Adolf Eichmann sob a sombra de Hannah Arendt

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Capturado pela Mossad na Argentina, Adolf Eichmann começou a ser julgado em Jerusalém a 11 de Abril de 1961: o tribunal condená-lo-ia à morte depois de analisados mais de 1.500 documentos e de ouvidas 100 testemunhas de acusação

A primeira parte de Eichmann em Jerusalém: Uma reportagem sobre a banalidade do mal foi publicada há 50 anos.

Um julgamento que trouxe a verdadeira dimensão do Holocausto para as primeiras páginas e um livro que se transformou numa das obras mais importantes da filosofia política do século XX. A primeira parte de <i>Eichmann em Jerusalém: Uma reportagem sobre a banalidade do mal</i>, da filósofa judia alemã Hannah Arendt, foi publicada na revista <i>New Yorker</i> faz amanhã meio século.

Qualquer pessoa que escreva sobre o assunto hoje em dia trabalha na sombra de Hannah Arendt". David Cesarani, historiador especialista em estudos judaicos do Royal Holloway College da Universidade de Londres, está longe de ser um admirador de Arendt. Aliás, o autor de Eichmann: His Life and Crimes, uma biografia do responsável máximo da implementação da Solução Final - a política de Adolf Hitler destinada a exterminar os judeus do Terceiro Reich e dos territórios ocupados pelas suas tropas -, é até um dos principais críticos da filósofa judia alemã que morreu em 1975 nos Estados Unidos. "A sua percepção de Adolf Eichmann e o seu conceito de "banalidade do mal" foram tão influentes e, especialmente nas ciências sociais e entre filósofos, quase não foram postos em causa", explica o historiador ao Ípsilon. Para Cesarani, por isso é que Arendt mantém ainda hoje, sobretudo nos Estados Unidos, "um estatuto de quase santidade ou de culto". Criticá-la, diz, "é quase uma heresia".

Quando Arendt chegou a Jerusalém em 1960 como enviada da revista New Yorker para cobrir o mais importante julgamento da história recente de Israel (estabelecido como Estado em 1948) já era uma importante filósofa. Discípula (e amante) de Martin Heidegger - que mostrou a sua lealdade ao regime nazi -, tinha publicado em 1951 um livro importante para compreender os regimes totalitários, As Origens do Totalitarismo, e outro essencial para nos compreendermos a nós próprios, A Condição Humana (1958). Não estranha, portanto, que quando propôs ao director da New Yorker ir a Israel cobrir o julgamento de Eichmann como enviada especial da revista, William Shawn tenha ficado entusiasmado com a ideia. E o resultado, a polémica, o impacto da reportagem no pensamento contemporâneo corresponderam e até ultrapassaram esse entusiasmo.

"A importância do livro - surgido na sequência do conjunto de reportagens para a revista New Yorker - tem uma razão simples: alguém que pensa de forma totalmente independente, e de modo profundo, faz a cobertura jornalística de um dos julgamentos com maior significado na vida política e internacional da época", sublinha Miguel Nogueira de Brito, professor de Direito da Universidade de Lisboa, que, com António Araújo, escreveu a introdução à edição portuguesa de Eichmann em Jerusalém: Uma reportagem sobre a banalidade do mal, publicada em 2003 pela Tenacitas. "Para além deste encontro feliz, e porventura único, entre jornalismo e filosofia, a importância do livro consiste em confrontar a questão que estava largamente subjacente ao julgamento de Eichmann: como lidar com essa realidade monstruosa, inimaginável, que foi o regime nazi e a sua realização mais monstruosa, que foi o Holocausto?"

Para Diogo Pires Aurélio, professor de Filosofia da Universidade Nova, a obra impôs-se pela "clarividência" com que Arendt "sublinhou a natureza do delito de Eichmann - um crime contra a humanidade sem precedentes -, ao arrepio da opinião comum e do próprio tribunal, que se ativeram ao simples genocídio, ou à dimensão humana dos actos sub judice", sublinhando que o que estava em causa "era a monstruosidade de alguém - um indivíduo ou um grupo - se arrogar o direito a estatuir quem deveria e quem não deveria habitar a terra".

