Figo alega que pequeno-almoço com Sócrates foi para saber futuro do BPN

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"Foi como cidadão que apoiei José Sócrates", assegurou Figo, negando ter recebido qualquer contrapartida em troca Rui Soares

Futebolista nega ter sido pago com dinheiros do Taguspark para apoiar recandidatura do primeiro-ministro socialista em 2009, embora admita que o seu gesto não foi totalmente desinteressado

O pequeno-almoço que Luís Figo tomou com José Sócrates em vésperas das eleições legislativas de 2009 para lhe manifestar o seu apoio pessoal teve afinal para o futebolista um outro objectivo: informar-se sobre o futuro do Banco Português de Negócios (BPN), que lhe tinha ficado a dever dinheiro relativo a um contrato de imagem, e do Banco Privado Português (BPP), de que era cliente.

Quem o admitiu foi o próprio ex-internacional português, que ontem testemunhou em tribunal por videoconferência a partir de Itália no julgamento do caso Taguspark. O objectivo dos juízes é apurarem se o seu apoio ao líder socialista nessa ocasião, e numa entrevista ao Diário Económico também nesse Verão, foi desinteressado ou se, pelo contrário, como suspeita o Ministério Público, o empenhamento político de Figo foi pago com dinheiros públicos - uma vez nesse mesmo Verão o futebolista vendeu direitos de imagem seus ao parque tecnológico de Oeiras Taguspark por 750 mil euros.

A verba visava pagar acções promocionais do parque tecnológico em que participasse o jogador, nomeadamente um vídeo, tendo acabado por não ser paga na íntegra. No banco dos réus sentam-se três antigos administradores do Taguspark. Os socialistas Rui Pedro Soares e João Carlos Silva são, juntamente com Américo Thomati, acusados de corrupção passiva. Já Figo não foi acusado de nada: o desconhecimento de que o parque tecnológico era uma sociedade com capitais públicos fez com que não tivesse sido constituído arguido. "Nessa altura não fazia a mínima ideia de que Rui Pedro Soares estava associado a um partido político", declarou o futebolista. Até ao Verão de 2009, altura em que rebentou este escândalo, Rui Pedro Soares era sobretudo conhecido como dirigente da Portugal Telecom, grupo que detém 6% do Taguspark. O agente do futebolista em Portugal, através do qual foram feitas as negociações para a promoção do parque tecnológico, negou igualmente ter tido conhecimento da filiação política do administrador da PT.

"Foi como cidadão que apoiei José Sócrates", assegurou Figo, negando ter recebido qualquer contrapartida em troca. Não lhe agradaram as primeiras sugestões dos socialistas para manifestar a sua preferência política: "Falaram em eu ir correr com Sócrates, ou em participar num comício. Disse-lhes que isso não queria, preferia uma coisa mais discreta."

Pelo que revelou em tribunal, este não foi, porém, um gesto totalmente desinteressado: "Para mim, era importante ouvi-lo sobre o que ia acontecer no BPN, de quem eu era credor por causa de um contrato de cedência de direitos de imagem que não me pagaram, e no BPP, de que era cliente. A informação que tinha destes assuntos podia tranquilizar-me - ou pôr-me ainda mais nervoso."

"Se me enganei ao apoiá-lo, enganaram-se também milhões de portugueses. Tendo em conta o estado da economia mundial, não sei se é só culpa dele as coisas estarem como estão" em Portugal, justificou-se. Quando o Ministério Público quis explicações sobre o elevado valor do seu contrato com o Taguspark por comparação com os honorários que jogadores como Rui Costa cobravam pelo mesmo tipo de patrocínio, Figo não se atrapalhou: "Cada um zela pela sua imagem."

Ouvido também em tribunal, o administrador da Portugal Telecom Henrique Granadeiro considerou "absolutamente inverosímil" o jogador "vender o seu apoio de uma forma tão primária" como aquela de que é suspeito. Questionado sobre a entrada de Rui Pedro Soares para a administração da Portugal Telecom, Granadeiro não quis deixar dúvidas: "A PT não é uma empresa de cunhas, mas de meritocracia."