Opinião

Mais de 99% dos portugueses nunca votaram nas eleições para escolha dos candidatos a primeiro-ministro (diretas do PS ou PSD)

Com quase 39 anos de vida em democracia, este facto é muito revelador da fraqueza da nossa sociedade civil, informada e opinativa, mas demasiado passiva e "ausente" das escolhas decisivas para o nosso futuro.

As escolhas que os nossos principais partidos fazem para a sua liderança (e consequentemente, candidato a primeiro-ministro), candidatos a deputado e candidatos a presidentes de câmara, não são um assunto interno de cada um dos partidos, mas sim, uma questão do maior interesse público, pois delas resultam os governantes e representantes de todos nós.

Infelizmente duas tendências condicionaram negativamente o desenvolvimento de uma democracia partidária escrutinadora, rica em alternativas e meritocrática.

Por um lado, a sociedade civil mais esclarecida e informada tem optado por se pôr de fora das grandes escolhas para o país que ocorrem dentro dos principais partidos nas suas eleições internas, preferindo um papel inconsequente (independente), sem qualquer poder de voto ou de formar e apoiar candidaturas alternativas nestes partidos.

Por outro lado, a muito reduzida base de militantes destes partidos, maioritariamente constituída por apoiantes de líderes concelhios (as eleições concelhias são disputadíssimas, com práticas abusivas de inscrição maciça de pseudomilitantes), faz com que nas eleições de carácter naciona,l como por exemplo a eleição do líder do partido, a maioria dos militantes que votam sejam os apoiantes dos líderes concelhios que com a sua influência os instruem de votar no seu candidato preferido.

Consequentemente, para se conquistar o poder no PS ou PSD é preciso “conquistar” os líderes concelhios e distritais com maior base de militantes. Por essa razão, têm tanto valor os “homens fortes do partido” muito bem relacionados com estes líderes como as campanhas de charme permanentes nas concelhias. A escolha do próximo líder do partido, logo, possível primeiro-ministro, está nas suas mãos.

Esta realidade tem de mudar, pois é evidente que tem consequências nefastas para a democracia e para o país, hoje à vista de todos. Há dois caminhos para esta mudança: 1) A entrada da sociedade civil nos nossos principais partidos, como militantes de pleno direito para votarem e se candidatarem nas suas eleições internas; 2) Abrir as eleições diretas partidárias para escolha da liderança a todos os simpatizantes e eleitores do partido, tal como o fez recentemente o PS francês ou o Partido Democrático italiano.

Este é provavelmente um dos debates mais importantes sobre o que tem de mudar na nossa democracia, e todos temos o dever de tomar posição.

João Nogueira dos Santos e Carlos Macedo e Cunha
Fundadores do movimento “Cidadãos aos partidos. Adere, vota e intervém dentro de um partido” e militantes do PS e PSD, respetivamente

 

Artigo escrito segundo o novo Acordo Ortográfico