O último filme de River Phoenix é um rascunho do que não chegou a ser

Foto
Phoenix é Boy, um eremita que mora no deserto do Nevada com o cão dr

Dark Blood, completado 20 anos depois da morte do actor, foi exibido em Berlim

Saímos de Dark Blood com uma enorme sensação de vazio. O último filme do actor River Phoenix (1970-1993), foi finalmente completado 20 anos depois da sua morte, a 31 de Outubro de 1993, em Los Angeles, de overdose.

Em Berlim, onde Dark Blood passou fora de concurso, o realizador George Sluizer e o actor Jonathan Pryce recordaram ontem um jovem "notável", educado, mais maduro do que os seus 23 anos. Dele guardam as melhores memórias - "uma jóia de rapaz, muito empenhado e muito sério no trabalho", disse Pryce.

Mas é legítimo perguntar se não haverá algo de aproveitamento mórbido, de exploração do mito do actor que morreu demasiado jovem, nesta exumação das últimas imagens que rodou. É uma ideia que desaparece ao ver o cineasta holandês, com 80 anos, entrar na sala de conferências do Hotel Hyatt, em Berlim, apoiado em duas bengalas.

Foi quando lhe diagnosticaram um aneurisma, em 2007, que o realizador - que rodou em Portugal Mortinho por Chegar a Casa e a adaptação de AJangada de Pedra de José Saramago - decidiu montar o filme, talvez pensando no que tem acontecido a outros tantos projectos que ficaram inacabados ou foram mutilados pelos produtores. "A minha ideia era preservar as qualidades criativas nas interpretações e no trabalho da equipa técnica, juntar o filme de modo a que pudesse ser mostrado", disse aos jornalistas.

Visto por esse prisma, Sluizer decidiu terminá-lo enquanto ainda podia ser ele a fazê-lo. Até porque o material ainda pertence à seguradora, que dele se tornou dona depois da overdose de Phoenix.

A equipa acabara de passar cinco semanas em rodagem de exteriores no Utah e seguiria para três de interiores em Los Angeles. (Essas questões legais impedem, para já, que Dark Blood seja exibido comercialmente, estando a sua circulação limitada a festivais.)

Mas percebe-se desde o início que falta muito do material narrativo que iria servir de "cola" para a história fazer sentido - substituído por imagens fixas ou planos de corte sobre as quais Sluizer lê as cenas em falta. Phoenix exibe a sua presença (mas pouco mais) como Boy, um eremita que mora com o seu cão no deserto do Nevada desde a morte da mulher. A chegada de um casal de turistas (Judy Davis e Pryce), cujo carro avaria, vem revelá-lo como um jovem inseguro e perturbado, perdido na desolação da paisagem do Oeste americano (magistralmente fotografada por Ed Lachman).

"Quando decidi começar a montar, não tinha ideia nenhuma se o material era suficientemente bom ou se valeria a pena sequer tentar fazê-lo", explicou Sluizer. "Digitalizei algumas das cenas e senti confiança suficiente no que tínhamos filmado para avançar." Entre o material que não tinha sido rodado ("cerca de 20% da história") e outro que se perdeu ("algumas bobinas, cenas onde só tínhamos o som ou a imagem"), Sluizer teve de retrabalhar o guião original de Jim Barton para poder terminar o filme. "Foi necessário repensar a história para a tornar compreensível."

Compreensível está, mas isso não quer dizer que faça sentido. Estamos sempre à espera que Dark Blood explique a sua razão de existir, mas as personagens não têm espessura (talvez pela falta do que nunca chegou a ser filmado). Ficamos sempre na dúvida sobre as suas razões, tudo se resolve numa espécie de jeu de massacre algo histérico e pouco nítido.

Não podemos culpar os actores - no fundo, Dark Blood é muito mais um "rascunho" do filme que não chegou a ser acabado. É nessa condição que temos de o ver. E muitos não quererão deixar de prestar essa última homenagem a River Phoenix.

Sugerir correcção