Caminhos Ibéricos, um percurso pelo património

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Guimarães, Porto e o Alto Douro Vinhateiro, onde se integram as gravuras do Côa, são a parte portuguesa deste circuito ibérico

Abrangendo os locais classificados pela UNESCO na bacia hidrográfica mais extensa da península, a Rota do Património Mundial Douro/Duero é o primeiro pacote turístico ibérico. Do Porto que anda nas bocas do mundo à Catedral de Burgos, passando pela recatada Ávila e pela bela Segóvia, fomos conhecer os tesouros, monumentais e paisagísticos, que estes dez sítios acolhem.

O que têm em comum as igrejas de Ávila e os socalcos do Douro Vinhateiro? O centro histórico de Guimarães e os cones dourados de Las Médulas? A ribeira portuense e as gravuras rupestres do Côa? Além da beleza das paisagens, da riqueza do património cultural e religioso e da importância histórica, há um rio a unir todos estes lugares.

Não sendo o maior dos rios ibéricos, o Douro é aquele cuja bacia hidrográfica cobre um território mais extenso, ganhando volume com o caudal do Arlanzón, que atravessa Burgos, do Eresma, que circunda Segóvia, do Tormes, que banha Salamanca, e de muitos outros cursos de água. Fortalecido pelas águas destes afluentes, e já com nome próprio, o Duero, ou Douro, foi testemunha de encarniçadas batalhas, banhou fortalezas de ambos os lados da contenda, rasgou escarpas que marcam a fronteira. Em Zamora assistiu à assinatura do tratado que reconheceu a independência de Portugal, em Tordesilhas viu o mundo ser partilhado pelos impérios de então, numa linha imaginária que dividia terras, descobertas e por descobrir.

Mas o que separa também une, e desde a nascente o rio foi estrada, ponte comum entre povos, espelho que reflecte planícies e colinas generosas, onde crescem vinhas e nascem vinhos, dos tintos da região demarcada de Ribera del Duero ao Porto, o mais internacional dos néctares.

Foi com "vontade de ver reconhecido o invulgar potencial patrimonial da Bacia do Douro" que a Fundação Rei Afonso Henriques, instituição Hispano-Portuguesa com sedes em Zamora e em Bragança, lançou a Rota do Património Mundial Douro/Duero, o primeiro pacote turístico ibérico. Trata-se de um dos roteiros "mais importantes da história artística, económica, religiosa e cultural da Península", que pretende levar os viajantes a darem-se conta destes "caminhos privilegiados de troca, de comunicação, de conhecimento e de progresso".

Não é um itinerário com percurso definido, cada um o fará com inteira liberdade: de uma só vez, se para isso tiver tempo e vontade, ou aos poucos, unindo os locais como melhor lhe aprouver. O percurso aqui descrito começa onde o Douro termina, mas qualquer um dos outros lugares é bom para iniciar a partida.

Porto e Guimarães em boa onda

A Invicta não precisa de mais argumentos a seu favor. Dos consumidores europeus, que a elegeram melhor destino europeu em 2012, à recente lista do New York Times, onde foi incluída como um dos locais a visitar em 2013, a cidade tem-se mantido nas bocas do mundo. Para trás ficaram as descrições de um burgo melancólico de becos esconsos, onde o cinzento das paredes graníticas e as brumas constantes se entranhavam na alma das gentes. Agora menciona-se o colorido dos mercados urbanos, o menu de novos restaurantes, a excelência dos hotéis e o acolhimento de alguns dos melhores hostels do planeta. Todos os dias surge algo novo, seja o Bairro dos Livros ou projectos de restauro de edifícios no centro histórico. É precisamente aí que os turistas desembarcam, em demanda da talha dourada da Igreja de São Francisco, do Salão Árabe no Palácio da Bolsa, dos azulejos da Estação de São Bento. Buscando um verdadeiro ouro sobre azul, sobem e descem ruelas labirínticas e escadarias íngremes, encontrando pelo caminho miradouros de cortar a respiração, para voltar a mergulhar na urbe frenética, em direcção à Casa da Música, a Serralves, à Foz desse rio que, cansado, se entrega finalmente aos humores do Atlântico.

