Hélia Correia ganha Prémio Correntes d"Escritas com um "grito" pela Grécia

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Hélia Correia

O livro de poesia A Terceira Miséria valeu à escritora o principal prémio deste festival literário que termina amanhã à noite

Hélia Correia escreveu A Terceira Miséria como "uma homenagem à [sua] Grécia", e viu neste facto uma possível justificação para o prémio que ontem lhe foi atribuído na Póvoa de Varzim, na 14.ª edição do festival literário Correntes d"Escritas. O júri - constituído por Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Helena Vasconcelos, José Mário Silva e Patrícia Reis (que não esteve presente na reunião final do júri realizada anteontem, mas enviou o seu voto) - considerou que A Terceira Miséria, "mais do que um conjunto de poemas, é um longo poema construído a partir da matriz clássica europeia para reflectir sobre questões fundamentais do Ocidente".

Ao agradecer o prémio, ontem, no Casino da Póvoa, Hélia Correia lembrou que a Grécia, tal como Portugal e outros países mergulhados na crise, "está a sofrer uma pressão impensável", e que o seu livro é portador de "uma mensagem muito forte: quase um pedido de socorro, um grito", a reivindicar e apontar alternativas. "É preciso lançar um grito como o das canções portuguesas a que, por exemplo, José Mário Branco deu expressão: "Alevantai-vos!"", disse ainda a escritora - que no início desta semana tinha também visto o conjunto da sua obra distinguido com o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora.

No valor de 20 mil euros, o Prémio Literário Correntes d"Escritas/Casino da Póvoa foi este ano destinado à poesia, alternando com a ficção. E teve como nomeados, para além da vencedora, o brasileiro Ferreira Gullar e os portugueses Fernando Guimarães, José Agostinho Baptista, Manuel António Pina, Armando da Silva Carvalho, Luís Filipe Castro Mendes e Bernardo Pinto de Almeida, escolhidos de uma lista de 75 obras a concurso.

Na sessão oficial de abertura, a iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim recebeu os elogios de Helder Macedo - que no festival apresentará amanhã o seu novo romance, Tão Longo Amor Tão Curta a Vida (ed. Presença). O escritor e professor emeritus do King"s College na Universidade de Londres destacou a "persistência" da autarquia, contrapondo-a ao desinvestimento a que hoje se assiste no país na área da cultura. "Somos um país que é perdulário como só os países pobres como nós o são, e onde há as maiores fortunas e simultaneamente as maiores desigualdades", lamentou o autor de Partes de África.

As musas dos doutores

O primeiro dia oficial do Correntes d"Escritas - que tinha começado na véspera com teatro, lançamento de livros e encontros de escritores com estudantes - foi também marcado pela já tradicional conferência de abertura, realizada por João Lobo Antunes. O neurocirurgião foi apresentado por um homem da terra, José Carlos Vasconcelos, que o definiu como uma figura marcada por "uma grande inteligência", com a qual cultiva uma multiplicidade de interesses, além de, enquanto ensaísta na tradição de Montaigne a George Steiner, ser autor de uma "escrita elaborada e elegante" - enfim, "um escritor".

Numa intervenção que tomou como mote parte de um verso de Machado de Assis - "Não fazem mal as musas... [aos doutores]"-, João Lobo Antunes falou principalmente do seu trabalho de ensaísta, "refúgio" com que tem evitado ultrapassar a barreira para o mundo da ficção. Alguém escreveu, um dia, que "todo o jornalista tem um romance dentro de si - o melhor é que não saia": assumindo esta máxima também como válida para os doutores, Lobo Antunes não deixou, no entanto, de evocar os nomes de médicos que deixaram também rasto como escritores, como Júlio Dinis, Jaime Cortesão, Fernando Namora, Miguel Torga ou o seu irmão António Lobo Antunes.

Mas foi o elogio do ensaio, com a revisitação de Montaigne e Ortega y Gasset, António Sérgio e Fernando Gil, que o conferencista fez, perante a plateia do Auditório Municipal da Póvoa de Varzim sobrelotada de estudantes, cidadãos e convidados dos Encontros. "Sinto-me muito confortável com isto", confessou o autor da biografia de Egas Moniz, o Nobel português da Medicina que foi amigo e colega de um seu tio-avô. "Mas tudo o que escrevo é sentimental", acrescentou, e resultado da acumulação das experiências e das vidas que têm passado pela sua experiência profissional, explicou o neurocirurgião. E recordou histórias da sua relação com figuras como o escritor José Cardoso Pires - para quem escreveu o prefácio daquele que seria o seu último livro, De Profundis, Valsa Lenta -, e cujo encontro classificou como "uma das melhores coisas que [lhe] aconteceram na vida".

O programa da tarde de ontem do Correntes d"Escritas incluiu a primeira de sete mesas de debate em volta de versos "roubados" a escritores convidados, e na qual participaram Hélia Correia, António Mega Ferreira e Mário Zambujal, entre outros (uma oitava mesa vai realizar-se segunda-feira, dia 25, em Lisboa, no Instituto Cervantes).

Até ao fim-de-semana, o festival - cuja revista da edição deste ano é dedicada a Urbano Tavares Rodrigues - vai ter lançamentos e uma feira do livro, recitais poéticos, cinema, teatro e duas exposições: Aqui e Agora sem Palavras, de Emerenciano (Museu Municipal, até 30 de Maio), e Eras do tempo - Fotografias da Póvoa de Varzim 1982-2012, revisitação de lugares da terra com um intervalo de três décadas por Carlos Romero (Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, até 6 de Abril).