A Ásia continua a ser um caso à parte na luta contra fenómenos de manipulação desportiva

Num palacete de estilo georgiano no meio de um distinto subúrbio de Londres cheio de árvores, uma equipa de especialistas em apostas está à frente de dezenas de ecrãs que mostram resultados de jogos de todo o mundo. No entanto, aqui não há apostas, ninguém ganha e ninguém perde dinheiro. Esta é a linha da frente na guerra contra a manipulação de resultados no futebol. A indústria do futebol, que movimenta milhões, foi abalada no início do mês quando a Europol e procuradores revelaram que centenas de jogos poderão ter sido manipulados por uma rede criminosa com base em Singapura.

Empresas como a Sportradar ajudam os organismos que tutelam o futebol enfrentar o problema de viciação de resultados, analisando padrões invulgares de apostas, enquanto a FIFA criou o seu próprio mecanismo, o Early Warning System (EWS). Na Europa, um grupo de 15 das principais casas de apostas trabalha com a European Sports Security Association (ESSA), partilhando por email informação sobre tendências de apostas.

Mas a escala do problema, que envolve jogos de qualificação para o Mundial e da Liga dos Campeões, para além de jogos na Ásia, África e América Latina, precisa de uma solução global, diz Chris Eaton, antigo director de segurança da FIFA. “Este sistema de aviso tem de ser global, porque o problema é global. Podemos dizer que a ESSA vai detectar padrões nas apostas legais – mas é nas apostas ilegais que a manipulação de resultados ocorre”, observa Eaton.

A Sportradar faz parte de uma indústria emergente que cresceu à margem dos esforços oficiais para acabar com a manipulação de resultados no desporto, e, em especial, no futebol. A empresa monitoriza mais de 300 casas de apostas e mais de 30 mil jogos por ano para a UEFA. Ben Paterson, Integrity Manager da Sportradar, diz que a empresa identifica cerca de250 a 300 jogos suspeitos por ano e que esse número não dá sinais de diminuir. “Há muita gente a fazer muita coisa para que a manipulação de resultados, mas os números mantêm-se, talvez até com um ligeiro crescimento”, observa Paterson.

Apesar de cobrir apenas uma pequena parte do mercado global, a ESSA diz que pode apresentar detalhes sobre quem aposta e onde são feitas as apostas de forma a impedir a manipulação antes que o jogo aconteça. As agências de apostas estão ligadas por um sistema de alerta por email que permite aos seus membros sinalizar padrões de aposta suspeitos e enviá-los aos organismos do futebol com os quais estão ligados. A vantagem é que as casas de apostas sabem quem e onde foi feita a aposta. Mas está limitado à Europa.

O sistema da FIFA pode monitorizar padrões de apostas, mas sem o nível de detalhe da ESSA. A EWS usa uma rede de contactos global para recolher informações e usa uma linha telefónica para denúncias. Para além dos jogos da FIFA, a EWS também observa os jogos da Major League Soccer, dos EUA, e a J-League, do Japão. “A EWS é uma organização pequena e com capacidade, mas parece-me que não tem grande presença no terreno. Acho que a Sportradar é a melhor no presente. Mesmo sendo uma organização comercial, gostava que eles funcionassem num organismo que fosse independente dos organismos desportivos e das agências de apostas”, observa Chris Eaton.

Mas estes esforços são limitados, dizem os especialistas, devido à pobre coordenação entre as agências de apostas e os organismos que gerem o futebol, ao mesmo tempo que a falta de regulação na Ásia significa que há informação essencial que não existe. Miles O’Kane, presidente da ESSA, quer que as grandes agências de apostas da Ásia, como a Sbobet e a Ibcbet, juntem forças com as agências europeias no combate à manipulação de resultados. “Faço um apelo às agências europeias e a todos os operadores globais que se juntem à ESSA”, reforça O’Kane. Contactadas pela Reuters, tanto a Sbobet como a Ibcbet, agências com base nas Filipinas, não quiseram fazer comentários.

O investigador alemão que ajudou a mandar 14 pessoas para a prisão por viciação de resultados é crítico destes sistemas. “De acordo com a nossa experiência nos três últimos anos, devo dizer que estes sistemas não produzem provas que nos possamos apresentar em tribunal. Basicamente são instrumentos rombos que não produzem resultados”, afirmou à Reuters, Friedhelm Althans, investigador de Bochum.

O futebol substituiu as corridas de cavalos como o desporto mais emblemático do negócio das apostas, com a ajuda da tecnologia que permite que se faça apostas online enquanto se vê o jogo pela televisão. Paterson, da Sportradar, diz que a explosão das apostas online fez com que começassem a aparecer determinados padrões de apostas. Em 90% dos jogos viciados vão surgir padrões suspeitos nas apostas em tempo real durante o jogo, geralmente em casas asiáticas, em vez de as apostas serem feitas antes do jogo.

Os mecanismos da Sportradar baseiam-se num algoritmo complexo, numa rede de 150 informadores e décadas de experiência dos seus analistas, mas o princípio que está por detrás disto tudo é relativamente simples. A maior fatia das apostas no futebol acontece durante o jogo, quando as agências aumentam as “odds”, subindo assim os potenciais ganhos.

Quando as apostas são em tempo real, as probabilidades são reactivas. Se uma determinada aposta tem muito dinheiro, as agências baixam as probabilidades. Se baixam muito, a monitorização da Sportradar lança um alerta e o caso é entregue a um analista. Se um jogo for considerado suspeito, a equipa de Paterson reúne-se e analisa os detalhes. “Em caso de apostas suspeitas, tentamos esgotar todas as possibilidades de ela poder ser legítima”, explica. “Na maior parte dos casos, são”, observa.

Alguns, como um jogo que termina 0-0 sem cantos, lançamentos de linha lateral ou livres, são difíceis de defender. “O que faz é criar a suspeita de que o jogo é combinado. E assim começa a investigação”, diz Paterson.

A monitorização na Ásia é mais incipiente o que, segundo David Forres, especialista em apostas desportivas, criou o ambiente ideal para o crescimento da viciação de jogos na região. “Muitas destas competições têm ordenados muito baixos e há um enorme mercado de apostas na Ásia sem qualquer regulamentação onde as redes criminosas podem ter lucros enormes. É o ideal para a corrupção”, sustenta Forrest.

Cagayan, uma zona económica especial nas Filipinas, serve como sede das cinco maiores corretoras de apostas da Ásia, que, devido à falta de regulamentação, não têm obrigação de prestar contas, ter protocolos com as entidades que gerem o desporto ou ter uma política de “Conhece o teu cliente”, como fazem as corretoras europeias.

Ralf Mutschke, chefe de segurança da FIFA, diz que melhor coordenação com as agências de segurança iria ajudar muito, mas não ajuda o facto de a viciação de resultados não ser crime em muitos países. Numa conferência em Londres em Janeiro passado, Laila Mintas, chefe do departamento legal da EWS, pediu intervenção da União Europeia: “Deve assumir a dianteira na criação de regras nacionais para a viciação de resultados”. Para Paterson, da Sportradar, isto tornou-se num assunto de tal dimensão que esta a prejudicar a integridade do futebol: “Quem é que quer ir a um jogo de futebol quando já se sabe quem vai ganhar? Mais vale ir ver um combate de wrestling.”

Himanshu Ojha e Keith Weir Reuters, em Londres, com Shadia Nasralla e Pedro Redig

Esta é a versão integral do texto publicado na edição impressa

Sugerir correcção