Em Guimarães, faz-se o balanço do ano da Capital Europeia da Cultura com um "foi bom, foi muito bom". Há na expressão um misto de nostalgia e orgulho de quem sabe que viveu algo irrepetível. As pessoas mobilizaram-se e o slogan "Eu faço parte" ficou gravado no coração de todos. Enquanto se espera que a dinâmica conseguida ao longo de 2012 se mantenha (este ano a cidade será a Capital Europeia do Desporto), dribla-se a crise com os que agora chegam, alertados pelas notícias que confirmam o centro histórico de Guimarães como o quarto Património da UNESCO mais recomendado do mundo, numa votação levada a cabo pelo site de turismo Tripadvisor.

O castelo é invadido por espanhóis, mas também por franceses, americanos e "gente do sul", a austera Capela de São Miguel enche-se de murmúrios, há filas para comprar bilhete para o Paço dos Duques, quem se deixe fotografar frente à estátua de D. Afonso Henriques. E grupos em visitas guiadas muito depois do sol posto, encaminhados por ruas estreitas em direcção às luzes do Largo da Oliveira. Para lá do renovado Largo do Toural, a Plataforma das Artes e da Criatividade impõe-se como novo destino para exposições e ciclos de cinema, enquanto mais abaixo a Casa da Memória pretende afirmar-se como um baú de recordações, históricas e culturais, para que o passado não seja esquecido, mesmo quando os olhos estão postos no futuro.

Douro, Siega Verde e Côa : pedra, vinho e arte

No Alto Douro Vinhateiro a paisagem está posta em sossego. As vinhas guardam brilhos das últimas chuvas e do rio levanta-se uma névoa fria que mantém, resguardados à lareira, aqueles que trabalham as quintas e cuidam das videiras, para no fim do Verão colherem generosos cachos de uvas. São raros os carros que se cruzam connosco nas estradas ondulantes, nos caminhos para se fazerem sem pressa em direcção aos mais belos miradouros (São Leonardo da Galafura, Casal de Loivos, São Salvador do Mundo) ou ao aconchego das quintas. Mas o Douro é um mundo, e o mundo precisa de uma vida inteira para apreender. O par de dias que temos não chega para visitar a Igreja de São Pedro das Águias, em Tabuaço, para subir a longa escadaria de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, nem para deambular no bairro judeu junto à Matriz de Salzedas, em Tarouca.

Assim, deixamo-nos entontecer em curvas e contracurvas, a sobrevoar com os olhos as pregas infinitas de colinas sem nome, os socalcos com cepas da cor da pedra da cor do rio. Na Régua apanhamos o comboio até ao Pocinho. Pela janela vemos desfilar laranjeiras carregadas de frutos e renques de oliveiras, apeadeiros desertos, ciprestes que anunciam solares recheados de história, pontes e escarpas, numa via lenta que segue rente à água, a roçar a perfeição.

"Não fazia ideia!". O espanto é formulado por quem atravessou o centro do país, parou para um café na plácida Vila Nova de Foz Côa e agora se encontra no âmago do arrojado Museu do Côa. Uma surpresa multiplicada por todo um grupo que entrou no monólito pousado no cimo do monte e se vê num espaço onde a luz jorra por rasgos estrategicamente desenhados para emoldurar o cenário. Os olhos que entraram são diferentes dos que saem: levam consigo outra visão das coisas, um conhecimento mais apurado da arte rupestre inscrita em 44 núcleos ao longo de 17 quilómetros, que se estendem do rio Côa ao Douro, em Portugal, e por mais quinze ao longo do troço espanhol do Águeda, na zona arqueológica de Siega Verde, em 2010 declarada Património Mundial como extensão do vale do Côa.

Mas não basta saber que este é o maior e mais importante conjunto mundial de arte paleolítica de ar livre. Se o museu nos mostra tudo em condições controladas, melhor ainda é descer à Penascosa ou à Canada do Inferno para admirar, in situ, o traço exacto com que se representavam auroques e cervos, técnicas que simulam o movimento dos animais, todo o engenho daqueles que, além de caçadores, eram artistas.

Salamanca me mata!

