"Cidadãos por Coimbra" preparam candidatura independente à câmara

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Em Coimbra, o PSD recandidata Barbosa de Melo. O PS avança com o ex-presidente Manuel Machado e o CDS com o vereador Luís Providência PAULO RICCA

Movimento congrega pessoas de várias sensibilidades políticas de esquerda e deverá apresentar-se publicamente a 4 de Março. Antes, a 22 de Fevereiro, há uma reunião de apoiantes

Quando forem escolher o presidente da Câmara de Coimbra, os cidadãos do concelho vão poder decidir entre mais do que os candidatos dos partidos de sempre. No boletim de voto deverá aparecer, pelo menos, mais uma escolha, a dos "Cidadãos por Coimbra", um movimento independente, com gente de partidos e sem partido algum, que quer convencer os eleitores de que é possível fazer uma política diferente. O movimento prevê apresentar-se publicamente a 4 de Março, mas já fez circular uma carta em que expõe alguns dos princípios que o orientam.

A carta é assinada por Ana Pires (geógrafa, militante do PS e figura conhecida na cidade, pela sua ligação à Associação Cívica ProUrbe e por ter sido directora regional de Cultura do Centro), José Dias (técnico de turismo e antigo assessor de Jorge Sampaio, que passou pela mesma associação), Miguel Cardina (historiador, músico e dirigente do Bloco de Esquerda) e Olinda Lousã (bancária e dirigente sindical, sem filiação mas vista como próxima do PCP). Entre os princípios defendidos no documento está a recusa na privatização dos serviços de água da cidade, do "excesso de construção", da "flagrante falta de planeamento urbano". A carta assume "a ambição [...] de valorizar o património ambiental desperdiçado" e de encontrar "uma solução urgente" para as "duas crateras a céu aberto" deixadas pelo abandono da ligação ferroviária da Lousã e do metro de superfície. Caminhos que o movimento entende serem essenciais para alcançar o objectivo central, exposto logo no início do texto: "É urgente elevar Coimbra a um nível de ambição que, nas últimas décadas, não foi atingido. É esse o nosso compromisso."

Ana Pires não quer levantar muito o véu do que será apresentado aos cidadãos, a 4 de Março, mas admite que, nessa altura, já seja avançado o nome de, pelo menos, alguns dos candidatos. E garante que o movimento não surge contra os partidos. "A democracia precisa de partidos, eles são essenciais. Agora, eles não esgotam as formas de participação democrática e temos de aprender a viver com estas novas situações", diz.

Ainda assim, quando questionada sobre se a escolha do candidato socialista para a câmara teve influência na decisão de o movimento se apresentar a eleições, Ana Pires hesita: "Não sei responder a isso."

O PS apresentou como candidato à câmara o antigo presidente Manuel Machado, que governou a cidade entre 1989 e 2001, antes de ser derrotado pela coligação PSD/CDS/PPM, liderada por Carlos Encarnação, que acabaria por abandonar a autarquia, a favor de Barbosa de Melo, já neste mandato. Barbosa de Melo, que chegou a presidente sem ter sido eleito para tal, é o candidato social-democrata, e o CDS vai candidatar Luís Providência, actual vereador do município. O candidato da CDU ainda não foi anunciado.

Num artigo publicado no PÚBLICO, em Janeiro, o sociólogo Elísio Estanque parecia apontar o caminho aos "Cidadãos por Coimbra". Referindo-se aos candidatos do PSD e do PS à câmara, dizia: "Perante este cenário, aos cidadãos de esquerda em geral e aos eleitores e militantes socialistas em particular só restam duas atitudes: ou se resignam a esta realidade e se acomodam, abstendo-se ou votando rotineiramente nos "emblemas" do costume; ou respondem a estas manobras promovendo uma alternativa, uma candidatura de unidade com base num movimento independente e dinâmico, capaz de congregar apoios em diversos sectores da cidade."

Ana Pires, que partilhou com Elísio Estanque a direcção da ProUrbe, admite que o investigador participou em várias conversas, envolvendo outras pessoas que estão hoje no "Cidadãos por Coimbra", mas recusa colar o nome dele ao movimento. "Ele partiu para o Brasil logo a seguir a ter escrito esse texto. Julgo que está connosco, mas não me sinto 100% segura", diz. O PÚBLICO tentou ouvir Estanque, sem sucesso.

Antes da apresentação oficial, marcada as 19h de 4 de Março, no Café Santa Cruz, o movimento vai promover uma reunião de apoiantes - em que podem participar todos os interessados -, às 21h30 de 22 de Fevereiro, no Bar Galeria de Santa Clara. "Queremos dizer às pessoas: "Estamos aqui, isto é para ser levado a sério, temos algo novo para dizer e queremos que muitos se juntem a nós"", diz Ana Pires. E insiste que o movimento "não nasceu contra ninguém". "Queremos ter uma ambição para Coimbra e vamos ver com quem vamos trabalhar para garantir essa ambição", diz.