Empresa francesa sabia que a carne das lasanhas era de cavalo, acusa governo de Paris

Resultado da investigação feita em França aponta para Spanghero, que encomendou a carne usada para cozinhar refeições congeladas Findus.

A Spanghero nega as acusações do Governo francês
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A Spanghero nega as acusações do Governo francês Jean-Philippe Arles /REUTERS

A empresa francesa Spanghero sabia que estava a enviar carne de cavalo e não de vaca para que outra companhia confeccionasse as lasanhas Findus, afirmou o ministro francês do Consumo, Benoît Hamon, anunciando as conclusões da investigação sobre o escândalo que está a atravessar a Europa. A empresa rejeita as acusações.

“O primeiro agente a marcar a carne como sendo de vaca foi a Spanghero”, disse Hamon. Este tráfico durava há vários meses e afectou pelo menos 750 toneladas de carne, 550 das quais foram entregues à Comigel, a empresa que preparava as lasanhas ultracongeladas da Findus de 28 outras empresas à base de carne picada, através de outra empresa situada no Luxemburgo, chamada Tavola. Mais de 4,5 milhões de refeições terão sido preparadas com esta carne e vendidas em pelo menos 13 países europeus, concluiu a investigação.

Vão ser enviados veterinários às instalações daquela empresa no sudoeste de França, cuja autorização de funcionamento foi imediatamente suspensa, anunciou ainda o ministro da Agricultura, Stéphane Le Foll, garantindo que a Spanghero será alvo de sanções judiciais, se se confirmar que é culpada. Hamon diz que a empresa terá ganho 550 mil euros com a fraude.

Poderá vir a ser sancionada com multas de 37.500 euros para as pessoas físicas e 187.500 euros para a sociedade, sublinhou le Foll.

A Spanghero, localizada em Castelnaudary, perto de Toulouse, no entanto, diz que que encomendou carne de vaca e que foi isso que julgou ter recebido do seu fornecedor. 

Esta carne picada de cavalo — cerca de 45 toneladas de aproveitamentos de carne, não bifes ou outras peças de melhor qualidade — terão sido compradas pela Spanghero à empresa Draap Trading, de um holandês que vive em Antuérpia, Jan Fasen, mas com sede em Chipre.

Fasen foi condenado em 2012 por falsificar documentos que usou para vender carne de cavalo sul-americana como se fosse vaca holandesa abatida segundo os ritos muçulmanos, revelou a rádio holandesa NOOS. Mas, desta vez, garante que a carne de cavalo que comprou a dois matadouros romenos era de cavalo e que estava perfeitamente identificada como tal.

“Quando se quer carne de vaca, eles entregam vaca. Não há problemas. Quando se pede cavalo, entregam cavalo. Nunca, mas nunca, entregam cavalo em vez de vaca. Tinha 100% de certeza que estava a comprar vaca”, disse Fasen ao jornal britânico The Guardian.

“Vendemo-la à Spanghero em França, e a alguns clientes na Bélgica e na Holanda, como cavalo. Alguém fez um erro, mas definitivamente não fomos nós”, garantiu.

No Reino Unido, entretanto, a polícia anunciou a prisão de três homens por acusações de fraude com carne de cavalo, na investigação a dois matadouros, um no País de Gales e outro no Yorkshire.

Estas prisões seguem-se à revelação de que seis carcaças de cavalo importadas de França tinham vestígios de um anti-inflamatório usado para aliviar a dor nos cavalos - fenilbutazona - que nos seres humanos, em casos raros, pode causar efeitos secundários graves. "Seria preciso comer 500 a 600 hambúrgueres de 250 gramas por dia para ter uma dose que fizesse efeito em seres humanos", comentou ao Guardian a directora-geral de Saúde britânica, Sally Davies.

Notícia corrigida às 10h25