A verdade é um bem supérfluo para Nick Cave

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Push The Sky Away, o novo álbum de Nick Cave & The Bad Seeds, é resultado de uma banda fechada sobre si numa mansão do Sul de França. "Sinto-o próximo do meu coração", diz Nick Cave, homem serenado, ao Ípsilon.

Não é disto que estamos à espera no início de uma entrevista com Nick Cave. Estamos à espera de uma conversa que atinja, pelo menos, a magnitude mínima na escala de Lou Reed, praticamente imbatível no item "reduzir jornalistas às lágrimas". Estamos à espera de um Nick Cave compenetrado na seriedade da sua música e sem pachorra para conversa fiada. Estamos preparados. "Conhece o restaurante Pinóquio? É o meu preferido em todo o mundo." Não, não estamos preparados. Íamos falar de Push The Sky Away, o 15.º álbum de Nick Cave & The Bad Seeds, o primeiro desde Dig Lazarus Dig, o primeiro sem Mick Harvey, o primeiro desde as aventuras rock"n"roll do segundo álbum dos óptimos Grinderman.

Nick Cave desarma-nos. Elogia longamente o bife do tal Pinóquio e o "pequeno marisco que não é amêijoa" - e ele faz questão de precisar que não é amêijoa, "é mais pequeno e é incrível". E depois ri-se ao recordar as vezes que lá comeu e como se embebedou alegremente com o resto da banda. A música não ganhou qualquer serenidade. Mas o seu autor é hoje um homem serenado.

Nick Cave, viajante pelos recantos obscuros da mente e do desejo, criador de pregadores com um olho no Antigo Testamento e o outro no dealer que há-de chegar. Nick Cave, 55 anos, nascido na Austrália, hoje habitante da estival Brighton, em Inglaterra, fundador dos Birthday Party e dos Bad Seeds. Um dos últimos mitos vivos do rock - é provável que se risse tanto da tirada quanto se ri com as memórias do restaurante. A conversa é descontraída, mas é sério e com entusiasmo sincero que fala de Push The Sky Away. "Tenho um carinho especial por este disco, mas ainda não sei porquê", confessa. "Sinto-o muito pessoal, lírica e sonicamente. Tem qualquer coisa que sinto próxima do meu coração."

É um disco de contenção - "fomos muito afectados pela ideia de controlo, que pareceu impor-se" -, um disco em que o Cave vociferador, catártico, se transforma completamente em narrador: há uma distância entre si e aquilo que canta que dá uma outra dimensão, uma nova dimensão, à música que gravou com os Bad Seeds, mestres da "inventividade instintiva" (palavras dele).

Push The Sky Away foi uma surpresa. Não era o disco que os Bad Seeds tinham que gravar. Foi o disco que se lhes impôs numa mansão rural transformada em estúdio em Saint-Remy de Provence, no Sul de França. Fizeram-no "literalmente fechados naquele espaço": "Não tínhamos nenhum outro sítio aonde ir e isso contaminou o balanço da música. Aquele mundo tomou conta de nós."

Começou por ser, como habitualmente, "umas letras alinhadas num caderno." Depois, como se impunha, Warren Ellis liderou a direcção musical e nasceu um álbum atmosférico, de camadas sonoras sobrepostas, em que a tensão raramente é resolvida - é modulada, mas não explode verdadeiramente. "Muitas canções, se as tivéssemos feito há dez anos, seriam diferentes", reconhece Cave. Dá o exemplo de Jubilee street: "Assusta-te, encaminha-se para um clímax e desaparece." Há dez anos, "teria nascido dali um The Mercy seat [de Tender Prey, 1988]". É o único momento em toda a conversa em que olha para o passado.

O Nick Cave de hoje não quer saber o que andou a fazer o Nick Cave de há dez, 20, 30 anos. "Não estou preocupado com o que foi o álbum anterior, com o que foram os álbuns de Grinderman. Só estou interessado em fazer o melhor disco que posso fazer num determinado momento. Se tiver uma atmosfera consistente, como este tem, sinto-me feliz."

