Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

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Francisco José Viegas, serão mágoas de amor?

O “soundbite” de Francisco José Viegas exibe escassez de pudor político, o que não mostra que ele não teme o “politicamente incorrecto”. Mostra, isso sim, que é, politicamente, incorrecto

Atrevo-me a afirmar que, em Portugal, há demasiadas pessoas com uma estranha mania de achar que "resistir" aos gestos mais impopulares da governação é o mesmo que ser mal-educado e/ou ofensivo. Em nome de uma rejeição veemente das medidas impostas pelo (às vezes) inimigo Estado, quantas vezes se não estilhaçam direitos alheios, deles fazendo tábua rasa, como se a única maneira de reagir fosse criar um microcosmos de anarquia e má-educação.

Talvez não seja preciso recorrer a grandes elaborações psicossociológicas para o compreender (dispense-se Freud). Afinal de contas, o símbolo dessa proclamada "resistência" é um sujeito de faces rosadas pelo excessivo consumo de vinho a fazer um gesto dito "manguito", figura criada pelo génio de Rafael Bordalo Pinheiro mas, convém não esquecer, de cariz caricatural (ou seja, ridicularizante e não, como muitos há que o pensam, de diversão).

Ora, no seu escrito de quinta-feira no blogue "A Origem das Espécies", Francisco José Viegas (FJV) afirmou, e passo a citar: "se por acaso, algum senhor da Autoridade Tributária e Aduaneira tentar 'fiscalizar-me' à saída de uma loja, um café, um restaurante ou um bordel (quando forem legalizados) com o simpático objectivo de ver se eu pedi factura das despesas realizadas, lhe responderei que, com pena minha pela evidente má criação, terei de lhe pedir para ir tomar no cu, ou, em alternativa, que peça a minha detenção por desobediência".

Nesta passagem, fica bem espelhada a grande preocupação de FJV com a vida sexual dos inspectores da ATA, que aquele, claramente, deseja seja mais satisfatória. Parece-me, contudo, que o ex-Secretário de Estado da Cultura deste mesmo Governo em funções — pasme-se! — não só podia, como devia, ter-nos poupado a todos à deselegância.

E aqui, sublinho, não me refiro tanto à deselegância verbal (além disso, sempre questionável pela escolha do verbo “tomar”, em detrimento do bem mais português “apanhar”), mas, principalmente, à deselegância política. Isto porque, embora seja consabido que FJV já não integra o Governo, continuamos todos a ater-nos à justificação, que cremos ser verdadeira e de boa-fé, de que tal ficou a dever-se tão-somente a problemas de saúde que criaram indisponibilidade pessoal para o exercício do cargo que detinha, e não a divergências insanáveis sobre a orientação política do Executivo. O que surpreende na frase de FJV não é, pois, a má-educação (de resto, assumida pelo próprio como "evidente"), mas a falta de decoro. É que por muito que possamos ser solidários com a posição defendida, ninguém deixará de notar que, do ponto de vista político, e fazendo a comparação (porque tudo isto vem à tona — coincidência ou não — no Dia de S. Valentim), FJV se mostra um ex-namorado um tanto ressabiado, daqueles que depressa “parte para [email protected]”, sem fazer o luto da praxe à anterior relação, ao que se sabe, bastante amorosa. E se algo diz muito sobre a forma como uma pessoa ama, talvez seja o modo como faz, ou não, esse devido luto.

Em suma, direi que o “soundbite” exibe, mais que não seja, escassez de pudor político de FJV, o que não mostra, talvez como era pretendido, que ele não teme o “politicamente incorrecto”. Mostra, isso sim e ao invés, que FJV é, ele mesmo, politicamente, incorrecto.