Suicídios de empresários da restauração estão a preocupar o sector

"Mais de metade dos empresários lida com problemas de depressão"
Foto
"Mais de metade dos empresários lida com problemas de depressão" NELSON GARRIDO

Associação aponta nove casos de suicídio em três meses. Em 2012, encerraram mais de 11 mil empresas de restauração

A ocorrência de nove casos de suicídio entre empresários da restauração em apenas três meses está a preocupar o Movimento Nacional de Empresários da Restauração. O coordenador deste movimento, José Pereira, estabelece uma associação entre estas mortes e a crise que terá levado ao encerramento de mais de 11 mil estabelecimentos, só no ano passado.

"Cerca de 70 a 80% dos estabelecimentos do sector não têm neste momento dinheiro para pagar salários no fim do mês. Há dívidas ao Estado, aos fornecedores, vergonha perante a família... Está instalado o pânico e não vale a pena esconder esta realidade", sustenta José Pereira. Para o empresário, a catadupa de encerramentos de restaurantes vai continuar nos próximos meses e, porque mais de metade dos restaurantes são microempresas de base familiar, "famílias inteiras vão ficar sem qualquer base de sustento, numa situação tornada mais grave pelo facto de os empresários não terem acesso ao subsídio de desemprego".

Na região do Algarve, a associação dá conta de sete casos de suicídio entre empresários da restauração, em apenas três meses. No Porto, houve mais dois casos num espaço de apenas 72 horas, o último dos quais no passado domingo. "Nalguns destes casos estamos a falar de pessoas com origem humilde que, à medida que foi diminuindo a clientela, começaram a acumular dívidas e que já penhoraram tudo o que tinham para penhorar", acrescenta Pereira, para afiançar que mais de metade dos empresários do sector lida com problemas de depressão.

A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (Ahresp) confirma que no ano passado fecharam 11.077 empresas do sector. "São encerramentos silenciosos, em que, sem recorrerem à figura da insolvência, os empresários simplesmente fecham a porta", diz José Manuel Esteves, secretário-geral da Ahresp. "A esmagadora maioria do sector é composta por microempresas, de cariz familiar, e por isso as consequências são ainda mais gravosas", acrescenta também, para lembrar que o mais recente estudo sobre o impacto do aumento do IVA no sector prevê o encerramento de mais de 39 mil estabelecimentos em 2013. Assim, se em 2012 foram extintos mais de 37 mil postos de trabalho, a previsão aponta para que mais 62 mil postos de trabalho desapareçam no decurso deste ano.

Subida do IVA

Do lado do consumo, José Pereira sustenta que as quebras eram já na ordem dos 30% a 35%, no segundo semestre de 2011. Somam-se a isto o impacto da subida do IVA de 13% para 23%, o aumento do IMI, a nova lei das rendas ("que, em muitos casos, está a provocar subidas da ordem dos mil por cento") e as dificuldades na obtenção de crédito junto da banca e o resultado são "empresários metidos em verdadeiros coletes-de-forças", diz ainda José Pereira.

O empresário lembra que, "ao contrário do que se passa no pronto-a-vestir, nos restaurantes a matéria-prima tem que estar em constante renovação. Mesmo que não se vendam, o peixe e os legumes têm de ser comprados a cada três ou quatro dias". Daí que 70% dos restaurantes, bares e cafés no Algarve estejam encerrados, segundo o mesmo empresário. "É o pânico generalizado. Mesmo os que continuam a facturar alguma coisa o que fazem é chamar os empregados que mandaram para o desemprego para trabalhar algumas horas ao fim-de-semana."

Quanto a medidas capazes de atenuar o efeito da crise, José Pereira diz-se convencido de que "nem que o IVA baixasse agora para os zero por cento ia adiantar alguma coisa, dado o desespero instalado". "Há muitos empresários no limite das suas forças", corrobora José Manuel Esteves, da Ahresp. "O nosso gabinete de crise está constantemente a atender famílias inteiras na iminência de terem de fechar as suas portas e já sem património nenhum."

Sem comentar estes casos concretos, o director do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde (DGS), Álvaro Carvalho, concorda que "a evidência científica internacional correlaciona uma probabilidade aumentada de comportamentos suicidários em períodos de crise e tem sido público que há uma grande crise a nível da restauração em Portugal". Não significa isto que "se possa correlacionar directamente as duas coisas, até porque seriam necessárias autópsias psicológicas para conhecer as circunstâncias de cada caso", ressalva o responsável pelo plano de prevenção do suicídio que deverá ser apresentado em Março. Mais lapidar, o psiquiatra Ricardo Gusmão, docente e investigador na área do suicídio, refere que "não é lícito estabelecer qualquer correlação, sequer reclamar vantagens para um determinado sector, a partir da recolha de casos isolados de suicídio".

P24 O seu Público em -- -- minutos

-/-

Apoiado por BMW
Mais recomendações