"A liberdade de expressão não pode impedir outros de se exprimirem"

Nos 20 anos da TVI, o director de Informação diz que a estação faz um jornalismo mais relevante e que compreende o que o Governo quis fazer com a RTP.

Os três canais generalistas estão a concertar-se para mudar a lei eleitoral autárquica para não se repetir o que José Alberto Carvalho classifica como "imposição administrativa" de debates. Se a lei não mudar, a estação não transmitirá nenhum.

A TVI organiza uma conferência sobre o futuro do jornalismo para os 20 anos da estação, mas aconteceram os 20 minutos mais perturbados da história recente da TVI. Não previram os riscos de convidar Miguel Relvas?

A conferência começou a ser preparada há semanas. Não antecipámos o que acabou por acontecer. Nos últimos dias havia sinais evidentes de que isso podia acontecer, mas quem deve fazer essa avaliação são os próprios membros do Governo, que têm dispositivos que supostamente funcionam para lhes dizer o que podem e devem ou não fazer

Esses serviços nitidamente não funcionaram ontem.

Não sei. Na visita de segurança que fizeram previamente, havia uma saída de emergência [identificada] que não foi utilizada.

Estrela Serrano escreveu que Miguel Relvas não tem autoridade moral, ética ou política para falar de jornalismo. Concorda?

É uma avaliação política. Como director de Informação da TVI, não a devo fazer.

Não sentiu que deveria ter convencido os manifestantes a deixarem o ministro falar?

Não foi possível. Aquelas pessoas estavam lá, com toda a legitimidade. Mas a nossa liberdade de expressão não pode impedir os outros de se exprimirem. E esse parece-me ser o ponto-limite aqui. Eu percebo a indignação das pessoas, mas o que aconteceu foi que um grupo de pessoas, numa conferência sobre jornalismo, decidiu boicotar - e estava lá apenas para boicotar - o discurso de Miguel Relvas. É uma acção política, que posso avaliar à minha maneira.

Foi o ministro que disse que se ia embora?

Foi o ministro que disse: "Penso que não há condições". Foi ele que tomou iniciativa.

O que queria dizer quando afirmou "podem contar com a TVI"?

Que os jornalistas estão sempre do lado da liberdade de expressão. No dia em que um jornalista não defender a liberdade de expressão, assina a sua sentença de morte.

Esse remate foi um pouco dúbio, porque não se percebia quem estava a criticar.

Estava a criticar quem impediu uma pessoa de quem se discorda de se pronunciar. Isso sim, assumidamente. O facto de com excesso de liberdade de expressão se silenciar alguém com quem não se concorda não me parece um bom princípio porque permite todos os desmandos. O episódio acaba por transmitir ao ministro uma certa aura de injustiçado. Não sei se era isso que os manifestantes pretendiam.

Embora fosse um recado interno e sobre outro assunto, Pais do Amaral disse uma vez que "uma TV privada não é uma plataforma para interferir na situação política do país". Sente que de alguma forma a TVI foi ontem usada por terceiros?

Não, seria precipitado e pouco sensato da minha parte responder a essa pergunta. É uma especulação. O entendimento que eu tiver devo guardá-lo para mim.

Como reage a elogios de um administrador que faz o elogio de uma direcção de Informação (DI), em contraponto com uma anterior que foi tão marcante?

Não reajo, sei que estou a fazer o meu trabalho e sei qual foi o compromisso que assumi com a empresa que me contratou. Os administradores são livres de se pronunciarem. Eu, como director de Informação e como ser humano, considero mais simpático ouvir um elogio que uma crítica. Mas nada mais.

O que pensa da informação que era feita nessa época?

Eu decidi não me pronunciar em público, desde que assumi estas funções, sobre esse período, porque isso é abrir feridas desnecessárias.

No seu compromisso com a TVI, há metas quantitativas de audiências?

