É legal agarrar num Banksy e vendê-lo? As autoridades dizem que sim

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Em cima: o espaço deixado em branco pelo obra de Banksy já foi preenchido com novos graffiti. Em baixo: Slave labour foi grafitado pouco antes do Jubileu da Rainha Isabel II, em Junho de 2012 NEIL HALL/Reuters

Há uma semana, Haringey, Londres, perdeu o seu Banksy. O mural reapareceu em Miami, onde ia ser leiloado este sábado. Mas Haringey entrou em protesto. E a leiloeira acabou por cancelar a venda

A população de Haringey, no norte de Londres, rejubilou através da sua líder camarária, Claire Kober: "É um verdadeiro reconhecimento para a comunidade que a sua campanha pareça ter ajudado a impedir a venda desta obra de arte." A obra é Slave labour, que Banksy, o mais famoso autor de street art, de identidade até hoje desconhecida, pintara nas paredes da Whymark Avenue. Desaparecera a 16 de Fevereiro, apenas para reaparecer logo a seguir em Miami como obra em destaque num leilão em que, para além desse stencil, criado pouco antes do Jubileu de Isabel II, se encontrava uma outra obra de Banksy.

A população manifestou-se e exigiu a devolução, o FBI e a Scotland Yard foram postos no terreno e a leiloeira, que recusou desde o início revelar a identidade dos vendedores (confirmou apenas que eram negociantes de arte experientes e que não eram britânicos), defendeu-se alegando a legalidade da operação e o desejo de, através dela, ajudar a salvaguardar as obras para a posteridade. No último momento, porém, recuou. Slave labour deveria ter sido vendido este sábado, mas não foi leiloado. Esperava-se que fosse arrematado por um valor entre os 379 mil e os 530 mil euros e, segundo o Telegraph, chegou a ser alvo de uma oferta inicial de 303 mil euros, antes de ser retirado do leilão. Seguiu-se um comunicado lacónico: "Apesar da inexistência de questões legais envolvendo a venda dos lotes seis e sete de Banksy, a FAAM [Fine Arts Auction Miami] convenceu os expedidores a retirar os lotes do leilão e a recuperar a propriedade das obras."

Todo o processo é sintomático da dificuldade em lidar com um tipo de manifestação artística que só muito recentemente ganhou legitimação institucional. A quem pertence a obra? Aos proprietários do edifício em cujas paredes foi realizada? Ou à comunidade que interage diariamente com ela? E que valor tem, quando retirada do seu contexto natural? Para as autoridades locais de Haringey, que iniciaram a campanha para a recuperação, e para a população local, que se manifestou nas ruas - "Devolvam-nos o nosso Banksy", lia-se em cartazes -, a resposta parece óbvia. "Vamos continuar a explorar todas as possibilidades para trazer o Banksy de volta à comunidade a que pertence", declarou a líder política do município ao Telegraph. Marc Schiller, criador de um site dedicado à street art, o woostercollective.com, defendeu em declarações ao Guardian que o facto de a arte ser pública não deve dar a alguém o direito a retirá-la do seu local original e a vendê-la. "Quando [Banksy] trabalha na rua, está a oferecer o seu trabalho ao público para ser apreciado por um dia, um mês, um ano ou mais. Ele defende que, se retirarem o trabalho do seu contexto, deixa de ser seu, deixa de ser um Banksy." Consequentemente, deixa de ter valor.

Indignados

Esta opinião não é consensual. A FAAM, como já escrevemos, via o leilão como forma de preservar a obra. A Scotland Yard, contactada pelo FBI, bem como o Departamento de Media, Cultura e Desporto britânico, afirmou não existir qualquer vestígio de crime. Tratava-se, afirmaram, de uma venda legítima. Por parte de quem? Os olhares centraram-se na Wood Green Investments, empresa proprietária do edifício em que Slave labour foi grafitado. Aquela respondeu com ambiguidade. "Se negasse ter removido o mural, iria embrulhar-se numa investigação criminal internacional que já envolveu o FBI", declarou o advogado da empresa ao Financial Times. E acrescentou: "Mas se admitissem ter consentido a remoção, iriam ser alvo de abusos." A FAAM passou toda a semana a ser pressionada por admiradores de Banksy e indignados com a venda, e o suíço Frederic Tuth, o seu proprietário, afirmara que temia que a reputação da leiloeira saísse manchada deste processo.

De Banksy, como seria de esperar, não se ouviu qualquer reacção à polémica. Porém, no seu site oficial, na secção Perguntas, surgiu uma nova questão, enquanto a polémica se desenvolvia. "O que pensa da venda de street art por leiloeiras?" Resposta: "Senti-me muito envergonhado quando as minhas telas começaram a alcançar preços elevados, vi-me condenado a um futuro de pintar nada mais que obras-primas." É uma citação do grande impressionista Henri Matisse. E, em redor do espaço vazio deixado por Slave labour, surgiram dois graffiti. De um lado, um aviso: "Perigo: Ladrões". Do outro, uma imagem que alguns atribuem a Banksy. Um rato, figura recorrente no universo do artista, a segurar um cartaz: "Why?" (Porquê?) No lugar deixado vago por Slave l}abour, por sua vez, está a imagem de uma freira com um olho coberto por uma estrela vermelha. A dinâmica de constante renovação da street art a desenvolver-se no exacto lugar da polémica.