"Hannah Arendt analisa os mecanismos que tornam possível a monstruosidade totalitária: a servidão voluntária, o desejo de dominar, o legitimismo em política, a escolha de bode expiatório para dispensar de pensar, a paixão transformada em razão, a dinâmica colectiva, "a obediência de cadáver", a frágil capacidade de resistência à autoridade", acrescenta o filósofo francês Michel Onfray, autor de uma peça de teatro sobre o tema, Le songe de Eichmann.

O que Arendt consegue em Eichmann em Jerusalém, continua Margarida Amaral, é concluir "que é possível retirar os carrascos do mal totalitário do mundo dos demónios e devolvê-los ao mundo dos homens, embora talvez não ao mundo das pessoas". Que é como quem diz: o mal não chega das profundezas de um qualquer inferno, não brota de um qualquer ser maligno, está no meio de nós. "A importância deste movimento está no facto de afirmar a possibilidade de compreender a origem antropológica deste mal", diz ainda a professora da Universidade Católica, doutorada com uma tese sobre Arendt e autora do livro Hannah Arendt: Os Mundos da Razão (Esfera dos Livros).

"No Terceiro Reich, o mal tinha perdido aquela característica que o torna reconhecível para a maior parte das pessoas - a característica de ser uma tentação. Muitos alemães e muitos nazis, provavelmente a esmagadora maioria, ter-se-ão possivelmente sentido tentados a não matar, a não roubar, a não deixar que os seus vizinhos fossem levados para a morte (...), a não se tornarem cúmplices destes crimes, beneficiando deles. Mas Deus sabe que tinham aprendido a resistir à tentação", escreve Arendt em Eichmann em Jerusalém.

Miguel Serras Pereira, filósofo e tradutor para português de alguns livros de Arendt, sublinha o que está implícito nesta "reportagem sobre a banalidade do mal", subtítulo definidor que Arendt colocou em Eichmann em Jerusalém: "Os regimes totalitários e as suas políticas de extermínio funcionaram mobilizando seres humanos normais, que mantiveram perante a novidade monstruosa do "sistema" o conformismo hierárquico, a abstenção de juízo moral e político responsável, o cumprimento e a execução das ordens superiores, que, de algum modo, tinham tornado possível a instauração do mesmo "sistema"." Daí que este livro seja um prolongamento e um aprofundamento da reflexão de Arendt sobre as "origens - entenda-se: as condições e as causas - do totalitarismo naquilo que poderíamos chamar a ordem quotidiana das sociedades oligárquicas liberais", acrescenta Serras Pereira. Aliás, como escrevia Maurice Kiegel no número de Setembro de 2005 da Magazine Littéraire dedicada à filósofa, tendo em conta que "as teses de Eichmann em Jerusalém se inserem tão claramente na continuidade dos temas orquestrados desde há muito por Arendt", não os levaria ela "já na cabeça antes mesmo de chegar a Jerusalém para acompanhar o processo"?

Um debate envenenado

Se a dimensão de alguém se pode aferir pela quantidade e dimensão dos seus inimigos e pela animosidade que suscita, Hannah Arendt ganhou dimensão mítica depois de publicar este livro. Cinquenta anos depois, a polémica que provocou então mantém-se viva. A ponto de a realizadora Margarethe von Trotta ter centrado o seu filme biográfico sobre a filósofa - Hannah Arendt, que se estreou na Alemanha no mês passado, deve chegar em Outubro às salas portuguesas - no impacto do julgamento de Eichmann sobre a vida da autora de As Origens do Totalitarismo.

Cesarani, judeu e historiador da questão judaica, não se contém nas críticas a Arendt a ponto de considerar a tese central do livro, "a banalidade do mal", um verdadeiro "desastre": "O livro de Arendt ainda é importante hoje, porque é errado e mostra como a historiografia "descarrilou" durante 20 anos. O seu conceito de "banalidade do mal", de obediência irreflectida, o seu conceito do Terceiro Reich como um Estado totalitário, é um desastre. O livro foi importante quando foi editado por ter sido um dos primeiros relatos gerais daquilo a que hoje chamamos o Holocausto a alcançar uma audiência massiva, e porque provocou uma forte resposta que levou ao surgimento dos "estudos do Holocausto". Para provar que Arendt estava errada em relação a Eichmann, aos alemães, aos nazis e aos judeus, os historiadores empreenderam investigações profundas e o tema tem vindo a expandir-se desde aí."

