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Megafone

Passada uma semana…

Há quem diga que o 14 de Fevereiro é o dia em que se comemora o amor. Nada poderia estar mais longe da verdade. É o dia em que se comemora a validação da discriminação de um tipo de amor específico: o amor romântico europeu

Quem ainda se lembra do “dia dos Namorados” deste ano? Talvez quem tiver tido, por entre amigos ou família, conhecimento de uma tentativa de suicídio (frequente, nestas alturas).

O 14 de Fevereiro deste ano foi passado maioritariamente sozinho e, pela primeira vez em vários anos, não houve um almoço ou jantar — a jeito de provocação — passado a mais-de-dois. O que quer dizer que tive tempo para ficar a trabalhar e, utilizador que sou do Facebook, para colocar lá um "status" que dizia qualquer coisa do género: "O que é o amor?" A partir do momento em que fazemos esta pergunta, transformamos o amor numa abstracção, num ideal, num objectivo, num prémio. Ao identificar o amor, submetemo-lo à lógica das políticas identitárias, à objectificação positivista. Porque não perguntar, ao invés disso, "Como posso eu ser amoroso?".

Há quem diga que o 14 de Fevereiro é o dia em que se comemora o amor. Nada poderia estar mais longe da verdade.

É o dia em que se comemora a validação da discriminação de um tipo de amor específico (o amor romântico europeu), entre tipos de pessoas específicas (no geral, pessoas percepcionadas como sendo de sexo diferente), e entre um número definido de pessoas (duas, apenas). Só para não falar na mais que óbvia mercantilização dessa mesma discriminação.

E apesar de algumas concessões quase forçadas (como umas poucas actividades viradas para pessoas LGBT), mantém-se a predominância do paradigma hetero-mono-normativo, do privilégio que insiste em apagar ou inferiorizar quem não está com ninguém a nível romântico, quem está com alguém a nível não-romântico ou com quem está com mais do que uma outra pessoa.

Tudo isto para, passada uma semana, tudo ter caído no esquecimento até ao ano seguinte. Só que, como apontei, só esquece quem pode. Esquecer é também um privilégio.

É por isso que aproveito para fazer eco das chamadas de atenção e pedidos de Meg Barker, Priyamvada Gopal e Lisa Downing: vamos parar de falar de amor romântico como se ele fosse o melhor, o maior, ou o caminho mais directo para uma suposta felicidade auto-evidentemente desejável. Vamos parar de falar de casais (heterossexuais monogâmicos) como sendo a suposta fundação da sociedade em que vivemos. Vamos dar visibilidade a outros amores, a outras intimidades, a outras sexualidades, a outros géneros. Vamos parar de celebrar uma categoria social (a do casal hetero apaixonado) que está historicamente baseada na discriminação e violência de género, na objectificação das mulheres. Vamos também negar os seus correlatos: a procriação como missão de vida, o casamento como laço (legalmente, economicamente e socialmente) privilegiado.

Uma política radical (i.e.: "de raiz") implica isso mesmo: cortar pela raiz, de forma criticamente sustentada, aquilo que durante séculos alimentou o que não queremos ver. Porque se “o pessoal é político”, então aquilo que fazemos dentro de portas (ou no restaurante) não fica dentro de portas, e requer debate enquanto política que é.