São dez da manhã, faz muito frio e o céu escuro ameaça chuva. Mesmo assim há quem ocupe as mesas das várias esplanadas da Plaza Mayor, apesar de haver lugares resguardados nos cafés das arcadas. Com casaco, gorro e cachecol, muitos ficam ali a ver quem passa, enquanto espantam o ar glacial com uma fumegante chávena de café con leche. A praça salamantina não é apenas a mais bela de Espanha, é também um imenso salão de visitas, onde desagua o milhão de turistas que anualmente visita a cidade. A estes juntam-se os cerca de 35 mil estudantes que frequentam a Universidade mais antiga do país, e ao fim da tarde se dispersam por ruas e bares, numa movida intensa e cosmopolita.

Numa cidade imponente, onde a cada passo há um palácio magnífico, uma igreja barroca, um convento, uma casa brasonada a disputar a nossa atenção, o edifício da Universidade destaca-se como uma das jóias da arte renascentista espanhola. A fachada-retábulo das Escuelas Mayores e o adjacente Pátio das Escuelas Menores são locais de passagem obrigatória. Tal como a emblemática Casa das Conchas, antigo palácio que hoje alberga a Biblioteca Municipal e de cujo claustro se tem uma perspectiva original para as torres da Igreja de La Clerecía, sede da Universidade Pontifícia.

A dois minutos dali, ficam as catedrais, a Velha e a Nova, que este ano cumpre o seu quinto centenário. Juntas formam um corpo único, a Nova, gótica e renascentista, amparada pela Velha, de estilo românico. Visitando a exposição Ieronimus podemos subir-lhes às torres, conhecer as salas mais secretas (como os quartos habitados pelos sineiros e relojoeiros), espreitar para as naves de ambos os templos a uma altura de mais de uma dezena de metros, e ainda ver a cidade inteira, estendida aos nossos pés, com o Tormes a correr entre açudes.

Quando descemos é para nos rendermos ao vigor da cidade, deixando-nos fluir com ela, de café de charme a bar de tapas, até regressarmos ao local primordial, essa praça Mayor, que pulsa como um coração, feito de encontros e sorrisos.

Ávila, a grande muralha

O que Salamanca tem de exultação tem Ávila de recolhimento. Esta é uma urbe introvertida, resguardada no interior das muralhas que lhe definem o perfil e o carácter. Erguidos na segunda metade do século XII, esses muros colossais com 2500 metros de perímetro, uma altura de doze metros, 88 torreões e nove portas, têm-se mantido praticamente inalterados desde a sua construção. Enquanto que, em meados do século XIX, em Espanha e no resto da Europa as cidades destruíam as barreiras defensivas, redesenhando-se para se abrirem ao tráfego, por razões económicas e demográficas Ávila manteve-se intacta.

Tudo na urbe é fortaleza. A própria catedral medieval está adossada à muralha, que do lado oriental toma a forma semicircular para se adaptar à abside do templo-castelo: da sua torre vigiavam-se os caminhos. A primeira catedral gótica do país, com um belíssimo interior que contraria o exterior austero, abre-se para uma praça cingida por dois palácios, o de Los Velada e o de Valderrabános, ambos transformados em hotéis de luxo. Contando com o Piedras Albas, que agora acolhe o parador, e o grandioso Palácio de Los Dávila, há ainda mais 31 paços e casas senhoriais, com torreões de aspecto robusto, espalhados por largos e ruelas.

"Tierra de cantos y de santos", a classificação de Ávila como Património da Humanidade assenta também no número e riqueza das suas igrejas românicas extramuros, em que se destacam a de São Pedro, a de São Vicente e a de São Tomás. Tocados pelos seus escritos místicos, são também muitos os que demandam a cidade em busca dos locais de culto a Santa Teresa de Ávila, fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças.

Quanto aos abulenses, revelam a sua face mais descontraída junto ao Paseo del Rastro, paralelo ao lado sul da muralha. Ali passeiam as crianças, marcam reuniões de anciãos no banco mais soalheiro, praticam os exercícios diários em cima de uma bicicleta e namoram de mãos dadas.

