Antigo administrador da RTP recorda pressões do PS quando estava à frente da TV pública

Julgamento do caso Taguspark prossegue no Tribunal de Oeiras. Dois dos três arguidos estão a ser ouvidos.

João Carlos Silva à entrada para o Tribunal de Oeiras
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João Carlos Silva à entrada para o Tribunal de Oeiras Enric Vivies-Rubio

O antigo administrador da RTP, João Carlos Silva, um dos três arguidos no caso Taguspark que está a ser julgado em Oeiras, recordou na manhã desta segunda-feira em tribunal as pressões de que foi alvo por parte de camaradas seus socialistas depois de ter ido integrar o conselho de administração da TV pública, em 1999.

“Eu recebia queixas de que as notícias não eram como deviam ser. Recebi cartas de dirigentes importantes do PS a dizer que estava a deixar que as estruturas da informação fossem controladas por adversários do partido”, relatou, apontando José Junqueiro e Jorge Coelho como dois dos autores dessas alegadas pressões.

Jorge Coelho, disse, chegou a apresentar na altura uma queixa contra a televisão do Estado na Alta Autoridade para a Comunicação Social por a RTP ter coberto um evento do PSD em Viseu mas não um do PS que se realizou na mesma cidade. A queixa acabou por ser arquivada.

Foi anos depois de deixar a RTP que João Carlos Silva integrou a equipa de administradores do Taguspark, onde esteve entre Maio de 2009 e Junho de 2010. A contratação do futebolista Luís Figo por 250 mil euros anuais, durante três anos, para promover o parque tecnológico de Oeiras faz com que responda agora por corrupção, juntamente com outros dois antigos dirigentes do Taguspark, Américo Thomati e Rui Pedro Soares. Os três são acusados de terem usado o dinheiro para comprarem o apoio do futebolista ao antigo primeiro-ministro, José Sócrates, em plena campanha para as legislativas de 2009.

Tal como os outros dois arguidos, também Américo Thomati sublinhou esta manhã perante os juízes a necessidade de relançar um parque tecnológico que apresentava já alguns sinais de decadência.

“O esgoto do ar condicionado dos edifícios dedicados à inovação era feito com baldes de plástico”, declarou Thomati, reportando-se à altura em que entrou para o Taguspark, em 2007. “Eu nunca tinha visto semelhante engenharia de último grau.”

Questionado pelo procurador Luís Elói sobre o significado de uma conversa entre Rui Pedro Soares e o então seu assessor jurídico, Paulo Penedos, escutada pela Judiciária, na qual mencionava o facto de Thomati ter mudado as suas posições depois de “ter levado uma cacetada” de alguém, o antigo presidente da comissão executiva do Taguspark respondeu: “Não senti cacetada nenhuma. Não podiam estar a referir-se ao contrato com Figo, que sempre apoiei”.
 
 

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