Cicatrizes de uma dor interior insuportável

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Carolina Camps / Reuters

O que a automutilação na adolescência põe a descoberto é a falta de recursos para lidar com essas circunstâncias. Histórias de jovens que se magoam no corpo, porque carregam dentro de si um grande sofrimento interior.

A primeira vez que se magoou de propósito, Rui, de 21 anos, estava com uma "neura" tão grande, tão furioso com as más notas, que deu um murro na parede e deslocou um dedo. O que poderia, porém, ter sido um episódio pontual de raiva, não foi. Depois dos murros, vieram os arranhões com tesouras, mais tarde as lâminas. "Aquilo evoluiu de uma forma que, quando dei por mim, já não conseguia parar. Não podia passar um dia sem me cortar, não conseguia. É um vício. A partir daí, foi uma espiral", conta.

Ana, de 19 anos, começou a ter comportamentos de auto-agressão muito cedo. Aos nove, já se arranhava com ganchos, arrancava cabelos. "Era uma forma de libertar a minha raiva", diz. Acabou por chegar às lâminas, às tesouras, aos x-actos. Era invadida por pensamentos de queimar beatas no corpo: "Não sei explicar porquê... Acho que é mesmo o nojo de mim, do meu corpo, passa muito por não gostar do meu corpo. O meu cão tem uma trela de estrangulamento e pensei várias vezes em estrangular as pernas".

Maria, de 28 anos, que está, como Ana, a fazer um tratamento no centro Villa Ramadas, tem no braço esquerdo uma cicatriz que se destaca - cortava-se muitas vezes na mesma ferida. Já não lhe doía. "Sentia-me aliviada e, quando tinha dores de alma, precisava de ver o sangue. Sentia uma tranquilidade enorme quando via o sangue".

Tal como Ana e Maria, também Leonor, de 33 anos, passou por aquele centro. Duas vezes. Numa delas, como não tinha à disposição nenhum objecto cortante, batia com a cabeça e os braços contra o mármore do lavatório, na casa de banho. Andava cheia de nódoas negras na cara.

O último relatório Health Behaviour in School-aged Children, promovido pela Organização Mundial de Saúde e realizado em Portugal por uma equipa coordenada por Margarida Gaspar de Matos, refere que 15,6% dos jovens dos 8.º e 10.º anos já se magoaram de propósito. A partir de uma amostra de 5050 jovens com uma média de 14 anos, os investigadores verificaram que 15,6% já se tinham agredido pelo menos uma vez no ano anterior.

O relatório conclui, "sem alarmismos", que é preciso estudar o fenómeno e "tentar encontrar, junto dos jovens, alternativas que possibilitem a auto-regulação emocional sem recurso à violência autodirigida". Mostrar que há outras formas de lidar com a dor interior e com as tensões: "Fazer mal a si é uma estratégia de resolver problemas que efectivamente não resolve nada e só adia o mal-estar, aumentando-o", alerta Margarida Gaspar de Matos.

Rui tinha 16 anos quando os pais descobriram que se automutilava. Numa manhã, o pai entrou no quarto e o filho estava a dormir com um braço de fora: a manga do pijama descuidadamente subida deixava ver uma série de cortes. Uma das feridas tinha rebentado, havia sangue na cama.

A mãe ficou em choque, o pai apático. "Ficaram de rastos, foi uma altura bastante dolorosa", recorda Rui. Mas acabaram por se sentar com o filho a conversar, sem acusações nem dramas: "Queríamos saber como podíamos ajudar", diz a mãe, de 49 anos. Conseguiram convencê-lo a procurar ajuda especializada.

Mas, depois de várias idas a diferentes psicólogos, a espiral continuava, e piorava. Até que finalmente, através do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, descobriram um psiquiatra com quem o jovem conseguiu estabelecer uma relação empática. Hoje sente-se melhor e já tem muito mais controlo sobre o impulso de se cortar.

Rui tem amigos, sai à noite, é filho único de pais que se dão bem e não teve no seu percurso de vida qualquer acontecimento particularmente traumático. Foi só aos 14 anos, quando teve as primeiras negativas na escola, que começou a sentir dificuldade em lidar com as adversidades. Apesar de outros obstáculos se terem seguido, Rui recorda as más notas como o primeiro motivo de intensa frustração.

Sentia que desapontava o pai: "Sempre gostei muito da minha família, nunca tive problemas. Mas via o meu pai como um ídolo e, quando ele, como é normal, me "deu na cabeça" por ter más notas, comecei a sentir-me em baixo. Gostava muito de agradar ao meu pai", recorda. Começou a não controlar a raiva. Mais tarde, teve mesmo alguns ataques de pânico, não queria ir à escola nem ver ninguém.