A filósofa e historiadora alemã Bettina Stangneth publicou em 2011 Eichmann vor Jerusalem - Das unbehelligte Leben eines Massenmörders (Eichmann antes de Jerusalém: a vida tranquila de um assassino em massa), uma investigação de 12 anos a partir da análise pormenorizada dos milhares de páginas escritas por Eichmann, incluindo uma carta que aparentemente terá sido enviada em 1957 a Konrad Adenauer, chanceler alemão (porque o ex-funcionário nazi queria voltar à Alemanha, ser aí julgado e seguir uma carreira política). Para Stangneth, Eichmann era um ideólogo anti-semita inteligente e manipulador que criou uma máscara de burocrata acéfalo para o julgamento de Jerusalém. Um embuste que terá enganado toda a gente, incluindo a filósofa transformada em jornalista da New Yorker:

"Arendt foi - tal como todos os outros - enganada pela estratégia de Eichmann de se apresentar no julgamento como um zé-ninguém, um mero funcionário, uma máquina burocrática. Porém, as provas do compromisso de Eichmann com o nazismo - e, contra Arendt, do seu compromisso com o anti-semitismo - que surgiram em anos recentes, especialmente no estudo bem documentado de Stangneth" mostram que o historiador e amigo de Arendt, Hans Jonas, "estava certo - Eichmann era um monstro que odiava judeus", escreveu recentemente David Owen, professor de Teoria Política da Universidade de Southampton, numa crítica ao filme de Von Trotta disponível no site do Hannah Arendt Center. Cesarani é peremptório: a filósofa "não compreendeu nada" do Eichmann como homem, tendo minimizado "a importância da ideologia nazi" na biografia do responsável pela Solução Final e, ao mesmo tempo, "envenenado os debates sobre os motivos nazis e as reacções dos judeus" ao ponto de "distorcer durante décadas as percepções populares e académicas".

A historiadora americana Deborah Lipstadt refere-se em The Eichmann Trial, o livro que editou em 2011, a essa distorcida raiva de Arendt, somada a uma negligência indesculpável, como razões para a filósofa ignorar o anti-semitismo latente de Eichmann, bem como todas as provas do papel central que o mesmo desempenhou na consumação do genocídio do povo judeu, só para melhor o poder retratar como um patético burocrata. E desse modo poder escrever isto: "É evidente que, para as ciências políticas e sociais, importa saber que a essência do totalitarismo, e talvez da burocracia, é transformar os homens em funcionários, em meras peças da máquina administrativa, ou seja, desumanizá-los."

Lipstadt e Cesarani são judeus como muitos dos que pior reagiram ao livro de Arendt, incluindo o seu grande amigo Gershom Scholem (Arendt e Scholem, dois típicos intelectuais judeus da República de Weimar, mantiveram desde o final dos anos 30 uma longa correspondência em alemão), sionista e professor de misticismo, que a criticou duramente pela sua "falta de solidariedade com o povo judeu". Arendt respondeu que "nunca tinha amado na vida nenhum povo ou colectivo", porque só acreditava no "amor pelas pessoas" - "Esse "amor pelos judeus", a mim que sou judia, parece[-me] bastante suspeito. Não me posso amar ou amar algo que sei ser parte de mim próprio", argumentaria. Seria ela a pôr fim ao diálogo epistolar entre os dois, em 1964.

Fazer História

"O Nouvel Observateur chegou mesmo a perguntar em título se Hannah Arendt não era nazi. O que é de uma violência sem nome, quando conhecemos o excelente trabalho antitotalitário dessa judia perseguida pelo nacional-socialismo", lembra Michel Onfray. "Na verdade, Arendt coloca as questões que um filósofo deve colocar, mas como a grande maioria não é filósofa, e os jornalistas ainda menos, criminalizámos o seu pensamento para evitar termos de a analisar e criticar de acordo com as regras da sua arte", acrescenta o fundador da Universidade Popular de Caen. "Fazer História é, por vezes, doloroso: Hannah Arendt fazia História. Muitas vezes desprezamos aqueles que fazem história porque eles trazem complexidade às análises simplistas."