Não. Posso tê-las para mim porque conheço a realidade do mercado e sei como funcionam as empresas de media em Portugal. Mas não me foi fixado nem proposto um valor. Até porque o mercado é mutante e incógnito. O padrão de consumo mudou muito nos últimos dois anos. As pessoas têm o poder, que a tecnologia lhes concedeu, de decidir como gastam o tempo em frente ao televisor. Esse poder é brutal em relação ao passado.

Isso altera a forma como se programa e se faz informação num canal de TV generalista?

Condiciona necessariamente. Como jornalistas, sentimos que, com esta amplitude de escolha que as pessoas têm, aquilo que nós consideramos informação de referência tem tendência a ser preterida. Esse tipo de informação terá tendência para se cristalizar no cabo para audiências voluntariosas, talvez elitistas.

O que é que mudou nestes últimos dois anos na informação da TVI e qual é a sua mais-valia em relação à concorrência?

Nós assumimos que nos aproximámos de um modelo de jornalismo televisivo mais consensual.

O que significa "mais consensual"?

É a menor valorização dos acontecimentos de ordem interna, a menor valorização de pseudofenómenos desportivos de pouco interesse geral, sobrevalorização de emoções ou opiniões, uma hierarquização de notícias. Isto implica sempre um julgamento moral de alguma forma e eu tenho resistido a entrar nesse capítulo.

O que responde a quem diz que esta direcção faz um jornalismo mais acomodado?

Respondo de uma maneira muito simples: a relevância da informação da TVI é incomparavelmente superior, a capacidade de a informação da TVI marcar a agenda social e económica do país é permanente, a capacidade de a TVI gerar acontecimentos que são noticiados por todos os outros é impressionante.

A passagem pelo serviço público influenciou o modelo que esta direcção quis construir aqui?

Julgo que não. A grande vantagem da passagem pela RTP como director de Informação foi a habilitação para lidar com redacções grandes.

E desvantagens da passagem pela RTP?

O excesso de escrutínio. Por mais capacidade de resistência que se tenha, e os profissionais da RTP têm-na. Mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Tive cenas um bocadinho desagradáveis, algumas que só contarei nas minhas memórias.

E da SIC - o que se pode importar para aqui?

Nada. As pessoas são diferentes, as empresas são diferentes. Não vale a pena importarmos modelos de um lado para o outro. Isso é um facilitismo que não devemos seguir.

No discurso que não chegou a ler, Miguel Relvas anunciou uma RTP mais competitiva. Como avalia a forma como o Governo tem conduzido o dossier da RTP?

Com grandes dúvidas e perplexidades. E inquietação. A discussão sobre a privatização da RTP foi inquinada desde o princípio. Eu sempre disse que não me pronunciava sobre a privatização da RTP por uma razão muito simples: não percebo aquilo de que se está a falar. Quando se está a falar da privatização da TAP, sei o que está em causa. Quando se está a falar da RTP, não sei se são os estúdios, as frequências, as marcas, os profissionais. Estamos a falar de quê? Isso nunca foi clarificado até agora.

Está preocupado enquanto director da TVI ou por causa do serviço público?

Sem hipocrisia, por causa das implicações que isso teria para o mercado. Neste momento, a privatização seria negativa. Neste alegado exercício de liberalismo económico, eu pergunto-me: o que é que o mercado, os espectadores, os produtores de conteúdos audiovisuais e o contribuinte ganham? Nada disto foi claro. E interrogo-me sobre o porquê e o para quê deste negócio. Não acho nada que não haja um consenso sobre o que é o serviço público em Portugal. Isso só existe em Inglaterra, que inventou a democracia representativa, a televisão e o serviço público de televisão. E mesmo aí só nas últimas legislativas é que houve um debate entre os candidatos a primeiro-ministro.

Eles têm as ideias certas e nós é que as aplicamos, é isso que quer dizer?