A mãe de Ana, de 43 anos, também se recorda bem das crises da filha, que acabou por ir para tratamento não só devido à automutilação, mas também por distúrbios alimentares (os dois comportamentos podem surgir associados). Uma vez, e antes de a mãe tirar as chaves todas lá de casa, trancou-se no quarto e não abria a porta. Lá dentro, ouvia-se choro. Inicialmente, a mãe deixou-a estar. Pensou que chorar também fazia bem, às vezes. Mas começou a inquietar-se com um choro "cada vez mais aflitivo", depois cada vez mais fraco. Como Ana não abria a porta, a mãe foi pelo terraço, à volta, e conseguiu entrar no quarto. "Ela está caída no chão, toda vomitada, toda cortada, com sangue a sair pelo nariz, a sair baba por tudo quanto era sítio, a sangrar dos braços. Aí senti-me sem forças, impotente." Foram milésimas de segundos até voltar a si, e limpá-la, tratar-lhe das feridas.

Sempre foi uma incógnita o objecto que a filha usaria para se cortar. A mãe escondeu tudo o que pudesse representar perigo e, mesmo assim, Ana continuava a cortar-se. A mãe até lhe tirou do quarto uma caixinha de sapatos onde Ana guardava os objectos de arranjar as unhas. Tirou-lhe os ganchos. "Foi mais uma luta, não sabia com que era", diz.

Quando Ana foi para o Villas Ramadas, a mãe virou o quarto do avesso. Tirou folha por folha dos cadernos da escola, vasculhou entre os sapatos, dentro dos bonecos onde Ana guardava antigas cartas de namorados, desmanchou-os todos, levantou o colchão. "Não descobri".

Foi Ana quem, já no centro, e antes de uma ida a casa, telefonou à mãe a fazer um pedido. Disse-lhe para ir à coluna do quarto tirar a lâmina que lá estava escondida. A mãe ficou atónita: "Coluna?" E foi disparada desmanchar as colunas do computador: "Tudo, peça por peça. E nada, não encontrei nada". Desesperada, pediu ajuda à filha mais nova: "Filha, ajuda a mãe a pensar. A lâmina está escondida na coluna, o que é uma coluna?". A lâmina estava, afinal, dentro da saída de som, encaixada na parede, que existe no quarto de Ana. Trata-se do sistema de som que percorre toda a casa.

Violência autodirigida, automutilação, auto-agressão, o conceito pode variar de acordo com os autores que o estudam. Alguns preferem o termo auto-agressão à designação automutilação, por entenderem que esta se refere à mutilação de um membro em vez de cortes, queimaduras e outras formas de ferir a superfície da pele.

"Não existe definição consensual", diz o psiquiatra Diogo Frasquilho Guerreiro, que está a fazer um doutoramento sobre o tema. Pode incluir jovens que se cortam ou se queimam deliberadamente, saltam de alturas, batem a si próprios, ingerem objectos, muito comummente cortantes, ou medicamentos, álcool, e drogas em excesso, sempre com o intuito de se magoarem. De uma forma geral, o mais frequente é a destruição deliberada da superfície corporal, através de cortes, queimaduras ou beliscões, por exemplo.

Também Diogo Frasquilho Guerreiro fez, nos últimos dois anos, em conjunto com Daniel Sampaio e Maria Luísa Figueira, do departamento de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Lisboa, um estudo sobre comportamentos autolesivos em jovens entre os 12 e os 20 anos da Grande Lisboa. Os resultados, ainda preliminares, indicam que 7% dos jovens já realizaram pelo menos uma vez comportamentos autolesivos e 10% já pensaram nisso. Merece, porém, uma atenção distinta quem o realiza não como uma experiência isolada, mas repetidamente: 3,5%.

Neste estudo, as sobredosagens foram, depois dos cortes e das queimaduras, as formas de autolesão mais comuns. Verificou-se ser um acto impulsivo, que quatro em cada cinco jovens o fazem em segredo, e só um em cada cinco pede ajuda. Apesar de, na maioria das vezes, os jovens não terem como intenção o suicídio, dois em cada cinco referem ter tido períodos em que queriam mesmo morrer.

Foi o caso de Ana, de Leonor, de Maria e de Rui. Todos eles tiveram, em algum momento, vontade de desistir da vida. Apesar, porém, de estar associado a um grande sofrimento interior, o que define este comportamento, segundo Margarida Gaspar de Matos, é o querer magoar-se a si próprio de propósito, com o objectivo de se acalmar e gerir emoções, e não uma ideação suicida.

