Aleksei German (1938-2013): um cronista da União Soviética

Apenas cinco longas-metragens, entre 1967 e 1998, que são uma crónica, quase contínua, da URSS e particularmente dos anos estalinistas. O cineasta morreu aos 74 anos

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German apanhou em cheio a dureza dos anos 70 e 80 soviéticos. AFP/Anton Belitskiy

Morreu na quinta-feira o realizador russo Aleksei German. Tinha 74 anos e estava hospitalizado, em coma, desde Novembro, padecendo de vários hematomas cerebrais na sequência de uma queda provocada por uma crise cardíaca.

Por várias razões, incluindo as dificuldades que teve para filmar durante a vigência da União Soviética, a sua obra é exígua: apenas cinco longas-metragens entre 1967 e 1998, mais uma que preparava desde 2000 e deixa praticamente concluída. Também por isto, a sua projecção internacional foi muito mais limitada do que a de Aleksandr Sokurov ou dos irmãos Mikhalkov-Konchalovski (Andrei e Nikita), dele aproximáveis em termos geracionais. Em Portugal, por exemplo, nunca estreou nenhum filme dele no circuito comercial, e o que se viu viu-se na televisão, na Cinemateca, eventualmente em festivais. Talvez não imaginássemos era a dimensão do seu prestígio na Rússia: nas notícias postas a circular pelas agências internacionais a propósito da sua morte não surpreende que Sokurov venha citado, dizendo que German “era único”, mas surpreende que até Vladimir Putin tenha comunicado as suas condolências à família.

German apanhou em cheio a dureza dos anos 70 e 80 soviéticos. Depois daquele breve período do “degelo” em que os cineastas da URSS gozaram de alguma latitude nos temas e nas formas, as sequências da Primavera de Praga, em 68, adensaram outra vez os poderes e as preocupações da censura. Julgamento na Estrada, realizado em 1971 (o segundo filme de German), foi “retido” e apenas “libertado” já em plena “perestroika” gorbachoviana. Os outros filmes que fez também passaram por complicações semelhantes, para não falar dos que não pôde fazer – e German trabalhava nos estúdios Lenfilm, da então Leninegrado, que tinham fama de serem muito mais ortodoxos do que os rivais Mosfilm, de Moscovo.

Os cinco filmes de German são uma crónica, quase contínua, da URSS e particularmente dos anos estalinistas. O primeiro, O Sétimo Companheiro, aborda o período do “terror” em que revolução descambou. O segundo (Julgamento na Estrada) e o terceiro (Vinte Dias sem Guerra), focam a “Grande Guerra Patriótica” muito para além das mitologias oficiais. O Meu Amigo Ivan Lapchine, de 1984, possivelmente a sua obra-prima, mostra os anos 30, nas vésperas da grande purga estalinista, numa luz e num ambiente inspirados em Chekhov. Khrustaliov, o meu carro!,  de 1998, o único filme que German estreou depois da URSS, fecha o círculo, centrando-se na paranóia e nas perseguições que se seguiram à morte de Estaline em 1953. Numa entrevista dada ao crítico americano J. Hoberman por altura da estreia desse filme de 1998, e a propósito de “gulags” e julgamentos-fantochada, dizia German: “de certa maneira a Rússia de hoje até é mais simples – dão-te um tiro e pronto”.