Push The Sky Away é, como escrevemos, resultado de uma banda fechada numa mansão no Sul de França. Tem como capa Nick Cave abrindo as grandes portadas de uma janela, deixando entrar a luz que ilumina a mulher que, à esquerda na foto, parece correr cobrindo parte do corpo nu. É o quarto de Cave, e a mulher que corre é a sua mulher, a modelo Susie Bick. A dimensão mítica de Nick Cave conduz, inevitavelmente, a tentativas de leitura, a extrair pensamento sobre a música a partir dos mais pequenos sinais. Tendo em conta o olhar interior do álbum, tendo em conta a replicação de intimidades em seu redor (a gravação com a banda fechada num mesmo espaço, o quarto de Cave exposto em foto), Push The Sky Away seria o disco, poder-se-ia especular, de exposição da alma do seu criador Cave. Música feita introspecção. Mas isso, claro, seria demasiado fácil. Cave, o mitómano, o criador que se diverte e agoniza extraindo personagens às grandes e pequenas narrativas da Humanidade (as religiosas, as literárias, as musicais, as da alta e da baixa cultura), entregando-as depois à sorte que lhes destina, não faria nada tão fácil.

Quase no final da entrevista, falamos de Brighton, a cidade costeira em que vive. Em determinado momento, Cave diz que lhe perguntam muitas vezes sobre a relação entre lugar e criatividade, sobre como as cidades em que viveu transbordaram para a música. Fala-nos de um dos seus escritores preferidos, James Lee Burke, da linhagem dos romancistas do Sul dos Estados Unidos. Recorda o dia em que, viajando pela América, se deparou com uma placa indicando o caminho para Nova Iberia, cenário para muitos dos livros de Burke. Não hesitou. Acelerou em direcção a uma desilusão. "Era um buraco com a porra do McDonald"s, igual a qualquer outro lugar horrível na América. Não era aquilo que lia nos livros dele." A história surge para acentuar que, com ele, sucede o mesmo. "No fim de contas, estamos fechados no nosso próprio mundo. Comecei a criar o meu logo nos Birthday Party. Um mundo estranho e absurdo, caveano. Os lugares em que vivo não têm muita relação com ele, a menos que queira manipulá-los para que existam ali."

Do absurdo e do bizarro

Sempre foi assim. A diferença, em Push The Sky Away, está no ponto de vista. "A voz que atravessa estas canções é a de alguém que observa a narrativa. As canções são sobre o efeito que a acção está a ter sobre o narrador. Water"s edge não é na verdade sobre o que se passa à beira da água, é sobre o tipo que observa o que ali está a acontecer. Wide lovely eyes não é sobre a mulher, mas sobre o homem que observa o que ela está a fazer. É nesse sentido que digo que é um álbum muito pessoal."

O universo caveano às voltas com histórias sacadas aos jornais (venha daí o Bosão de Higgs), com o que vê quando observa, da janela de casa, a paisagem costeira ou com as "relíquias wikipedianas" que descobre na Internet. São, hoje, fonte considerável de inspiração: Cave adora as "relíquias wikipedianas". Por uma razão prática. "Estou a perder memória à medida que envelheço. Causei-lhe danos consideráveis durante décadas e ter este tipo de repertório de informação é do caraças. Tem muito espaço para o bizarro e o esotérico, temas sobre os quais as minhas canções revolvem muito."

A segunda razão para o entusiasmo com as "relíquias wikipedianas" nasce da, chamemos-lhe assim, ética criativa de Nick Cave. "Do que gosto mesmo é de nada daquilo ser de confiança. A informação não é necessariamente verdadeira e eu não estou interessado na verdade. Estou interessado em crenças, que são uma fonte maravilhosa para o pensamento, para o absurdo e para o detalhe estético."

O próprio Nick Cave, naturalmente, já está incluído nas citadas "relíquias". Percebeu-o quando visitou a sua página na Wikipedia, depois de ser questionado uma e outra vez sobre a participação numa suposta adaptação cinematográfica de A Ópera dos Três Vinténs. Quem lho perguntava parecia saber mais do que ele. E então ele foi à fonte. Na sua página consta de facto a informação de que trabalha actualmente com o actor e realizador Andy Serkis numa versão do musical de Bertolt Brecht. Acontece que não é verdade. "E isto acontece comigo, que estou vivo. Sessenta por cento da informação naquela página é uma treta. Imagino o que acontecerá com as páginas de alguém que morreu há dez, 40, 100 anos...." Não há, assinale-se, qualquer moralismo nisto.

Nick Cave observa e conta o que descobre entre as paredes do cérebro. Não moraliza. O importante é o olhar do receptor: "Para mim, a melhor arte não está nas lições que a obra nos pode dar, mas no significado que lhe podemos conferir. É disso que gosto tanto na natureza aberta das canções deste disco. Irem muito além da sua concepção original."

E então repete: "A verdade é irrelevante. Eu só tento escrever canções, não estou a passar informação às pessoas." Bem-vindos ao universo caveano.

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