Tal não significa, contudo, que estes jovens não tenham maior propensão para cometer suicídio, para além de estarem sujeitos ao risco de um desfecho trágico por acidentalmente cortarem uma veia. "A presença deste tipo de comportamentos é um factor de risco comprovado para suicídio completo. É um sinal. É vulgar a ideia de que estes comportamentos são "só para chamar a atenção"... Mesmo nos casos em que é assim, estes jovens têm risco aumentado de suicídio", frisa Diogo Frasquilho Guerreiro.

Antes de ir para o centro, Ana já "não tinha expressão no rosto, não tinha vida no olhar", conta a mãe. Começou a ir a pedopsiquiatras ainda menina, e, aos nove anos, já ia para as consultas "sem vontade de viver".

Até aos 15, recupera algum fôlego, mas, com a entrada na adolescência, tudo piora. Vai a psicólogos, pedopsiquiatras, psiquiatras, toma medicação. Cada vez mais medicação. Mas os medicamentos já não resultam e, quando Ana chega aos 18, "tudo explode".

A jovem, que revela ser desde nova muito perfeccionista, começa a recorrer cada vez mais à automutilação. À semelhança de outros testemunhos, basta qualquer coisa não acontecer como o desejado, "basta um desentendimento com o namorado, para se cortar", diz a mãe.

"Cada vez há mais cortes. Ela deixa de poder ficar sozinha em casa, porque eu tenho medo que lhe aconteça algo. A minha vida era ir buscar a mais pequenina [irmã mais nova de Ana] à escola, e vir a correr com medo daquilo que pudesse encontrar em casa", acrescenta.

Só depois de Ana ter ido para tratamento é que a mãe começou a dormir. Até lá, passava as noites em branco, a fumar, a beber café, a comer na cozinha. Sempre com medo que Ana acordasse e fizesse mal a si própria. Mudou-se para o quarto ao lado. Quando não conseguia aguentar mais e se deitava a descansar, punha o despertador para acordar de hora em hora. Quando ia ao supermercado, conseguia encher um carrinho em cinco minutos. Não se ausentava de casa por muito tempo. Meteu baixa para tomar conta dela, para estar perto.

Não esconde as dificuldades por que passou: "Não há ajudas, apoios para este problema". Sentiu-se muitas vezes desamparada, nem saber o que fazer: "Várias vezes... Quase todas as vezes."

Baixar a irritação e a ansiedade, sentir adrenalina, procurar alívio e autopunição são algumas das justificações apontadas pelos jovens, na investigação feita por Margarida Gaspar de Matos.

Diogo Frasquilho Guerreiro encontrou jovens que queriam saber se alguém gostava deles; que desejavam vingar-se ou assustar alguém; que pretendiam chamar alguma atenção; ou que tinham vontade de morrer. As razões podem ser múltiplas, "a intenção que conta é querer magoar-se a si próprio", ressalva o psiquiatra.

Apesar de cada caso ser um caso, o que os especialistas percebem é que quase todos estes adolescentes têm não só dificuldade na expressão das emoções, como recursos mais fracos para lidar com o stress.

A primeira vez que Leonor, veterinária de 33 anos, se recorda de se ter cortado foi aos 16 anos. Não se lembra do que pensou na altura, de onde lhe veio aquele impulso. O que sabe é começou com uma "birra" com o namorado que tinha então. É quase sempre assim, ou foi quase sempre assim, porque entretanto Leonor já fez dois tratamentos e hoje sente-se "mais positiva".

"Sei que tivemos uma guerra qualquer. E aquilo foi uma chamada de atenção. Não o fiz à frente dele, mas de alguma forma, sim, queria que ele visse e consegui isso, que se preocupasse".

Os cortes aconteciam sempre que havia um "desacordo qualquer" que deixava Leonor muito frustrada. "Normalmente, há uma frustração e eu não consigo resolver determinado conflito." É-lhe difícil, por exemplo, pedir desculpa e andar para a frente, "deixar aquilo por ali". "E se a outra pessoa passa a ter pena de mim, a preocupar-se comigo, quase que quebra ali imediatamente a discussão, aquele mau ambiente", diz.

Dessa vez, estava em casa do namorado. "Não sei por que tivemos a discussão. Sei que se prolongou até altas horas da noite. E, a certa altura, não conseguia sair dali." Foi para a casa de banho e cortou-se com uma tesoura pequenina no braço.

"Ao longo destes anos todos, esteve sempre muito ligado a relações. A frustrações associadas a relações que tenho". Leonor acredita que o distúrbio alimentar que tem - é anoréctica e bulímica em recuperação - e a automutilação estão relacionados: "Sei que é uma grande falta de aceitação que tenho para comigo. É assim há muitos anos, auto-estima muito baixa."

