Há um boom europeu a oriente

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Obra do artista turco Yusuf Sevinçli, da galeria Elipsis, especializada em fotografia DR

Na Europa, há um país em expansão económica: a Turquia. É o convidado de honra da Arco, a feira de arte contemporânea de Madrid que hoje abre com mais de 200 galerias, 11 portuguesas

Manhã de quarta-feira, primeiro dia de visitas profissionais na Arco Madrid, a mais importante feira ibérica de arte contemporânea: ao contrário do que acontecia na década de 1990, quando esta era praticamente a única plataforma de internacionalização da arte portuguesa, já não se vêm galeristas empoleirados em escadotes a resolver problemas de último minuto. Foi noutro século, quando o mundo como o conhecemos era ainda jovem. Agora estamos em 2013.

Na terça-feira à noite, 205 galerias, vindas de 27 países - entre as quais 11 portuguesas -, deixaram os seus stands prontos, com todas as obras no lugar. Na quarta-feira, ainda antes do pequeno-almoço das 10h, foi acender as luzes. Depois abriram-se as portas dos Pavilhões 8 e 10 da Ifema. E então começaram a entrar os coleccionadores e curadores, a imprensa e os outros convidados.

Às seis da tarde já não se conseguia circular dentro de alguns stands, várias galerias tinham já assinaladas obras vendidas e a sala VIP era uma colmeia a ferver de actividade. Isto, a dois dias da entrada do grande público, que começa apenas hoje. Mas, mesmo assim, há quem diga que 2013 será um ano para esquecer.

O ano 2010 foi o ano horribilis, por entre a mais grave crise interna de sempre da feira. Foi quando houve notícia de intervenção directa da direcção comercial na escolha de participantes, quando um grupo de galeristas de peso ameaçou boicotar a edição de 2011 e quando a então directora, Lourdes Fernández, acabou por se demitir. Carlos Urroz, o actual director, foi então nomeado. Mas 2013 poderá estar a pôr fim ao seu estado de graça: os galeristas espanhóis não estão contentes com o aumento do IVA de 18% para 21% na cultura e acham que a Arco podia ter feito mais pressão junto do Governo. Pior do que não estarem contentes: a juntar à crise e aos previsíveis bolsos vazios das instituições, temem o que isso possa implicar em termos de negócios junto dos compradores privados. "Todos estamos de acordo em que este aumento não é bom, nem para o mercado nem para as galerias", reconheceu Carlos Urroz na apresentação da feira.

É um tema que diz pouco aos participantes vindos da Turquia, o país convidado deste ano. Ou, melhor será dizer, é um tema que diz pouco às dez galerias vindas de Istambul e que compõem o contingente turco. Porquê só galerias de Istambul e nenhuma outra cidade? "É onde está o dinheiro", dir-nos-á Vasif Kortun, o comissário principal desta participação.

Istambul, século XXI

Orhan Pamuk, o único Nobel turco, descreveu um dia Istambul como "uma imitação pálida, pobre e de segunda classe de uma cidade ocidental". Não se referia à Constantinopla mítica, a capital do Império Otomano, em tempos a maior e mais rica cidade da Europa. Referia-se à Istambul do século XX. Mas, mesmo nesse século, para as artes plásticas, diz-se hoje ter havido um antes e um depois de Vasif Kortun.

Kortun, um homem alto, magro e de olhar afável mas incisivo, nasceu em Istambul em 1958 e foi lá que completou o liceu. Depois foi estudar para Nova Iorque, onde entre 1994 e 1997 foi director fundador do museu do Centro de Estudos Curatoriais do Bard College. E então decidiu voltar à Turquia. Quando dizemos que o mercado tradicional do eixo Europa-Estados Unidos morreu, esquecemo-nos sempre de que a oriente está a Turquia. E que a Turquia tem uma economia florescente. O que se reflecte numa cena artística que nos últimos seis, sete anos começou verdadeiramente a vibrar.

Nos anos 1980 houve figuras importantes. Mas eram lobos solitários no território adverso do golpe de Estado de Kenan Evren e toda a instabilidade seguinte. Só depois a economia foi liberalizada. E, apesar do Curdistão ali ao lado, com os seus mais de oito mil artistas, intelectuais e estudantes presos por Ankara, a Turquia estabilizou e começou a sonhar com a Europa.

Vasif Kortun estava a fundar a Plataforma Garanti quando, em 2001, a economia nacional foi outra vez abaixo. Mas insistiu. No mesmo ano, fundou ainda o Project 4L, o primeiro museu de arte contemporânea de Istambul, onde esteve até 2003. Agora é director do multimilionário SALT, fundado no ano passado nos cinco andares do edifício do século XIX do antigo Banco Otomano.

