Rafael Marchante/Reuters
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Aguenta, aguenta

Na verdade a crise é um momento de oportunidades para muitos, e para outros, o aguentar não é assim tão violento como para a maioria…

Recentemente fomos brindados com uma expressão ao estilo "vintage" de um banqueiro Português, Fernando Ulrich, sobre a crise que estamos a sofrer.

Para os menos atentos, a reedição da expressão “aguenta, aguenta” é um remake da expressão usada nos anos 80 por um famoso arquitecto Português, na altura em contextos distintos…

Analogias a parte, a verdade é que tal expressão ilustra bem a situação em que nos encontramos: aguentar!

Mas este “nos” não é transversal a todos. Na verdade a crise é um momento de oportunidades para muitos, e para outros, o aguentar não é assim tão violento como para a maioria…

A permanente evolução dos sistemas de informação e comunicações; a mobilidade; os sentimentos de pertença social, e de inclusão e participação social, associados à capacidade de consumo; os níveis de conforto das sociedades modernas; os mecanismos de participação democrática; a demografia e relações económicas internacionais, reproduzem um "cocktail" de variáveis que dos deixam deprimidos de cada vez que tentamos compreender a razão das coisas.

Talvez por tudo isto, num momento de crise, a que a principal discussão que temos vindo a assistir na política nacional — para além do "fait-divers" do percurso profissional do Secretário de Estado da Inovação e Empreendedorismo ter passado pelo BPN — é o corte de 4000 milhões de euros do Orçamento de Estado, razão pela qual se pretende inicial um debate sobre as funções do Estado.

É curioso que ao mesmo tempo que se pretende iniciar esse debate, se dá como garantido, que é função do Estado — ou dos estados europeus — salvar negócios privados, em parte porque os seus gestores no mínimo fizerem um mau serviço, e no máximo cometeram crimes. Só assim se percebe que o dinheiro dos contribuintes, nacionais ou europeus, esteja a ser utilizado para recapitalizar bancos, em alguns casos a 99%, sem qualquer retorno para a economia ou participação do Estado na gestão destas entidades.

Acontece que recentemente, e fruto da crise, estas instituições financeiras estão obrigadas a cumprir os rácios de solvabilidade 'core tier 1' de 9 por cento até final do mês, resultado de uma exigência da Autoridade Bancária Europeia (EBA em inglês) e do Banco de Portugal.

Como tal, cerca de 12.000 milhões de euros disponíveis no âmbito do acordo de ajuda externa que Portugal assinou com a "troika", apenas podem ser aplicados no reforço dos sistema bancário, e desses foram já gastos cerca de 6000 milhões.

Destes cerca de 1500 milhões de euros foram emprestados ao BPI, 1100 milhões de euros ao BANIF, e 3500 milhões de euros ao BCP. Ainda que estes bancos tenham taxas de juro significativas pelo empréstimo estatal, o BPI (tal como o BCP, que também recorreu ao Estado para subscrever ‘Cocos’) vai pagar um juro anual que começa em 8,5% e aumenta todos os anos, ser banqueiro é o melhor negócio do mundo: quando a empresa precisa, o Estado mete dinheiro, e os contribuintes aguentam, aguentam.

Este valor não considera ainda os 7000 milhões de euros que os contribuintes nacionais já meterem no BPN, ou SLN ou naquela confusão toda que ainda ninguém percebeu, e não consta que daí se queira fazer grande discussão ideológica sobre as funções do Estado.

Não devemos porém esquecer, que tal situação serviu também para comprar divida pública portuguesa por parte de bancos nacionais (ao que consta cerca de 30 mil milhões de euros), e foi esse dinheiro que tem vindo a alimentar a económica nacional.

Resta-nos compreender a razão pela qual a solidariedade que os contribuintes manifestam com o sistema financeiro, conscientes ou não dela, não é correspondida pelo sistema financeiro à Economia? O Governo deveria chamar à responsabilidade estas empresas, exigindo que as mesmas contribuam para o relançar da Economia, tal como as grandes empresas de capitais públicos.

Antes mesmo que isto seja considerado um debate ideológico, devemos estar atentos ao que aconteceu na economia americana e ao resultado da solidariedade dos contribuintes americanos para com o sistema financeiro, e o retorno que este teve para com a economia, tendo para isso a administração Obama, com influência de Ben Bernanke um papel determinante. Não me parece assim, que a ideologia seja a questão fundamental, mas como dizia o outro: “é a economia, estupido!”.