Não. Nós temos um problema de consciência com a televisão. Atribuímos uma importância absoluta à televisão. O que aconteceu nas últimas legislativas é um exemplo e vai ter repercussões sérias nas próximas autárquicas. A TVI não está disposta a passar debates por imposição administrativa.

Se não está disposto a isso, qual vai ser a vossa proposta?

Mudar a lei e não só. Tanto quanto sei, a lei eleitoral autárquica é a única lei do período gonçalvista que permanece em vigor. Não faz sentido sermos condenados por não cumprirmos regras do tempo do gonçalvismo.

Isso vai ser uma posição concertada das três televisões?

Estamos a falar sobre isso, porque nas últimas legislativas houve consequências para as três televisões por igual. Não estamos dispostos a fazer debates nestas condições. Se não houver alterações na legislação daqui até às autárquicas, na TVI não haverá nenhum debate.

Que respostas obteve ontem, depois de um dia a discutir o futuro do jornalismo?

Que me parece fundamental transpor para a opinião pública a ideia de que os media geram opinião pública fundamentada e que a opinião pública é um dos ingredientes fundamentais para a vida em sociedade.

Há actividades que estão a desaparecer. E se o jornalismo for uma delas?

Não acredito que isso venha a acontecer. Estamos a correr esse risco, mas enquanto sociedade vamos resistir a essa tentação. O jornalista deixou de ser o filtro entre o que se sabe e o que não se sabe. As redes sociais estão a transformar as relações humanas e deviam estar a mudar o jornalismo.

E o público está informado?

Está.

E sobre o que significa o que é noticiado?

Não. O desafio é esse. O jornalismo interpretativo, assumido como tal, é um caminho que só os jornalistas podem percorrer. Na TVI já procuramos isso, de uma certa forma.

O que é que a TVI está a fazer para oferecer conteúdos informativos a todos os públicos que estão espalhados pelas várias plataformas existentes?

Essa é a maior dificuldade, em tempo de crise e de contenção. As empresas de media estão confrontadas com a diminuição crescente, avassaladoramente rápida, do mercado que as financiava. A nossa razão de ser empresarial está a desaparecer e a audiência potencial está a fragmentar-se. Esse é que é o desafio que vai condicionar o exercício do jornalismo. Enquanto não se vislumbrarem novos ecossistemas de negócios sustentáveis, vamos ser forçados a fazer mais com menos.

As empresas de media deviam estar a cobrar dinheiro ao Google?

Sim. O Google ganha dinheiro com um modelo de negócio importado dos media, que é baseado na publicidade, mas com notícias usurpadas que eles nunca produziram. Isto é absurdo do ponto de vista económico e moral.

A TVI24 tem feito um percurso fulgurante nas últimas semanas. É possível recuperar a distância que a separa dos outros canais de notícias?

Os hábitos mudam-se. O que está a acontecer no último ano e sobretudo desde Setembro demonstra-o.

Precisamos de três canais de notícias?

É a realidade que temos. A TVI24 é uma corrida determinante porque uma grande parte do futuro do jornalismo [televisivo] está necessariamente no cabo. Não vai salvar toda a actividade, mas sem o cabo vai ser extraordinariamente difícil manter o resto.

Na TVI24 temos o fenómeno Marques Mendes, um comentador que dá notícias em primeira mão. Os jornalistas perderam esse espaço para dar notícias e foram substituídos pelos comentadores?

Penso que não. O caso do dr. Marques Mendes é singular e ele tem o enorme mérito de ter construído um caminho que tem feito bons resultados. É um comentador que divulga factos novos.

Teme uma entrada de capital angolano na TVI?

Não. O problema não é a nacionalidade do dinheiro, é a atitude dos donos do dinheiro. Mas isso acontece em Portugal e em todo o lado. Acho que vamos todos, portugueses e angolanos, ter que ajudar a destruir esse preconceito.

A sua redacção vai ser aumentada ou diminuída?

Tem vindo a ser diminuída. E está no limite da sua capacidade para o serviço que estamos a oferecer.