Opinião

Mobilidade geográfica, imobilismo social

Um dos mais repetidos lugares-comuns do discurso refundador e liberal passa pela questão da mobilidade. Fala-se em mobilidade geográfica para tudo e nada, de modo implícito ou explícito. Aconselham-se profissionais qualificados a procurar emprego no estrangeiro e postula-se como inevitável que os que trabalham para o Estado devem andar sempre com a casa às costas, se querem manter o seu emprego.

A refundação do Estado apoia-se num discurso que se entusiasma quando trata os indivíduos, as suas vidas pessoais e profissionais como meros indicadores, peças que se movem deste para aquele lado como se fossem desprovidas de identidade, vontade própria. Numa concepção que roça o totalitarismo, fala-se em interesse nacional como algo que não se forma para cumprir os anseios dos cidadãos, mas como algo que se ergue apesar deles.

Fala-se muito em mobilidade, mas, por exemplo em matéria de educação, adoptam-se práticas que conduzem a um imobilismo social próximo do de tempos que se julgavam ultrapassados.

Não tenho especiais ilusões quanto à capacidade de a educação contrariar uma série de handicaps sociais, servindo de alavanca para a promoção social, económica, política ou outra. Basta ver como as nossas actuais alegadas elites políticas e económicas se formaram. Raramente se notabilizaram por feitos académicos ou por um exemplar percurso escolar. Aliás, fazem gosto em afirmar o contrário, exaltando como chegaram ao topo, apesar dos fracos estudos, e em muitos casos sabe-se que apenas buscaram certificação académica.

Lendo os debates parlamentares de final de Oitocentos e início de Novecentos encontramos a maior parte dos apelidos que agora se conhecem, mesmo que numa linha de sombra da governação e legislação. Uns com mais pergaminhos no tradicionalismo monárquico, outros mais na base do republicanismo que já foi radical, não esquecendo ainda a parcela razoável de adesivos de última (ou primeira?) hora a cada mudança de regime. O mesmo para os apelidos dos grandes empresários, agora crismados como empreendedores. Todos ou quase vêm de longe. Dos dois lados se acha que Portugal é deles. Num caso por razões de linhagem distante e entretecida com os braganças ou mesmo afonsinos, no outro porque sentem ter sido eles que salvaram a Pátria quando estava moribunda, mesmo se moribunda vai continuando. Raramente chegaram onde chegaram com base no trampolim social da educação. Vale muito mais uma carreira no aparelho partidário que um ajoujado currículo académico, assim como é muito mais relevante o contacto entre apelidos do que uma descoberta científica sem paralelo.

Por “inovadores” e “empreendedores” entende-se outra coisa: “filhos de algo” com ideias para conseguir dinheiro do Estado ou da “Europa” em nome de um alegado, mas não praticado, liberalismo. Mas tratam como privilegiados os desempregados, os utentes do SNS e os aposentados da função pública.

Erram os que, por deformação ideológica ou conveniência política, encontram no actual regime traços claros do velho Estado Novo. Não é bem assim. Enquanto Salazar chegou ao poder com um passado académico e evidente prestígio pessoal (mesmo que desgostemos das suas ideias e práticas), os protagonistas do poder que temos foram elevados na base da aliança instrumental da proverbial “chico-espertice” nacional (que amiúde se confunde com “empreendedorismo”) com alguns vetustos pergaminhos dinásticos. Aliança destinada a manter – e não a afastar – o poder paternal do Estado. Em proveito próprio.

O Estado Novo defendia o imobilismo social em nome de um ideal de Ordem, de estabilidade, de previsibilidade. Era uma prática visceralmente antiliberal, anquilosante. O actual culto do imobilismo social surge, de modo paradoxal, pela acção de quem se anuncia liberal e arauto de uma nova sociedade baseada na incerteza e na mudança. Mas, no fundo, também aspira a uma Nova Ordem, que pratica a instabilidade e a incerteza. Para os outros.
 

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