São cem mil metros quadrados de mármore branco com uma biblioteca, sala de cinema e restaurante panorâmico no distrito de Galata, uma zona junto ao Corno de Ouro onde há alguns anos não havia mais do que edifícios abandonados e antigas lojas de materiais de construção.

Entre artistas e galeristas, diz-se que Kortun adivinha aquilo que as grandes instituições internacionais vão pensar a seguir. E toda a gente o conhece quando percorremos os corredores das galerias por ele convidadas para a Arco.

Muitas têm não mais de três, quatro anos de actividade, e a maior parte dos seus donos não passa dos 30. Mas isso é metade da população da Turquia, que é um país jovem e com cidades como Istambul, com perto de 15 milhões de habitantes. Mesmo assim, nem tudo começou ontem. Antes, "houve bons momentos na Turquia", diz-nos Kortun, "por exemplo nos anos 60". Foi "quando tudo era esperança em todo o mundo". Depois ficaram só "os velhos resistentes dos anos 70 e princípio da década de 80".

Na Turquia, "há um sistema muito descontínuo". Fará lembrar Portugal, mas a contratempo. "A crise foi enorme até 2003." Depois, tudo começou a reemergir, sobretudo com uma escalada em Istambul. "Eu confio muito em todas estas galerias. Confio no seu empenho. Porque ser uma boa galeria não é só vender."

Kurtun deixa-nos aqui. Tem uma reunião com directores de museus internacionais. Ficamos com Lara Fresko, sua colaboradora e co-comissária da participação turca na Arco.

Estamos em frente à Non. No stand a seguir, na Galerie Manâ, há uma única peça, uma instalação vídeo com dez monitores em que se projectam imagens de registos íntimos de duas famílias inglesas. Crianças a brincar na neve, as mães a colher flores no jardim, uma viagem ao campo. O título é fff - de found family footage (registos de família encontrados). O artista por detrás desta obra não conhece as pessoas que ali mostra. É Kutlug Ataman (n. 1961), o mais conhecido artista turco dos circuitos contemporâneos internacionais.

Na Arco, Ataman tem ainda uma obra fora dos stands da participação especial do seu país, a grande instalação vídeo Mesopotamian Dramarturgies/Mayhem, em que ficamos submersos em projecções de água revoltosa a cair em catarata. "É sobre a destruição de velhas estruturas para a criação de outras. É uma resposta directa aos levantamentos políticos e revoltas a acontecer na minha região", escreveu o artista em 2011, quando apresentou esta peça pela primeira vez.

Lara Fresko dir-nos-á que em Espanha e Portugal "sente-se agora a urgência da crise, mas a Turquia está sempre em estado de emergência. É preciso olhar de perto, ver o que está por detrás. Na Turquia, podemos estar a viver um certo boom, mas não há uma bolha cor-de-rosa". Há demasiadas questões. E muitas delas estão na obra dos artistas representados na Arco.

Estamos ainda à entrada da Non. E, na Non, que representa artistas mais emergentes e menos conhecidos do que Ataman, está um subtil tríptico de Meriç Algün Ringborg (n. 1983). São três folhas brancas com sequências de números a vermelho, azul, púrpura, preto e verde. Pontualmente, as colunas de números têm espaços em branco.

Os números correspondem às datas de vistos no passaporte da artista para diferentes estadas na Suécia, onde vive. Primeiro teve um visto turístico, e a cada três meses tinha de sair, voltar à Turquia. São os números a azul. Depois apaixonou-se, casou-se com um sueco, teve direito a um título de residente temporária. Mas ainda tinha de sair. São os números a vermelho. E as colunas a branco transformaram-se no tempo que passava longe do marido. Os números a púrpura são as entradas e saídas como futura residente permanente. A partir do momento em que obteve esse título, os números passaram a preto. Os verdes correspondem às entradas e saídas enquanto esperava enfim pela cidadania. E então a peça acaba no vazio, a meio de uma coluna. Começa a 21 de Julho de 2007 e acaba a 31 de Junho de 2012. Quatro anos.

O título é Becoming European e a primeira edição custa cinco mil euros, o que, noutros anos, não era um preço alto para a Arco. É um preço médio para peças de artistas turcos com cerca de 30 anos e já com algum percurso. Apesar de haver valores mais altos. Muito mais altos.

