Até a China começa a cansar-se da Coreia do Norte mas hesita em abandonar o aliado

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Ao terceiro ensaio nuclear, a Coreia do Norte ficou mais isolada KIM HONG-JI/REUTERS

ONU promete adopção de "medidas apropriadas" após o teste nuclear realizado por Pyongyang

As medidas ainda não são conhecidas, mas a Coreia do Norte pode começar a preparar-se para um novo pacote de sanções após o ensaio nuclear de terça-feira. O Conselho de Segurança da ONU foi unânime: os 15 países "vão começar a trabalhar imediatamente na adopção de medidas apropriadas" para responder à "séria violação" de anteriores resoluções, lê-se no comunicado.

Até a China foi, mais uma vez, dura na reacção ao ensaio nuclear e expressou a sua "firme oposição". Apesar de ser visto como o único aliado da Coreia do Norte, o Governo da China nunca deixou de condenar as pretensões nucleares de Pyongyang. Em 2006, classificou o primeiro teste nuclear norte-coreano como um "descaramento" e criticou a Coreia do Norte por "ignorar a oposição da comunidade internacional".

Apesar das repetidas condenações e sanções, a Coreia do Norte voltou a realizar um ensaio nuclear em 2009. A paciência da China parecia ter-se esgotado. Num dos telegramas revelados pela WikiLeaks, o então vice-ministro dos Negócios Estrangeiros referia-se à Coreia do Norte como "uma criança mimada" que queria chamar a atenção do "adulto".

A China considera que os testes da Coreia do Norte são uma forma de Kim Jong-un forçar um diálogo directo com os EUA, uma ideia reforçada pelo facto de o mais recente ensaio norte-coreano ter sido marcado para o dia em que Barack Obama proferiu o discurso do estado da nação perante o Congresso.

E este é o principal dilema de Pequim: como continuar a condenar os ensaios nucleares sem perder a influência junto da Coreia do Norte? Para Shi Yinhing, perito em relações internacionais na Universidade de Renmin, em Pequim, é notória a frustração da China, que "já terá concluído, pelo comportamento de Kim Jong-un, que ele é ainda mais volátil e provocador do que o seu pai", cita o jornal The Guardian. "[A China] tem um dilema. Não acho que vá abandonar a Coreia do Norte. Talvez apoie novas sanções, mas não tão duras quanto as dos EUA. Eles consideram-nas contraproducentes", estima Shi Yinhing.

A influência dos EUA na Ásia é uma preocupação para a China, diz Shen Dingli, especialista em segurança regional na Universidade Fudan, em Xangai. "Quanto mais os EUA reequilibram as suas forças no Pacífico ocidental, mais a China tem de aligeirar a sua influência nas relações com a Coreia do Norte", disse Shen Dingli à Reuters.

A mudança da atenção de Washington do mundo muçulmano para a região da Ásia-Pacífico deixa Pequim ainda mais na defensiva. Num comentário à reacção da China ao ensaio nuclear norte-coreano, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, foi clara a salientar o papel do seu país: "É muito importante manter esta ligação com a China e o secretário [de Estado, John Kerry] tornou prioritário o bom relacionamento com o seu homólogo chinês."

Para George Lopez, antigo perito da ONU, a intenção dos EUA é clara: "Querida Pequim, tens de lidar connosco e criar uma liderança bilateral, ou então vai ser o Inferno", disse à Reuters o professor da Universidade de Notre Dame.

A juntar a este dilema, há também que contar com os receios chineses de que a aprovação de sanções duras de mais possa instigar uma revolução na vizinha Coreia do Norte.

"A China está preocupada com o facto de a Coreia do Norte poder entrar em colapso rapidamente. Pode ser por causa da questão dos refugiados, de agitação civil ou de confrontos militares. É por esta razão que a China tem hesitado", disse à Reuters Zhu Fenh, professor de Estudos Internacionais na Universidade de Pequim.