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Vaticano recebeu queixa de "actos impróprios" do cardeal da Escócia

Suspeitas sobre principal figura da Igreja Católica na Grã-Bretanha engrossam lista de acusações divulgadas recentemente.

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O cardeal Keith O'Brien é conhecido pelas suas posições contra os homossexuais David Moir/REUTERS

Um cardeal com poder de voto na eleição do novo Papa é acusado de ter praticado "actos impróprios" com quatro jovens seminaristas há mais de 30 anos.

A queixa data da semana anterior ao anúncio de resignação do Papa Bento XVI, mas a notícia só agora chegou à imprensa britânica. Hoje o cardeal Keith O'Brien não assistiu à missa na catedral de Santa Maria, em Edimburgo, que celebrava os oito anos de anos de Joseph Ratzinger como Papa Bento XVI, noticia a BBC.

Segundo o Observer deste domingo, a denúncia partiu de três padres e um ex-padre da Escócia, que se queixam de "actos impróprios" cometidos por um cardeal em fim de carreira mas que faz parte dos que vão participar no conclave para a escolha do sucessor de Bento XVI: o cardeal Keith O’Brien é o mais alto representante da Igreja Católica na Grã-Bretanha.

Numa nota entregue pelos padres das dioceses de St. Andrews e Edimburgo a Antonio Mennini, da Nunciatura Apostólica na Grã-Bretanha, os queixosos exigem a demissão imediata de O’Brien, que dizem ter abusado do poder que lhe conferia a sua posição. Pedem que o cardeal seja impedido de participar no conclave que vai eleger o próximo chefe da Igreja Católica. Se assim não for, sentirão que as suas queixas não foram devidamente atendidas. Querem um conclave “limpo” e virar a página sobre o passado.

Depois de entregues as queixas, receberam resposta do núncio do Papa, através de um representante, dizendo que apreciava a sua coragem.

O'Brien é conhecido pelo seu discurso contra os direitos dos homossexuais – classifica a homossexualidade como imoral e defende que o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode ser “prejudicial para o bem-estar físico, mental e espiritual das pessoas envolvidas”. Mas agora é acusado de ter tido "contactos impróprios" ou "comportamento indesejável" em relação aos jovens seminaristas ou padres depois das orações da noite, segundo o Observer.

Mas na sexta-feira, numa entrevista à BBC, declarara-se surpreendentemente a favor do casamento de padres e da possibilidade de terem filhos. “Para muitos padres foi difícil aceitar a regra do celibato (…), sentiram a necessidade de uma companheira, de uma mulher com quem pudessem casar-se e fundar uma família", disse, acrescentando que o dever de celibato podia ser questionado.

A primeira acusação data de 1980. O queixoso era um jovem seminarista do St. Andrews College, demasiado atemorizado para denunciar os actos daquele que considerava o seu “director espiritual”, conta o Observer. Abandonou a vida de seminarista dizendo que tinha decidido casar, quando O’Brien foi promovido a bispo. “Sabia que ele teria sempre poder sobre mim. Pensou-se que eu tinha desistido de ser padre para casar. Não foi. Fi-lo para preservar a minha integridade", disse ao jornal.

Ainda não é certo como vai reagir o Vaticano a mais este caso. Franceso Lombardi, porta-voz do Vaticano, tem atribuído a proliferação de notícias relativas a escândalos de padres ou bispos, incluindo a denúncia de assédio sexual contra o ex-bispo auxiliar de Lisboa e actual delegado do Conselho Pontificio da Cultura no Vaticano, D. Carlos Azevedo, a “interferências” com o objectivo de perturbar a Igreja e condicionar o conclave que vai eleger o próximo Papa.

O Vaticano não respondeu, por outro lado, aos apelos para impedir o cardeal Roger Mahony, de Los Angeles, de participar na eleição. Mahony é acusado de encobrir abusos sexuais sobre menores durante 25 anos. 

Um grupo de activistas católicos da Califórnia persiste em lembrar a sua responsabilidade nesses casos e a sua impossibilidade de ser um dos religiosos com poderes para eleger o chefe da Igreja. "Seria como dar um passo atrás e validar as velhas práticas", argumentam em defesa de "um novo começo". 

Para isso, entregaram uma petição com mais de dez mil assinaturas a pedir “respeito pelas vítimas, honra para a Igreja e a responsabilização dos líderes” e a não presença de Mahony na grande reunião esperada no Vaticano.
 
 
 

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