Paulo Penedos não crê que Figo tenha apoiado Sócrates por convicção

Arguido do processo Face Oculta diz-se chocado com o valor do contrato firmado entre parque tecnológico e futebolista.

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Paulo Penedos, aqui no julgamento do processo Face Oculta Adriano Miranda

O advogado e militante socialista Paulo Penedos declarou nesta segunda-feira em tribunal não acreditar que tenham sido questões de cidadania ou convicção a impelir Luís Figo a apoiar José Sócrates durante a campanha para as legislativas de 2009.

Assessor jurídico e camarada de partido de Rui Pedro Soares quando este era administrador da Portugal Telecom, Penedos escusou-se, porém, a explicar a troco de que terá então o futebolista expressado o seu apoio ao primeiro-ministro.

Num julgamento destinado precisamente a apurar se Rui Pedro Soares e outros dois arguidos usaram dinheiros de uma empresa com capitais públicos, a Taguspark, para comprar o apoio de Figo ao PS, o testemunho do ex-assessor jurídico poderia ter-se revelado crucial. Mas deixou afinal mais dúvidas do que certezas.

“Não estou a ver Figo levantar-se de manhã e decidir apoiar José Sócrates por uma questão de cidadania. Não acredito que o tenha feito por um imperativo de consciência cívica. Pertence a uma geração de desportistas que não dá ponto sem nó”, afirmou Paulo Penedos, escusando-se, no entanto, a estabelecer uma relação entre o contrato de 750 mil euros assinado pelo futebolista para promover o parque tecnológico de Oeiras durante três anos e o seu arroubo socialista. "Essa ligação foi-me negada categoricamente” por Rui Pedro Soares, frisou. “E o contrato com Figo é muito anterior ao seu apoio”. 

Nas escutas da Judiciária, as palavras que o ex-assessor jurídico troca ao telefone com outra figura do PS, Marcos Perestrello, quando o negócio começa a esboçar-se parecem de entusiasmo: conta que Rui Pedro Soares “conhece toda a gente” e como “os gajos em que ele tropeça do mundo da bola estão a apoiar o PS e Sócrates”. “Depois todos têm por trás contratos”, acrescenta Paulo Penedos na mesma conversa.

“Ele há dias disse-me muito contente, que tinha conseguido que o Figo apoiasse o Sócrates e eu disse ‘boa e tal’, claro que é importante”, ouve-se ainda dizer o ex-assessor na dita conversa. “E hoje ligou-me a pedir que eu lhe fizesse um contrato de patrocínio para a Fundação Luís Figo, à razão de 250 mil euros por ano”.

Só que a fanfarronice que o Ministério Público descortina no diálogo escutado em 2009, assegura hoje Penedos que mais não era do que preocupação: “Visto de fora este negócio tinha muito mau ar”. As autoridades acharam o mesmo, acusando o administrador da Portugal Telecom e dois administradores do parque tecnológico, Américo Thomati e João Carlos Silva, de corrupção passiva.

E se há três anos e meio o então assessor jurídico parecia entusiasmado com as proezas políticas do seu amigo administrador, hoje revela-se chocado com as somas envolvidas no negócio da Taguspark com Luís Figo, que será ouvido em tribunal apenas na qualidade de testemunha. O Ministério Público não tem dúvidas de que negociou e recebeu contrapartidas por apoiar Sócrates, mas o desconhecimento de que o Tagupark era uma sociedade de capitais maioritariamente públicos fez com que não tenha sido constituído arguido.

“Para mim o valor do contrato com Figo era pornográfico, astronómico. Desconfio que nem o George Clooney levaria tanto dinheiro”, disse Paulo Penedos aos juízes. “A nível planetário quem se interessa por futebol conhece-o. Mas as pessoas normais sabem lá quem ele é!”.

Arguido no caso Face Oculta, Penedos contou que não foi só a ele que desagradou o tamanho da despesa: “Américo Thomati torceu-se todo, e João Carlos Silva também achou o valor exagerado”. Questionado sobre o facto de este antigo administrador do parque tecnológico ter dito pouco antes ao tribunal que sempre apoiara o contrato com Figo, o antigo assessor jurídico manteve-se na sua: lembrava-se perfeitamente de Thomati ter torcido o nariz ao assunto, embora o negócio tenha mesmo acabado por ser feito, com a Taguspark a rescindir o acordo um ano mais tarde.

Entretanto, a juíza que preside ao colectivo encarregue deste julgamento anunciou que foi mal interpretada quando produziu um despacho que impedia aos jornalistas de citar os depoimentos das testemunhas em tribunal, tendo autorizado a normal cobertura do caso.