"As pessoas não estão preparadas para aceitar que as suas vidas normais possam ser instrumentos de realização do mal. E muito menos estavam os judeus preparados para admitir alguma implicação dos seus dirigentes na tentativa de extermínio do povo judaico", nota Nogueira de Brito. Quando Arendt escreve que "a solução final foi facilitada pela acção dos Conselhos Judaicos" está a introduzir nuances numa história que se queria cromaticamente definida: "É mais simples a explicação oposta de que há algures uma mente demoníaca e maléfica responsável por estes actos inconcebíveis. E, de facto, existiram essas mentes. Eichmann foi até, provavelmente (contra o que Arendt pensava), uma delas, para além de outros como Heydrich, Himmler e o próprio Hitler. Mas não teriam sido capazes de levar a cabo os seus intentos sem a intervenção de muitos outros que eram em si pessoas normais", acrescenta.

Arendt "era judia mas não pensava tribalmente", sintetiza Diogo Pires Aurélio. "Relatou a existência de cumplicidades judaicas, como constava dos autos; concordou com a morte de Eichmann, mas apontou fragilidade jurídicas no processo, ferindo susceptibilidades da nação judia, a qual finalmente estava na posse de um Estado e queria julgar os crimes contra o seu povo, à semelhança do que tinham feito, após Nuremberga, vários Estados europeus."

Quando o primeiro-ministro israelita David Ben-Gurion, arriscando um incidente diplomático com a Argentina, dá a ordem para que um grupo da Mossad capture Eichmann em Buenos Aires a 11 de Maio de 1960, onde este vivia clandestino sob o nome de Ricardo Klement, já está a contar transformar o seu julgamento em Jerusalém num esforço didáctico para mostrar ao mundo aquilo que os nazis fizeram para exterminar o povo judeu. "Hannah Arendt insistiu sempre na ideia-força de que Adolf Eichmann devia ser julgado no interesse da Justiça, e nada mais", explica Paulo Sousa Mendes, professor de Direito da Universidade Nova. No entanto, como revelado no próprio livro de Arendt, "o interesse da Justiça foi constantemente ameaçado pela concorrência de outros objectivos que parecem ter norteado o julgamento". O primeiro-ministro israelita "foi o encenador invisível deste processo, falando pela voz da acusação pública, protagonizada pelo procurador-geral de Israel, Gideon Hausner", afirma este professor de Direito.

"Tal como Ben-Gurion o concebera, o julgamento de Eichmann devia focar todos os crimes do regime nazi contra os judeus e até os crimes do anti-semitismo ao longo da História. Ben-Gurion queria que o julgamento de Eichmann ganhasse a dimensão de um evento mundial", que fosse "pretexto para dar uma série de "lições" a judeus e gentios, a israelitas e árabes, ao mundo em geral. Mas Arendt achava que o julgamento de Eichmann, dominado pelas intenções de Ben-Gurion e pelos esforços da acusação, corria o risco de deixar de fora o "indivíduo, a pessoa de carne e osso, que estava sentado no banco dos réus"", continua Sousa Mendes.

Adolf Eichmann acabou se tornar na única pessoa condenada à morte e realmente executada na história do Estado de Israel. Henry Rousso, comissário da exposição Judging Eichmann - Jerusalem 1961 que, há dois anos, assinalou o cinquentenário do processo, escreve no catálogo: "O julgamento Eichmann foi sem dúvida um marco na emergência de uma memória colectiva da Shoah em Israel." O primeiro em que os "seus iniciadores também procuraram produzir uma narrativa controlada e finalizada da História", isto é, "um julgamento concebido como uma lição de História".

No entanto, se é certo, como refere Miguel Serras Pereira, que Arendt persistiu "na denúncia dos termos em que o Estado de Israel fora criado e continuava a afirmar-se e a consolidar-se", também não é menos certo que a filósofa acabou por concordar com a decisão do tribunal de Israel em condenar Eichmann à morte no final do julgamento. "Porque estivera implicado e porque desempenhara um papel decisivo num projecto cujo objectivo confesso era eliminar determinadas "raças" da superfície da Terra, Eichmann tinha de ser eliminado", escreve a filósofa no livro. Adolf Eichmann foi enforcado poucos minutos depois da meia-noite de 1 de Junho de 1962, apenas algumas horas depois de os recursos da defesa terem sido rejeitados pela justiça israelita.

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