Debaixo do deboche: a poesia

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Intencionalmente ou não, o género literário que Dalton Trevisan mais pratica é quase marginal. Os elogios da crítica são um feito notável para um contista

Um joaquim

Joaquim. Assim se chamava a revista criada por Dalton Trevisan em 1946, tinha o autor 20 anos. Joaquim, "Em Homenagem a Todos os joaquins do Brasil", talvez repuxando o direito de aqueles joaquins, no meio dos quais Trevisan se via, se fazerem ouvir. Enfim, uma revista literária como as melhores: a querer ser mais do que uma revista.

E foi. Dela emergiram vozes como a do seu criador, Dalton Trevisan, mas também Antonio Cândido, Mário de Andrade, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, só para citar os mais conhecidos. Aliás, foi tão mais do que uma revista que deixou de o ser abruptamente, sem pré-aviso, depois de um elogio do deputado federal Gilberto Freyre que terá provocado em Trevisan o medo de que a quisessem institucionalizar. E assim acabou, no número 21 (Dezembro de 1948), que tinha até um conto incompleto de Trevisan, cuja segunda metade sairia no número 22. Hoje a Joaquim é uma peça de alfarrabista. Uma rápida busca na Internet permite-nos encontrá-la à venda a um preço médio de 250 reais - pouco mais de 90 euros.

A valorização da revista, aliás, andará muito às costas da fama que granjeou o seu criador. E a fama que este granjeou, andará muito às costas da atitude que adoptou? Talvez a Joaquim fosse já um indício do que viria a ser Dalton Trevisan, o escritor: marginal, ou paralelo, como diria Vítor Silva Tavares, fazendo o seu percurso pelos caminhos que mais garantias lhe dão de não se cruzar com ninguém. Aquele suicídio literário - matar os joaquins quando os joaquins estavam perto de ser alguém - era já um ensaio para o escritor, ele próprio um joaquim.



Um vampiro

Acontece com Salinger, Pynchon e também com Dalton Trevisan. Fala-se de um deles a alguém que os não conhece e, invariavelmente, uma das primeiras coisas que se refere é a sua atitude reclusiva. Só depois nos lembramos de falar dos livros. Se assumirmos que os autores esquivos se furtam da vida pública para que tudo o que fique seja a obra, é um triste facto que essa fuga se vire contra o fugitivo e que o mais importante não seja a obra, nem sequer o autor, mas a reclusão em si mesma. Ainda assim, na competição de maior bicho-do-mato, Trevisan perde para Salinger. É que este último levou a sua reclusão ao extremo de deixar de publicar, ao passo que Trevisan tem mais de 40 livros.

Intencionalmente ou não, o género literário que Dalton mais pratica é em si mesmo um género quase marginal: o conto. Que se tenha feito ler, que tenha granjeado elogios quase unânimes da crítica, a ponto de ter ganho em 2012 o Prémio Camões, são feitos notáveis para um contista. Não que isto contribua para atenuar o estigma do género - que é uma espécie de esboço para o romance, que serve para o escritor ganhar a mão, que é fácil, que etc. -, mas é ao menos uma esperançazinha para os contistas (e haverá alguns, ainda?), como quem lhes diz que o mundo apenas demora um pouco mais a chegar, porque entretanto há por aí tantos romancistas a quem dar prémios. Verdade seja dita, contistas há muito poucos. E se os pedirmos bons, daqueles que provam que o conto não é o primo enjeitado do romance, então temos de esperar sentados.

Ainda assim, Trevisan, como quase todos os contistas, não resistiu a provar uma vez o romance: e a experiência de A Polaquinha, um dos três títulos com que a Relógio d'Água abriu a colecção Dalton Trevisan que tem vindo a publicar, não correu mal. Podemos encará-lo como um contrapeso a O Vampiro de Curitiba. Se neste último - que, apesar de ser um livro de contos, tem um "herói" transversal - acompanhamos as desventuras de Nelsinho nas suas conquistas, em A Polaquinha é uma mulher a protagonista e o romance acompanha, também, as suas aventuras. E onde o Vampiro é pudico, a Polaquinha descontrola-se. Falamos das suas descrições, não das personagens, que poderiam bem viver juntas e felizes para sempre.

Fosse pela qualidade do texto, fosse por ser um dos primeiros (de 1965), fosse porque o título se adequava, O Vampiro de Curitiba extravasou os limites de obra e passou a designar também o autor. Porque o vampiro é avesso ao convívio, como Dalton, e porque é de Curitiba.



Um poeta

Talvez o artigo devesse ter começado assim: Dalton Jérson Trevisan (nome bastante distinto para quem queria ser um joaquim) nasceu em Curitiba, a 14 de Junho de 1925. Venceu por unanimidade, em 2012, o Prémio Camões, o mais importante galardão da literatura de língua portuguesa. A Relógio D'Água, que já tinha publicado nos anos 80 Cemitério de Elefantes, iniciou no final do ano passado a publicação das obras do autor (e se os méritos devem ser reconhecidos - que Francisco Vale, o editor, criou um dos mais sólidos catálogos editoriais portugueses -, as falhas também devem ser apontadas: as capas da editora são cada vez mais feias; talvez porque o principal - único? - mérito do designer seja o de ser filho do editor).

Saíram, para já, Novelas nada Exemplares (1959), O Vampiro de Curitiba (1965) e A Polaquinha (1985). Com eles podemos construir já um cartão de visita de Dalton Trevisan. Se os dois últimos denunciam, veementemente, uma apetência muito particular para fazer do jogo homem-mulher tema fulcral das histórias, o primeiro revela algo que estes apenas deixavam transparecer: que por baixo do deboche há a poesia. Disfarçada de imitação da oralidade, a escrita de Trevisan tem em si, mais do que a linguagem poética, o ritmo da poesia. As frases curtas, a omissão de palavras, as frases interrompidas a meio, idem. Tudo isto conjugado com uma construção frásica que, em bastantes momentos, está mais próxima do português de Portugal do que estaríamos à espera. Não é, todavia, uma leitura escorreita como, digamos, a de um Rubem Fonseca. Nem deve ser. A poesia que Dalton faz com palavras comuns tem de ser degustada.

O melhor sítio para o fazer, por enquanto, é nas Novelas nada Exemplares. Aqui nos apercebemo de que joaquim, o vampiro, é afinal um poeta, seja a falar do último engate da loirinha com o motorista do autocarro, seja a falar da morte.

Para breve, a Relógio D'Água trará a reedição de Cemitério de Elefantes, bem como as edições de A Trombeta do Anjo Vingador, A Guerra Conjugal e O Rei da Terra. Afinal os prémios ainda servem para alguma coisa.