Mais betão para cima das artes!

Portugal deve ser o país do mundo que tem proporcionalmente o maior número de auditórios, cineteatros e centros culturais, etc., e o mais baixo volume comparativo de emprego artístico local.

As nossas grandes empresas públicas ou privadas que investem no mecenato cultural - refiro-me sobretudo às artes do espetáculo - têm a mania das grandezas. Não lhes basta olhar para o que existe, já instalado, e apoiar ou encorajar projetos emergentes e inovadores. A primeira ideia brilhante que lhes sai da cabeça é, antes de tudo, lançar mais uma obra de betão que dê nas vistas, de preferência na mesma cidade e se possível bem ao lado de outras que já cumprem funções idênticas. Dá-se ainda preferência a obras que causem complicações com os PDM aprovados, para mostrar quão poderosa é a empresa e grandioso o seu desígnio.

Querem fazer mecenato cultural, mas começam logo por gastar milhões no apoio à construção civil. A seguir guarnecem os novos edifícios de pessoal permanente, mas só administrativo e técnico, e contratam um "programador". Este gere depois o orçamento das atividades culturais. Do saldo final, após descontada a inevitável girândola de grandes eventos, organizados à conta de "êxito acumulado" importado do estrangeiro, sobrará alguma coisa para promover a criação e o emprego artístico em Portugal? Sobra, mas pouco.

Tão pouco que, mesmo somando a Fundação Calouste Gulbenkian, a CGD, a EDP e por aí fora, fazemos o balanço de vinte, trinta, quarenta anos e o que é que verificamos? Se excluirmos do balanço as atividades ou projetos que se têm desenvolvido graças à sua própria sustentabilidade comercial, talvez cheguemos à conclusão de que o desequilíbrio entre o que temos de emprego artístico estável e de capacidade de "exportação" no setor das artes do espetáculo não se alterou significativamente. Ter-se-á até agravado.

Não faltam em Portugal estruturas de produção, grupos, projetos, gente muitíssimo qualificada, novas fornadas de jovens a saírem das escolas e das pós-graduações nas áreas do cinema e do audiovisual, do teatro, da música, da ópera, do bailado, etc. que vivem à míngua ou sem perspetivas de emprego; que provavelmente terão de emigrar para sobreviver (após todo o investimento que o Estado português fez na sua formação); que são obrigados a trabalhar em condições amadorísticas e intermitentes, apesar de serem excelentes profissionais.

E o que fazem os mecenas? Em vez de patrocinarem projetos que promovam o emprego artístico, aumentem a massa crítica das estruturas de produção artística, favoreçam a sua implantação local e, por via dessa consolidação e desenvolvimento, incentivem a sua projeção internacional como "exportadores" de cultura, que fazem eles? Atiram mais betão para cima das artes!

Todos esses teatros e cineteatros, auditórios, centros de artes sorvem fundos consideráveis. Mas, na sua grande maioria, não albergam um projeto artístico. São estruturas, não raro, de luxo, mas sem "alma": pedras-mortas, como diria António Sérgio. Entretanto, há gente cheia de potencialidades condenada ao desemprego ou a trabalhar em "vãos de escada"! Numa tal situação, a que se soma uma crise destruidora do tecido social e da nossa própria identidade cultural, insistir-se na mesma receita é um escândalo. Se o Estado não tem dinheiro para apoiar a cultura, então que tenha ao menos a decência de chamar à razão os mecenas. Mecenato, sim, mas em investimento reprodutivo: nas "pedras-vivas"!

Professor catedrático (FCSH-UNL); Ex-secretário de Estado da Cultura