A Rampa, por exemplo, representa Hüseyin Bahri Alptekin (n. 1957), um artista de culto na cena turca, representante nacional na Bienal de Veneza de 2007, com curadoria de Kortun, seu grande amigo. Alptekin morreu nesse ano, quando o seu trabalho chegou também à Tate Modern. Sete anos antes, fizera o políptico Melancholia in Arcadia, com 30 fotografias tiradas num hospital em Ossétia, onde esteve internado. A peça está marcada a 33 mil euros.

Na Rampa, está ainda um retrato que Alptekin fez de Butch Morris. O músico e compositor americano que era seu amigo e que morreu este ano surge a fumar um cigarro banal enquanto olha para um Cohiba apagado num cinzeiro. É uma imagem de grandes formatos, marcada a 19 mil euros. Um valor mais baixo do que o das fotografias de Halil Altindere (n. 1971), um dos primeiros artistas curdos a estabelecer-se nos circuitos contemporâneos - na Pilot, as suas fotografias de transexuais em personagem (uma enfermeira, uma miss com a faixa de Miss Understood...) custam entre 22 mil e 24 mil euros.

Mas, ao contrário dos galeristas de alguns dos países que em anos anteriores foram convidados de honra e pareciam mais expectantes com as vendas - ainda que não o confessassem -, os galeristas turcos mostram-se, de facto, mais apostados nos contactos a médio prazo que a feira lhes possa trazer do que no negócio imediato.

Desde o princípio da crise, em 2008, o mundo voltou a mudar. Talvez agora uma participação especial como a turca diga mais da Arco - de Espanha e do resto da velha Europa - do que propriamente do seu convidado "exótico". "A Arco ganha acesso ao mercado turco e aos seus coleccionadores, que vêm ver os seus artistas. Nós tentamos activar outros aspectos", diz pragmaticamente a comissária Lara Fresko.

A responsável pela Non aponta na mesma direcção: "Olhámos para a lista de convidados da Arco e todos os profissionais com quem gostaríamos de falar vão estar cá. É uma boa oportunidade. Sei que a Espanha está em crise, mas, mesmo assim, é uma boa oportunidade." Perguntamos-lhe se espera muitos coleccionadores turcos. Ela baixa ligeiramente a cabeça, olha para o lado e sorri. Sim. Quantos? "Mais de 30." Alguns analistas de mercado dizem que este será, sensivelmente, o número de coleccionadores que, neste momento, na Turquia, investem anualmente cerca de 200 mil euros em arte. Dizem também que haverá outros 500 a comprar em menor escala.

No ano passado, uma das obras de Taner Ceylan (n. 1967), um dos mais cotados pintores da turcos de hoje, foi vendida pela Sotheby"s por 370 mil dólares. É o mercado externo. Em Istambul, há três anos, uma tela de Erol Akyavas (n. 1932), também um pintor figurativo, passou a ansiada marca do milhão.

Na Turquia há dinheiro. O boom imobiliário que levou à queda de tantos outros de nós está só a começar. "É a história neoliberal de expansão para lá do possível", diz Lara Fresko. "Em velhos tempos era a expansão territorial, em guerra para conquistar fronteiras. Agora é em direcção ao céu, com prédios. É como um comboio fora de controlo - é o que faz um "país em desenvolvimento": desenvolve-se." O tom é ácido. Mas, como consequência, Lara diz que "há boas coisas a acontecer": "Os privados estão a investir em arte, criar espaços, um mercado. Substituem-se ao papel que o Estado nunca desempenhou e que esperamos venha a assumir em breve." Mas ainda há mentalidades a construir.

Na mais antiga galeria turca na Arco, a Maçka Sanat Galerisi, fundada em 1974, Iz Öztat (n. 1981) tem a instalação I am not dealing with a triangle, a square and circle. A Maçka apresenta-se como uma galeria dedicada à arte conceptual. Iz mergulhou nos seus antigos arquivos, cheios de textos à volta do potencial das formas geométricas como linguagem universal versus o enraizamento da arte numa herança local. Saiu de lá com uma série de objectos geométricos feitos a partir de objectos de um quotidiano que começa a fazer-se passado - um círculo feito a partir de uma peneira de farinha, meia esfera a partir de uma taça de cobre...

Com um vídeo de uma performance em que esses objectos são usados e os próprios objectos compôs a instalação que apresenta na Arco e que o público pode manipular. A peça custa dez mil euros. Talvez precise de interlocutores fora do seu país antes de lá ter um mercado. Sinem Yörük, responsável por outra galeria, a Elipsis, especializada em fotografia, diz-nos: "Temos de facto um boom. Mas, por exemplo, a fotografia ainda é vista como um novo media na Turquia. Trata-se ainda de construir consciência sobre a arte turca em mercados habituados a estas linguagens."