Obama e a Europa

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Não fora o discurso do Estado da União do Presidente Obama, na segunda-feira à noite, e pouca atenção teria merecido uma parte substancial das conclusões da cimeira europeia da semana passada. Por razões óbvias, quase todo o esforço dos líderes europeus e quase toda a atenção dos media estiveram mobilizados pelo acordo sobre o novo quadro financeiro plurianual da União Europeia que acabou por ser "arrancado" depois de 24 horas de intensas negociações. Numa perspectiva europeia, foi um mau acordo, como muita gente já disse, que revelou uma ambição igual a zero e uma visão sobre o futuro da Europa abaixo de zero. O que Obama disse no seu discurso, mesmo que numa breve passagem, faz-nos voltar a essas mesmas conclusões. "E, esta noite, anuncio que vamos dar início a conversações sobre uma ampla Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento com a União Europeia - porque o comércio livre e justo através do Atlântico é fundamental para milhões de empregos americanos bem pagos". É esta pequena frase do longo discurso de Obama, virado para a economia e sobretudo para o papel fundamental da classe média para restaurar a força da economia, que nos remete para a primeira parte das conclusões das cimeira europeia, dedicada aos acordos de comércio bilaterais com as grandes economias desenvolvidas. A prioridade é, precisamente, dada aos Estados Unidos. A iniciativa de criar uma gigantesca área de comércio livre entre as duas margens do Atlântico coube, aliás, à Europa. A Alemanha fala dela desde 2007. Bruxelas está a tentar criar as bases para essa negociação desde 2011, mesmo que tenha esbarrado com alguma falta de interesse em Washington. Obama acaba de dar-lhe uma nova prioridade na agenda americana. O resultado que se pretende é a criação de um mercado de mais de 800 milhões de pessoas, que representa ainda hoje metade da riqueza mundial. E que ganha uma relevância nova, num mundo cujo centro de gravidade económica está transferir-se muito rapidamente do Atlântico para o Pacífico.

A crise financeira global, com todas as suas consequências económicas, fragilizou as democracias ricas do Ocidente, denegriu a reputação do seu modelo económico, que foi durante as últimas décadas o exemplo que o resto do mundo queria seguir para enriquecer, deixando-as mais vulneráveis. Se tivermos em atenção que o poder hegemónico do Ocidente assentou em boa medida na capacidade incomparável da sua economia, é fácil de perceber que chegou a hora de americanos e europeus convergirem para restabelecer um novo equilíbrio global que lhes permita melhorar a sua capacidade competitiva face às potências emergentes. As transacções comerciais entre os dois lados do Atlântico representam já hoje 2,7 mil milhões de dólares por dia. Estudos da Comissão indicam que a liberalização do comércio e a adopção de regras comuns poderiam significar um ganho de 275 mil milhões por ano e a criação de mais 2 milhões de empregos. As negociações não serão fáceis. Terão de contrariar a tentação proteccionista que está instalada no Congresso americano e que atrai algumas capitais europeias. O resultado será fundamental. Pelo menos neste campo, a Europa conseguiu revelar alguma ambição. Falta agora começar a pô-la em prática.

Jornalista