Italianos a votos com Bruxelas à espera dos resultados

Sair da crise, dizer “adeus” a Berlusconi e iniciar uma nova época é o que esperam muitos italianos.

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O primeiro-ministro cessante Mario Monti votou em Milão, tal como Berlusconi Stefano Rellandini/REUTERS

Mario Adinolfi ainda é deputado do Partido Democrático (PD), a formação de centro-esquerda que deverá sair vencedora das eleições de hoje e amanhã em Itália. Mas Adinolfi não vai contribuir para essa vitória.

 Nas listas para a Câmara dos Deputados votará Escolha Cívica, o grupo de Mario Monti, o homem que nos últimos 14 meses liderou um governo de “emergência nacional” sem ter ido a votos; para o Senado vota no Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grillo. Mais de 10% dos eleitores deverão votar em partidos diferentes para as duas câmaras do Parlamento – e esse é um dos dados que alimenta a incerteza sobre os resultados.

Um terço dos perto de 50 milhões de eleitores ainda não tinha decidido o seu voto a cinco dias da abertura das urnas. As últimas sondagens, publicadas há duas semanas, antes do arranque oficial da campanha, davam vantagem ao PD (que concorre aliado ao Esquerda, Ecologia e Liberdade, do presidente da região da Apúlia, Nichi Vendola).

Atrás, com cinco a seis por cento menos intenções de votos, surgia o bloco de direita formado pelo Povo da Liberdade (PdL) e pela Liga Norte, liderado uma vez mais pelo sobrevivente Silvio Berlusconi, que em Novembro de 2011 se viu obrigado a afastar-se do poder, entre os receios europeus de que a crise do euro arrastasse a Itália, a realidade da perda da maioria no Parlamento e as acusações de prostituição de menores e abuso de poder – cujo julgamento ainda decorre.

Uma vez mais, o três vezes primeiro-ministro foi dado como morto antes de tempo. Desde que anunciou a intenção de se recandidatar, Berlusconi não parou de subir nas sondagens. Durante a campanha – particular entre outras razões por ter começado com o anúncio da renúncia do Papa Bento XVI, que ocupou o espaço mediático – fez, como habitualmente, promessas impossíveis (como devolver o IMI que Monti cobrou aos italianos em 2012) e alimentou polémicas. Sábado, por exemplo, dia de reflexão, como em Portugal, lançou mais um dos seus ataques contra a magistratura. “Os juízes são piores do que a máfia”, disse.

É muito pouco provável que Berlusconi volte a liderar um governo. Pouco provável mas não impossível. Pier Luigi Bersani deverá vencer as eleições na Câmara dos Deputados mas poderá precisar de uma aliança para controlar o Senado e formar governo.

No Senado, o prémio de maioria previsto pela lei eleitoral para o partido ou bloco mais votado é atribuído região a região. Regiões como a Lombardia, a mais populosa das 20 em que se divide a Itália e, por isso, a que elege mais senadores, podem significar o controlo da câmara alta – e as sondagens davam um empate na Lombardia entre o centro-esquerda de Bersani e o centro-direita de Berlusconi e da Liga.

Monti com o PD
No limite, se Berlusconi controlar o Senado, nada o impede de dizer ao Presidente da República, Giorgio Napolitano, que deseja formar governo. Para isso teria de negociar uma coligação – com a Escolha Cívica de Monti, por exemplo. Monti nunca aceitaria um executivo em que Berlusconi fosse presidente do Conselho, mas o mesmo não é certo caso este se afastasse para dar lugar a Angelino Alfano, secretário-geral do PdL.

Muito mais provável é que seja Bersani a aliar-se aos partidos de centro que apoiam a candidatura de Monti para formar governo. Será a reedição da grande coligação de centro-esquerda à imagem da União com que Romano Prodi venceu as eleições de 2006, desta vez com a esquerda de Vendola (em vez da Refundação Comunista), os católicos de Monti (no lugar da Margarida de Prodi) e o centro-esquerda moderado que é o PD de Bersani.

“Será pouco diferente daquilo que já conhecemos e prevejo que dure pouco”, antecipa Mario Adinolfi. O blogger e jornalista, ex-candidato à liderança do PD e à câmara de Roma (à frente de um grupo de jovens que já em 2001 propunha uma democracia directa via Internet), teme que Bersani se alie apenas a parte do bloco que apoia Monti, aos democratas-cristãos da UCD de Pierferdinando Casini, o veterano político que já foi presidente da Câmara dos Deputados e já garantiu a Berlusconi a maioria para governar.

Romano Prodi só esteve dois anos no governo – dois anos repletos de sobressaltos, com inúmeros votos de confiança e moções de censura, numa tentativa impossível de equilibrar as diferentes tendências que o tinham conduzido ao poder.

De megafone a ciclone
Tudo isto é possível mas há mais. Há o Movimento 5 Estrelas, criado há menos de nada por Beppe Grillo e ao qual as sondagens antecipam 16%. As listas de cidadãos escolhidas através de votações online do comediante (que não é candidato) já surpreenderam no último ano. Venceram quatro câmaras municipais em Maio, incluindo a da grande Parma, e tornaram-se no partido mais votado entre os sicilianos, nas eleições regionais de Outubro. Os políticos e os comentadores costumam chamar “megafone” a Grillo; agora chamam-lhe “ciclone”.

O 5 Estrelas também pode ter uma palavra a dizer no Senado, mas esta é uma das grandes incertezas do pós-sufrágio em Itália. Os parlamentares de Grillo não têm experiência política, são independentes e heterógenos, jovens no país com os mais velhos políticos da Europa. Propõem-se liderar uma “revolução dos cidadãos” quando os partidos tradicionais de centro estão em crise e os movimentos de cidadania proliferam em parte da Europa. É pouco provável que estejam disponíveis para oferecer governabilidade à velha classe política.

Novidades e mau-tempo
Independentemente dos resultados, estas eleições assinalam o início do pós-berlusconismo, 20 anos depois do seu advento. A não ser que se assista a um bloqueio total, num cenário em que ninguém consiga formar governo e novas eleições sejam marcadas para daqui a poucos meses, esta foi provavelmente a última campanha de Berlusconi e poderá ter sido última de toda uma geração – de políticos, de alianças e de maiorias, de equilíbrios.

O momento é especial por isso. E por causa da crise do euro e da Europa. “A estabilidade italiana é uma questão de importância europeia e mundial, como o convite de Barack Obama ao Presidente Giorgio Napolitano [para um encontro no dia 15 na Casa Branca] demonstrou”, diz Giacomo Marramao, professor de Filosofia Política na Universidade Roma 3.

Na Lombardia, o domingo acordou com neve . Neva noutras regiões do país e cai chuva forte noutras tantas. O mau tempo, pouco habitual em eleições legislativas (que se realizam habitualmente em Março ou Abril), ameaça principalmente o PD e o PdL, os partidos com um eleitorado mais envelhecido. A chuva e a neve podem ajudar os dois novos blocos que se apresentam a votos, o de Monti e o de Grillo, ambos capazes de roubar votos à esquerda e à direita. Será preciso esperar pela contagem de todos os votos para perceber que futuro aguarda os italianos.