"A viciação de resultados faz pior ao desporto do que o doping"

Declan Hill é o autor do livro que revela como funciona o esquema da viciação de resultados para apostas desportivas

Declan Hill sabe por onde se deve começar para desmantelar a rede internacional de viciação de resultados de jogos de futebol para apostas. Para este jornalista canadiano, que escreveu um livro sobre o assunto “Máfia no Futebol” (Saída de Emergência, 2011), é essencial prender Dan Tan, um homem de Singapura com mandatos de captura e que está no centro da rede criminosa que manipula os jogos. O que a Europol anunciou no início do mês, sustenta Hill, foi um bom sinal, mas é preciso fazer mais, com envolvência das autoridades e da FIFA.

Que lhe pareceu esta denúncia da Europol?
Mostra o mínimo da corrupção na Europa. Sabemos que há pelo menos 380 jogos que estão a ser investigados e pessoas que estão a ser condenadas. Claro que há mais jogos sob suspeita, mas não há provas legais. Mais de 425 pessoas que suspeitavam. Mas o mais importante desta conferência, e pouca gente deu por isso, são mais de 300 jogos internacionais que estão sob suspeita. E quando falamos de jogos internacionais, são de selecções nacionais a jogarem entre si. Esta é uma proporção elevada do total de jogos da FIFA. Se eu fosse um produtor de vinho e todas as semanas produzisse uma garrafa que fosse tóxica, esperaria que alguém me fechasse a loja. Isto não pode acontecer, devia ser zero. E pode ser zero.<_o3a_p>

Isto é um desafio enorme para os governos dos países que fazem parte da FIFA. Infelizmente, a Interpol está a agir como um cão de colo da FIFA, anda às voltas e não faz nada, a bajular os responsáveis do futebol e o governo de Singapura.<_o3a_p>

O que está a ser feito não é o suficiente, portanto…
Sabemos o nome de um homem. Os italianos têm mais de 800 páginas de provas contra este homem. Ele é procurado na Hungria, na Alemanha… Prendam-no.<_o3a_p>

Dan Tan. Quem é este homem?
Dan Tan está no centro de uma rede que se estende pelo mundo. É o mais procurado em Itália, a Interpol tem o mandato de captura para ele, o governo de Singapura recusa-se a prendê-lo. O que a FIFA e a Interpol têm de fazer é envergonhar Singapura de tal forma que eles não tenham outro remédio senão agir e prender este homem. Podemos resolver muito deste problema prendendo Dan Tan, porque ele conhece a rede. Não o prendendo e estamos a enviar um sinal a esta rede para que eles se sintam seguros. Ele sabe quem são os outros. Em julgamento, ele vai falar dos outros e acaba-se com a rede.<_o3a_p>

A viciação de resultados pode provocar mais danos que o doping?
Muito mais. É algo que eu e o meu orientador em Oxford falávamos. Quando se usa doping, está a fazer-se batota para ganhar. E as pessoas nem se importam tanto com isso, “vá lá, pelo menos ele estava a esforçar-se para ganhar”. Quando se vicia um jogo, faz-se batota para perder, o que é imperdoável. Veja-se no desporto asiático. Há dez anos, a liga chinesa de futebol tinha dezenas de milhares de espectadores nos jogos. Agora, são tantos os jogos com resultados combinados que as pessoas já nem querem ver. Consideram que é uma perda de tempo.<_o3a_p>

E é algo que está a começar a acontecer na Europa. Se se for à Croácia, Sérvia, Polónia, Montenegro, a muitos dos países da antiga União Soviética, países com elevados níveis de corrupção, cada vez menos gente vai aos jogos. Em parte, porque esses jogos foram corrompidos. Essa é a minha preocupação com o futebol em países como Portugal. Vocês também têm muitos problemas. Precisamos de ter a certeza de que está limpo, antes que o futebol na Europa fique igual ao futebol da Ásia.<_o3a_p>

Tem alguma indicação de que haja alguma conexão portuguesa nesta rede denunciada pela Europol?
Não.<_o3a_p>

Acredita que a rede criminosa de viciação de resultados está infiltrada na FIFA?
[Longa pausa]. Terão seguramente gente nas federações nacionais. Não se consegue viciar pelo menos 150 jogos internacionais e não ter ninguém nas federações nacionais, pelo menos em algumas.<_o3a_p>

Como é que esta rede actua?
A manipulação de resultados existe no desporto há milhares de anos. Mas o que temos assistido nos últimos 15, 20 anos é um novo tipo de corrupção, com a globalização das apostas desportivas. Existem sindicatos criminosos da Ásia que vão para a Europa, para o Canadá e outros países, fazem contactos com as organizações criminosas locais, que, por sua vez, viciam o resultado dos jogos, subornando os árbitros, os jogadores ou os dirigentes. Os asiáticos metem o dinheiro no mercado de apostas da Ásia. Como os desportos asiáticos já têm tão pouca credibilidade neste mercado – já ninguém aposta nos jogos da liga chinesa – fazem apostas no Sporting, ou no FC Porto, ou em equipas mais pequenas em Portugal.<_o3a_p>

Continua a ser mais fácil viciar um jogo em países mais pequenos ou em ligas secundárias, do que, por exemplo, na Premier League ou na liga espanhola?
Obviamente é mais fácil subornar alguém a quem não pagam os salários. Isso acontece com jogadores, árbitros e treinadores de equipas mais pequenas que não recebem muito dinheiro. É mais fácil chegar a eles. No entanto, não se pode meter assim tanto dinheiro, digamos, num jogo da segunda divisão portuguesa. Se eu apostasse dez milhões de dólares numa equipa de segunda divisão, ninguém aceitaria a aposta. Mas se eu quisesse viciar um jogo grande, ninguém daria por isso, porque esses jogos movimentam centenas de milhões em apostas.<_o3a_p>

Os sistemas de monitorização de apostas são eficazes?
É uma boa ideia, mas são quase inúteis. Ainda bem que existem, porque detectam uma viciação de vez em quando e mostram que estão a fiscalizar. Vai melhorar, mas não é muito eficaz. Muitos destes “fixers” são pessoas muito inteligentes, passam muito tempo a pensar neste sistema, de forma a que não seja fácil detectar.<_o3a_p>

No início do seu livro diz que vê futebol sem paixão. Porquê?
Não sou totalmente frio em relação ao futebol profissional, mas quando vejo um jogo estou sempre a pensar que alguma coisa se passa.<_o3a_p>

Sentiu-se ameaçado quando estava a fazer a pesquisa para o livro?
Claro que sim. Muitas vezes. Se me apanhassem a gravar uma conversa, corria sério risco de vida.<_o3a_p>

Consegue calcular quanto dinheiro está envolvido nesta rede?
O mercado asiático de apostas está calculado em centenas de biliões de dólares. Em relação à rede de viciação de resultados, não quero estar a fazer uma estimativa.

Esta é a versão integral da entrevista publicada na edição impressa

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