Segóvia, a bela

"Como se reconhece uma segoviana na praia? É a que tem o casaco ao lado, para o caso de fazer frio." A vantagem de chegar mais cedo a um restaurante é esta: ter uma entusiasmada Núria a guiar-nos pelas graças de Segóvia. Entre outras coisas, conta-nos que, apesar do clima pouco benévolo, ali há sempre muitos turistas, "indianos, australianos, holandeses, japoneses", atraídos tanto pelos ex-líbris monumentais da cidade como pelo seu ícone gastronómico: o leitão assado. De facto, é impossível escapar ao célebre cochinillo, inevitável na maioria dos menus e representado em tudo que é artesanato e t-shirts de recordação.

Tal como é difícil escapar à atracção do aqueduto romano, imponente obra de engenharia de finais do século I, com 30 metros de altura, 167 arcos e mais de 700 metros de estrutura visível (no centro histórico há marcas no pavimento a indicar por onde passam os canais subterrâneos). Turistas a gritar cheese, imigrantes sul-americanos em saída dominical, raparigas a fazerem auto-retratos em Instagram, todos se reúnem aos seus pés, na Praça do Azouguero, para uma sessão de poses com monumento bimilenário ao fundo. As fotos continuam escadaria acima, até ao miradouro de onde se vislumbra o cume de Peñalara, nevado a maior parte do tempo.

A partir daí entramos no núcleo antigo, ou antes numa hipérbole de igrejas, casas solarengas, largos abertos para um dédalo de ruas com mais monumentos. Frequentemente, damos por nós a reparar num edifício que não tínhamos visto antes, tão magníficos são os que disputam a nossa atenção. E se há muitos caminhos a desembocarem na Plaza Mayor, o melhor é o que sai da Calle Cronista Lecca. Dali abarcamos o Ayuntamiento, o coreto e a catedral quinhentista, num plano condensado, digno de cartão postal. Ali mesmo, na igreja de São Miguel, foi Isabel, a Católica, proclamada rainha.

Algumas ruas abaixo, num cume circundado pelos rios Eresma e Clamores, fica o Alcázar, residência favorita de muitos reis de Castela. Mais do que uma fortaleza, este é o paradigma do castelo de contos de fadas, de torres elegantes erguidas ao céu, que uma neve súbita virá cobrir, como numa história com final feliz.

Burgos, a dama de pedra

E quase no final da viagem, depois de tantos templos visitados, embriagados de talha dourada, confundindo estilos e épocas, quando achávamos que nada de novo havia a descobrir, eis que resta espaço para a maravilha. A Catedral de Burgos não é apenas o primeiro sítio desta rota a ter sido classificado pela UNESCO (em 1984) como é a única, em toda a Espanha, a ostentar o título de Património Mundial, ainda que ao lado existam outros monumentos de relevo, como o Arco de Santa Maria e a Casa del Cordón, onde Cristóvão Colombo foi recebido pelos Reis Católicos.

Ao contrário do que exclamava António Gedeão, a catedral não tem trinta metros de altura: mede 84 metros da base ao topo das torres que ladeiam a Porta Real. Porém, o espanto demonstrado pelo poeta é o mesmo. Como pode a pupila dos nossos olhos abarcar toda a magnificência, a profusão dos entalhes, a renda delicada das agulhas e torrões? E ainda nem sequer entrámos.

Quando o fazemos, ficamos deslumbrados com o zimbório, debaixo do qual se encontra o túmulo de Cid Campeador e de dona Jimena, sua esposa. A partir daí a visita prossegue por várias capelas, com os seus retábulos barrocos ou platerescos, túmulos de alabastro, rosáceas e imagens sacras. E se cada uma é uma obra de arte, na Capilla del Condestable todos os comentários emudecem, resumindo-se a um "Mira!..." de pasmo. Catedral dentro da catedral, esta capela de abóbada em estrela multiplica em tamanho, pompa e beleza tudo o que tínhamos visto até ali. Depois perdemos a noção das horas, enquanto admirávamos a Escadaria Dourada, o rococó da Sacristia Maior, o claustro revestido a vitrais, as peças magnificas do museu de arte sacra.

Quando saímos, ao fim da tarde, as ruas estão cheias. Parece que meia cidade converge para a sombra da catedral, em direcção ao miolo urbano onde se alinham mercearias gourmet, adegas e animados bares de tapas. Crianças, mulheres de meia-idade a jogar às cartas, velhos a disputarem a habitual partida de xadrez, todos partilham o mesmo espaço, frente a um chocolate quente e um prato de churros, um copo de vinho e bocadillos. É bem vivida, a noite em Burgos.

