De onde vem a raiva dos Iceage?

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São dinamarqueses furiosos, niilistas, punk. Tanto dão que falar pela iconografia militarista como pela música à beira da deflagração. O novo álbum dos Iceage, You" re Nothing, está aí.

Foi há dois anos, em Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca, no festival Spot. Em palco, quatro músicos na casa dos 19 anos, de quem nunca ouvíramos falar. Segundo as folhas de promoção do evento praticavam um som punk, chamavam-se Iceage e eram da capital da Dinamarca, Copenhaga.

A assistência, curiosamente, era mais dos 30 do que dos 20 anos. Começava o concerto: o vocalista empunhava uma guitarra que mal conseguia suster, mas a forma enfurecida como cantava impressionava. A música era uma amálgama de ruído que às vezes dava vontade de fugir, outras vezes continha rasgos estimulantes, com ritmos metronómicos e guitarras estrepitosas à beira do desvario.

Resistimos ao embate inicial e ficámos. Não nos arrependemos. Os quatro músicos posicionavam-se como se estivessem a tocar consigo próprios, enquanto a assistência se dividia entre ficar de boca aberta ou participar, abanando furiosamente a cabeça. O quadro era tanto mais estranho porque em palco, e à volta, todos tinham um ar impecavelmente composto. Nada do imaginário punk dos anos 1970 e das muitas retomas que se seguiram.

Às tantas, num dos temas mais vertiginosos, as cordas do baixo e de uma das guitarras cederam, mas na verdade ninguém parou, todos continuaram a tocar como se nada tivesse acontecido. E se existiram diferenças sonoras não as vislumbrámos, como se o grupo se comportasse como aquelas equipas que quando perdem um dos seus membros acabam por empenhar-se mais, de maneira a que a superioridade numérica dos adversários não se sinta.

Ficámos mais intrigados do que conquistados, mas nunca mais perdemos de vista os Iceage. Meses mais tarde saiu o seu primeiro álbum, New Brigade, e as críticas positivas misturaram-se com menções negativas que aludiam a uma iconografia visual com qualquer coisa de Joy Division e de militarista, principalmente na forma como se comportavam nos concertos. Nos gestos chegaram a ser conotados com a extrema-direita.

Agora chega o segundo álbum, You"re Nothing, um disco tão enfurecido como o primeiro, mas mais subtil e amadurecido. É a nossa visão e também a de Dan Kjaer Nielsen, o baterista do grupo, com quem trocámos algumas impressões. Quando lhe telefonámos, na semana passada, o Papa tinha anunciado a sua renúncia há pouco mais de uma hora. Tentámos meter conversa com ele sobre o assunto, mas a única coisa que arrancámos foi um surpreso: "A sério? A sério? Que estranho. Não pode ser!"

Ambiguidade

O assunto Papa estava esgotado, mas sobre outras temáticas também não foi simples arrancar-lhe palavras. Sobre as diferenças entre o primeiro e o segundo álbum, disse que tentaram que o novo fosse mais diverso ao nível da composição e também do ponto de vista sonoro. "Passámos os últimos anos em concertos, acaba por ser natural que tenhamos crescido com eles. O disco acaba por traduzir essa maior experiência", afirma Nielsen.

Quando discorre sobre o processo de gravação, demonstra algum entusiasmo, explicando que foram para um local isolado, "uma quinta, no meio do nada", o que acabou por ser positivo porque lhes permitiu concentrarem-se na feitura do disco: "Não havia muito para fazer, para além de tocar e gravar, e isso foi bom."

Explicitamente sobre o disco não fala muito - e tudo o que não remeta de forma explícita, pelo menos segundo a sua visão, sobre música fica em quase silêncio. Quando o questionamos sobre a iconografia limita-se a dizer que "isso nada tem a ver com música." Argumentamos que não senhor, que a música não existe numa redoma, imune a representações, mas ele nitidamente não está interessado em reflectir sobre o assunto. "Iceage é música, são as letras, os concertos", limita-se a dizer.

Só conseguimos fazê-lo sair das respostas monossilábicas quando lhe perguntamos que tipo de assistência têm os concertos dos Iceage, tendo em conta que a música que os inspira tem mais de 40 anos e eles estão na casa dos 20. "Sim, é um pouco estranho, mas conseguimos unir gerações diferentes. Em parte isso acontece porque expomos emoções com que qualquer um, independentemente da idade, se relaciona com facilidade. É mais isso, não creio que seja tanto porque tocamos punk-rock ou assim. Na verdade ouvimos quase todos os tipos de música. Todos ouvimos David Bowie, Scott Walker e esse tipo de coisas."

Quando lhe perguntamos se a fúria que expõem se deve a algum tipo de conflitos sociais na Dinamarca, um dos países que melhor parece atravessar o actual cadafalso europeu, também não é conclusivo. "Expressamos emoções de uma forma verdadeira, coisas que reflectem a nossa vida, mas não diria que existe uma relação directa com qualquer coisa que se passe na Dinamarca."

Em algumas entrevistas, o vocalista Elias Bender Ronnenfelt tem exposto que as letras do novo álbum foram inspiradas em Georges Bataille ou Jean Genet, mas não vale a pena interrogar Dan sobre o assunto: "As letras são sobre experiências pessoais", limita-se a dizer.

São assim os Iceage, para lá da música: não parece que se posicionem de forma estudada, mas acabam por manter alguma ambiguidade, sem se comprometerem com nada. Uma atitude que, na sua aparente neutralidade, pode ter muitas leituras.

Ver crítica de discos pág. 30 e segs.

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