Estado sai da EDP com desconto no preço de venda

A venda dos 4,14% que a holding do Estado detinha na EDP rendeu 356,1 milhões e marca o fim de um ciclo iniciado em 1975

A Parpública, holding de participações do Estado, colocou ontem junto de investidores institucionais os 4,14% que ainda detinha na EDP - irá receber 356,1 milhões de euros, o que equivale a 2,35 euros por acção. Um valor que ficou abaixo do fecho da cotação de quarta-feira, quando as acções encerraram no mercado a valer 2,42 euros, ou seja, mais 2,9%. A esse preço, a venda teria rendido mais 10,8 milhões de euros.

O negócio pressionou negativamente os títulos da empresa. Após as negociações terem estado interrompidas de manhã, as acções voltaram a ser transaccionadas pelas 14h, acabando por fechar a sessão a perder 3,18% (o PSI20 desceu 0,78%), fixando-se nos 2,345 euros.

Questionada pelo PÚBLICO, fonte oficial da Parpública afirmou que "em média transaccionam-se cerca de cinco milhões de acções da EDP. Não foi pois possível efectuar a venda de um lote de cerca de 150 milhões de acções de forma aleatória". Assim, a operação de ontem conduziu "de facto a um desconto" que, diz a Parpública, "se revelou, no entanto, ser excepcionalmente baixo face a transacções comparáveis ocorridas nos últimos 12 meses".

Por outro lado, a posição minoritária que foi agora colocada em fatias no mercado corresponde aos mesmos títulos que estiveram na base de uma emissão de obrigações convertíveis em acções. Esta, efectivada em 2007 através de um processo de reprivatização da EDP, atingiu o montante de 1015 milhões de euros.

A Parpública acabou por proceder ao reembolso antecipado no final do ano passado (o prazo terminava em 2014), ficando com as acções que agora vendeu no mercado. A diferença entre o valor do reembolso e o que arrecadou ontem (optando por colocar as acções numa conjuntura muito mais negativa do que em 2007) é superior a 600 milhões de euros.

Sobre esta questão a Parpública respondeu apenas que reembolsou um empréstimo que lhe permitiu um encaixe de cerca de mil milhões de euros e que "a possibilidade de se reembolsar o empréstimo recorrendo à entrega das acções não foi concretizada pelos obrigacionistas", ficando então a empresa na posse dessas acções.

Na operação de ontem, investidores nacionais ficaram com 5%, cabendo a esmagadora maioria a estrangeiros. Dos cerca de cem investidores que participaram no processo de venda, nenhum deverá ter ficado com uma posição superior a 1%, pelo que não haverá alterações na lista de accionistas qualificados (mais de 2%) à excepção da saída da Parpública.

Com esta venda, fecha-se um ciclo iniciado em 1975 com as nacionalizações do pós-25 de Abril. Criada em 1976, na sequência da fusão de 13 empresas energéticas, a EDP deu o primeiro passo para a abertura do capital a privados em 1997, com a alienação de 29,9% do capital. Seguiu-se a segunda fase de reprivatização, em Maio de 1998, com um acordo de troca de participações com a espanhola Iberdrola. Esta detém hoje 6,79% da EDP, mas é vista como potencial vendedora no âmbito de uma estratégia mais alargada de venda de activos.

Ao mesmo tempo que o Estado sai da empresa, mais de um terço da EDP está nas mãos de empresas estatais estrangeiras, com destaque para a China Three Gorges (dona de 21,35%). Os outros accionistas são o espanhol Liberbank (que reune caixas ligadas a governos regionais) com 5,01%, Senfora (com 4,06%, é detida pela IPIC, de Abu Dhabi), a argelina Sonatrach (que detém 2,38% da EDP), e a Qatar Holding (com 2,27%).