Luz sobre a pré-história na Serra de Atapuerca

Não importa se a chuva miúda se transforma em leves flocos de neve, se as mãos se encolhem nas luvas, se o nariz avermelha de frio: ninguém arreda pé da visita guiada ao Parque Arqueológico de Atapuerca, muito menos os miúdos que com os pais enfrentam uma manhã de Inverno comum nestas paragens. Talvez o culpado disso seja Ivan, o guia cujo bom humor contagia toda a gente. Tanto quando mostra os processos mais rudimentares de curtir as peles - "Aprende chica, porque con la crisis no sabemos donde vamos a llegar" -, como quando afirma que "os animais eram o Carrefour da época pré-histórica", pois forneciam alimento, peles para abrigos, ossos para fazer arpões e agulhas, tendões utilizados como elásticos. Esta visita, onde se aprende a fazer fogo e a lançar flechas, é apenas um intróito antes de Ivan nos conduzir de autocarro até uma desactivada via ferroviária mineira, lugar de excepcionais achados arqueológicos e paleontológicos, que trouxeram uma nova luz a tudo o que se sabia da presença humana no continente europeu.

Ali, nos três locais onde prosseguem as escavações, foram encontrados os restos humanos mais ancestrais da Europa Ocidental: uma mandíbula de espécie desconhecida com um milhão e duzentos mil anos, e um dente com cerca de 800.000 anos de uma nova espécie baptizada de homo antecessor. E também os mais abundantes: a Sima de los Huesos continha 90% dos fósseis humanos de homo heidelbergensis descobertos em todo o planeta, ou seja, cerca de 32 indivíduos de ambos os sexos e idades variadas. Mais fascinante é aquilo que as escavações revelam: técnicas de caça, evidências de canibalismo, mas também cuidados prestados aos mais frágeis que não se imaginavam no Pleistoceno Médio.

De regresso a Burgos, a 40 quilómetros da Serra de Atapuerca, entramos no Museu da Evolução Humana. Plantado à beira-rio, o moderno edifício acolhe os achados das escavações, de crânios a ferramentas. Além disso, ao longo das várias exposições, dá-nos a conhecer os largos passos que demos enquanto espécie, em termos culturais, artísticos e científicos.

O ouro de Las Médulas

É preciso subir ao miradouro de Orellán para ter uma ideia abrangente do que é Las Medulas: um fosso gigantesco preenchido por um mar de arvoredo acima do qual se erguem enormes cones de argila. Um cenário inédito que nenhum dicionário define. Ao lado, um pai tenta explicar ao filho como se formou esta paisagem. "Olha para este monte atrás de nós. Havia aqui um igual, antes de os romanos terem aberto túneis e destruído a montanha com a força da água." O rapaz continua incrédulo: "Igual?".

Um imenso formigueiro humano seria a melhor forma de descrever aquela que foi a maior exploração aurífera do Império Romano. Segundo relatos de Plínio, o Velho, trabalhavam ali 60.000 homens; nos 250 anos de actividade, calcula-se que daqui tenham sido retiradas mais de 1500 toneladas de ouro puro. Transformada num queijo suíço por um labirinto de túneis, a montanha foi sendo derrubada pela força da torrente, numa técnica chamada de "ruína montium". A rede de canais que traziam água de picos como o Teleno, a 2000 metros de altitude, tem uma extensão de cerca de 300 quilómetros.

O rapaz pode não querer saber dos números mas com certeza gostaria de pôr um capacete e entrar na galeria que fica a dois passos dali. Há um túnel principal, com iluminação no chão, que ora se abre em espaços amplos ora nos obriga a baixar a cabeça. E muitas outras derivações, estreitas e escuras. Quando a luz solar volta a iluminar a galeria, encontramo-nos muitos metros acima da copa de castanheiros centenários, com uma vertiginosa panorâmica à frente.

Só mais tarde descemos à aldeia aninhada na cratera, para percorrer os caminhos bucólicos, entre soutos e carvalhais, em direcção às sentinelas de terra que o crepúsculo torna mais douradas. Faz sentido terminar aqui esta viagem, a desfrutar o ouro da luz depois de, Douro acima, termos descoberto outros tantos tesouros.