Europa não, Portugal nunca

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No dia em que a corte, vendo chegar a Lisboa as tropas de Napoleão, se meteu nos barcos para o Rio de Janeiro, a Rainha Dona Maria (que estava louca há quase vinte anos) dizia: "não vão tão rápido, vão pensar que estamos a fugir!"

Esta é a melhor descrição que me vem à mente para os acontecimentos no Partido Socialista durante as últimas semanas, desde que Seguro perguntou "qual é a pressa?" de marcar diretas e congresso até ao momento em que marcou diretas e congresso para o mais rápido possível.

Para o futuro ficou o documento estratégico a que António José Seguro deu o título de "Portugal Primeiro" até ao momento em que alguém se lembrou que o documento de Pedro Passos Coelho para a liderança do PSD também se chamava "Portugal Primeiro". Isto é natural porque, como sabemos por experiência, as pessoas que partilham os mesmos genes, como os gémeos siameses ou não, costumam completar as frases um do outro ou até dizê-las ao mesmo tempo. E, francamente, qual seria o candidato a candidato a primeiro-ministro que alguma vez faria do título do seu manifesto "Portugal Segundo"? Isso seria tão absurdo como não querer "unir o partido". Que, por sua vez, seria tão invulgar como não querer "Mais Europa". Na mente do político de carreira, unir-o-partido-portugal-primeiro-mais-europa estão unidos por uma cadeia de neurónios que é quase uma espécie de carreiro batido na massa cerebral, côncavo de tanto ser espezinhado, por onde tipicamente se encaminha a preguiça dos pensamentos.

Que me lembre, só uma vez Mário Viegas, cansado de tanta previsibilidade nas palavras-de-ordem partidárias, e num tempo em que os cartazes do PS anunciavam "Europa Sim, Portugal Sempre!" decidiu fazer uma peça de teatro com o título "Europa Não, Portugal Nunca!".

Mas não são os grandes subversivos como Viegas que dão cabo das sociedades acomodadas e sofisticadas como as europeias. São os grandes conformados, e os grandes conformistas, que o fazem.

São os políticos como os que vimos chegar à cimeira europeia na semana passada, todos eles preocupados em "unir o partido", todos eles proclamando pôr o "país primeiro", todos eles (ou quase) repetindo que é preciso "mais Europa" e... todos eles saindo da cimeira com um acordo que é exato contrário de tudo o que eles disseram.

Não se deixem enganar: o chamado Quadro Financeiro Plurianual, que 27 chefes de estado e de governo negociaram na última semana em Bruxelas, é o fruto das conveniências políticas de momento de alguns deles, enfraquecidos em casa e necessitados de trazerem uma vitória que lhes dure umas horas nos noticiários, mas que arrisca amarrar-nos durante sete anos a uma austeridade que é absurda hoje, e que será destrutiva a longo prazo. Além disso, é um acordo que nos adia: são cortados principalmente todos os fundos de investimento na tecnologia, no conhecimento, na reindustralização ecológica do continente. O que pode a Europa esperar de si no mundo sem estes investimentos?

Por este caminho, e sem um gesto que nos faça acordar, "Europa Não, Portugal Nunca" deixará de ser sátira para passar a ser profecia.

Historiador e eurodeputado