrava-se sob a grade de maré (que ocupava uma área de 300 metros quadrados), o que, como sublinha Alexandre Sarrazola, explica que tenha ficado como que selado, resistindo ao maremoto de 1755 e à implantação do Aterro da Boavista no século XIX.

Estes vestígios foram descobertos durante a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, numa área que outrora ficaria a "70, 100 metros da linha da praia fluvial" e na qual, segundo a iconografia antiga, haveria "uma pequena baía, em frente à colina de Santa Catarina, que propiciaria as condições naturais para um fundeadouro", sintetiza o arqueólogo.

Neste local de ancoragem foi ainda encontrada uma madeira, com cerca de nove metros de comprimento, que os técnicos não arriscam por enquanto dizer se teria sido parte de uma estrutura portuária ou de uma embarcação, além das já referidas dezenas de ânforas, cerâmicas utilitárias de uso corrente e cerâmicas finas, ou ainda elementos orgânicos como pinhas (que serviriam para tapar as ânforas) e sementes.

"São ânforas romanas, quase todas produzidas na região, provavelmente na margem sul", diz Jorge Parreira, acrescentando que estes recipientes serviriam para transportar preparados de peixe produzidos em tanques existentes em áreas que hoje correspondem à Rua Augusta ou a Belém.

Além dessas "ânforas locais", foram encontradas, sob a Praça D. Luís I, ao lado do Mercado da Ribeira, outras "quatro ou cinco que viriam de fora, do Norte de África, de Itália e do Sul de Espanha, possivelmente com vinho ou azeite", continua o arqueólogo.

No local já tinham sido descobertos uma escadaria e um paredão do Forte de S. Paulo, construído no século XVII, e vestígios do cais da Casa da Moeda, do século XVIII.

"Este achado reveste-se de uma importância determinante do ponto de vista científico e da história do período romano, particularmente para Lisboa, mas também em sentido lato", salienta Alexandre Sarrazola. O arqueólogo destaca que a presença neste local de materiais importados ao longo de cerca de 500 anos (como cerâmicas de Espanha e de Itália) e de outros destinados à exportação (os preparados de peixe armazenados em ânforas) "dá a dimensão social, económica e política da importância do papel de Olisipo num mundo de facto globalizado".

A escala do Império Romano

O investigador Carlos Fabião, do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa e professor associado da Faculdade de Letras, lembra que "é fundamental compreender o "micro-sítio" Praça D. Luís, articulá-lo, em escala mais ampla, com a cidade de Olisipo, perceber a sua interacção com o território da cidade, integrá-lo na dinâmica da província romana da Lusitânia, enquadrá-lo na escala maior que era o Império Romano".

Questionado sobre a relevância dos vestígios agora revelados, Carlos Fabião considera-os "de grande importância" e "invulgares", "mas não inesperados numa cidade marítima do Império Romano". "Não temos qualquer dúvida de que, à semelhança do que acontece em outras cidades similares, toda a frente ribeirinha de Lisboa estaria (e estará) repleta de vestígios deste tipo. Afortunadamente, neste caso foi possível identificar estes vestígios e será possível estudá-los. Desgraçadamente, em muitos outros casos, vestígios análogos terão sido destruídos sem qualquer registo prévio, e assim continuará a acontecer, se não se estabelecer uma política sistemática de arqueologia preventiva nas antigas frentes ribeirinhas", alerta o investigador especialista no período romano.