"Jantares dos generais mostram o falhanço do ministro das Finanças"

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Cerca de duas centenas de altas patentes das Forças Armadas participaram ontem à noite no jantar de contestação aos cortes orçamentais Miguel Manso

Loureiro dos Santos, um dos participantes na iniciativa, critica a acção de Vítor Gaspar. Vê elementos contraditórios nas atitudes do ministro da Defesa José Pedro Aguiar-Branco e receia pelo moral da tropa

Em Lisboa e no Porto, mais de 250 generais na reserva e na reforma debateram na noite passada a situação das Forças Armadas à luz da diminuição de oito mil efectivos e do corte de 218 milhões de euros anunciado pela ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, para 2013 e o próximo ano. "Os jantares dos generais mostram o falhanço do ministro das Finanças", diz ao PÚBLICO o general Loureiro dos Santos, horas antes do encontro.

"O primeiro-ministro tem que se descartar rapidamente do ministro das Finanças, apesar de este ter bons padrinhos internacionais", recomenda o ex-titular da pasta da Defesa nos IV e V governos constitucionais e antigo chefe do Estado-Maior do Exército. "Tudo isto [a iniciativa dos jantares de Lisboa e Porto] mostra o falhanço das Finanças", repete.

"Tenho a noção de que o grande problema que o país tem, e que se reflecte em todas as áreas da governação, é a actuação do ministro das Finanças", constata. "Numa primeira fase, transmitiu confiança, mas quando não cumpriu os objectivos foi um balde de água fria, que arrefeceu ainda mais quando se percebeu que o ministro das Finanças repetiu programas de austeridade sem êxito", lamenta Loureiro dos Santos.

O antigo chefe militar não acredita, deste modo, que haja um móbil directo contra as Forças Armadas: "mas uma inabilidade" de Vítor Gaspar. O anúncio dos cortes de 218 milhões de euros não deixaram de surpreender. "Sei que alguns dos componentes do ciclo de programação estratégica ficaram surpreendidos", admite.

A surpresa aumentou porque o documento com a chancela do Instituto de Defesa Nacional enviado pelo ministro da Defesa às chefias dos ramos militares prevendo cortes e reduções de efectivos foi considerado como uma espécie de sondagem. Admitiu-se, então, ser uma base negocial que Aguiar-Branco usaria com o seu colega Vítor Gaspar. "Afinal não era uma sondagem, embora o ministro da Defesa dê sinais contraditórios, diga que o estudo ainda não está concluído", acentua Loureiro dos Santos.

Tudo isto ocorre quando a proposta do Conceito Estratégico de Defesa Nacional ainda está no Parlamento. A tramitação prevista inclui a sua definição pelo Governo, a partir da qual seriam dadas orientações aos vários sectores implicados, entre os quais a Defesa. O processo concluiria com a elaboração do Conceito Estratégico Militar e a definitiva aplicação concreta. "Afinal, o ministro deu o ciclo de programação estratégico por terminado sem que todos os protagonistas se tivessem pronunciado", lamenta.

"O planeamento concorrente não é compatível com o que se está a passar, pois o sector político já tem o conceito estratégico, e há pouco tempo ainda não estava feito o acerto com as chefias", descreve o ex-ministro da Defesa. A colocação de tectos orçamentais a priori condiciona. E para as altas patentes estão em causa aspectos que distinguem a condição militar: saúde, subsídios, Segurança Social, formação e promoções. "Não sabemos que tipo de forças [militares] vão ser organizadas, se não houver ligação à realidade podem desarticular-se as Forças Armadas", prossegue.

Daí os motivos do debate da noite passada. "É a primeira vez que uma iniciativa deste género acontece, o que tem um certo significado por abranger generais que pertencem a associações, outros que lhes são indiferentes e, ainda, uns que são contra", explica Loureiro dos Santos: "É uma representação maciça."

Em Lisboa, a escassas duas horas do encontro, as marcações apontam para uma participação de mais de 200 altas patentes, entre as quais 13 a 15 generais de quatro estrelas e ex-chefes militares dos ramos. "Já estamos com problema de espaço". No Porto, contabilizam-se 50 participantes.

"Comuniquei a realização deste jantar ao Presidente da República, primeiro-ministro, ministro da Defesa, que foi, aliás, o primeiro a saber, e às chefias militares", relata. Nunca foi tão expressiva uma manifestação pública de desagrado das altas patentes, mas há cerca de um ano já tenham manifestado preocupação pela situação das Forças Armadas. Embora com discrição, os oficiais constatam que o país vive um momento difícil, com ameaça de pré-ruptura social. "Quando umas Forças Armadas motivadas são um factor de segurança da sociedade", precisa um oficial.

Já Loureiro dos Santos é prudente. Mas não esconde um temor: "Receio que o moral das tropas seja afectado."