Só da segunda vez é levou o tratamento a sério, e agora sente-se melhor. Não quer pensar mais em automutilação. Procura outras estratégias para reagir à frustração, como pegar no telefone e falar com alguém, por exemplo.

As cicatrizes de Leonor não se notam muito. Pelo menos, as que tem nos braços. Porque também as tem na barriga, nas pernas, nas nádegas. Pesa cerca de 43 quilos, mas já pesou menos - 37, quando tinha 25 anos.

Já as cicatrizes de Rui notam-se bem, algumas são tão grandes e profundas que tiveram de levar pontos. Tem o corpo todo assim: as pernas, o peito, a barriga. Cortava-se no sótão, onde tem o computador e as suas tralhas, e no quarto. Usava panos velhos para estancar o sangue, limpava, escondia tudo. Durante dois anos, usava t-shirts de manga comprida, os pais nem sonhavam: "Não andávamos atrás dele para ver como ele se estava a lavar", justifica a mãe.

Quando descobriu, a mãe de Rui, à semelhança da de Ana, também passou a esconder os objectos cortantes que havia em casa. Fazia vistorias ao corpo, às gavetas do filho, mas Rui arranjava sempre maneira, nem que fosse partindo o plástico de uma esferográfica.

Na Internet, encontrou avisos de que acabaria por ir parar ao hospital: "Pensamos que isso não vai acontecer, mas acontece". Rui esteve lá, mais do que uma vez, por se ter cortado demasiado, e por duas tentativas de suicídio. A certa altura, já não era só a escola, eram as decepções com amigos, os desgostos de amor... Era tudo, uma bola de neve. Chegou a estar internado.

Quando estava mais nervoso, os cortes eram piores, mais fundos. Fazia-o, porque "a dor emocional" era "tanta" que só com uma dor física a conseguia iludir: "A vida tem o lado bom e o lado mau. Eu lidava pessimamente com o mau", admite. Recorda-se de ficar num estado de "relaxamento total absoluto" quando se cortava: "Começava por sentir calafrios e, depois, ficava relaxadíssimo. Via o sangue a correr, o corte, a dor... No início do corte, sentia o coração a bater, a bombear, tinha mesmo arritmias esquisitas. Depois, quando parava e ficava a olhar, sentia-me muito aliviado".

As famílias descobrem quase sempre por acidente e, quase sempre também, "entram em pânico": "É uma situação de muito stress. Os pais ficam muito angustiados, põem muitas vezes uma pressão desgraçada sobre o adolescente. Mas a mensagem a passar é: resolve-se", esclarece Diogo Frasquilho Guerreiro.

A automutilação é mais frequente na adolescência porque esta representa "um esforço gigantesco de adaptação, de procura de identidade", diz o psiquiatra. O psicólogo Eduardo Sá acrescenta que, nesta etapa da vida, os jovens sentem-se numa "terra de ninguém": não são crianças, nem adultos. Por ser uma altura cheia de "mudanças súbitas", pode levar a "níveis de sofrimento muito grandes, com os quais os pais têm por vezes dificuldade em lidar": "Mas, na automutilação, o nível de sofrimento é mais agudo, são ouriços assustados", ilustra.

A maioria dos jovens consegue, porém, superar o impulso da automutilação, seja porque conhecem alguém que lhes abre uma nova perspectiva, seja porque crescem e aprendem a resolver os conflitos por si. Mas há casos que chegam à idade adulta, passando do corte para a sobredosagem: "Na maioria dos casos, resolve-se, ou espontaneamente ou com ajuda profissional. Numa minoria, os comportamentos podem manter-se na vida adulta, com consequências muito graves, inclusive suicídio", alerta Diogo Frasquilho Guerreiro, frisando que há situações em que é imprescindível procurar ajuda especializada o mais cedo possível.

Essencial parece ser falar, identificar as dificuldades e procurar soluções. Mas há famílias, contam os especialistas, em que a comunicação é praticamente inexistente, e nem sempre é por falta de preocupação ou de afecto. São, por vezes, situações em que nem pais nem adolescentes sabem conversar sobre angústias: "Em alguns casos, ninguém sabe o que se passa com os membros da família. E os jovens devem ser educados a falar sobre as ansiedades e os sentimentos, é meio caminho andado para deixarem estes problemas", diz Diogo Frasquilho Guerreiro.

Em teoria, faz sentido, mas a prática é um exercício bem mais delicado. Os pais de Rui, por exemplo, consideram-se atentos e preocupados, e não demasiado exigentes: "O pai é sério e acha que se tem de estudar e ter um rumo na vida. Tentava incutir isso no filho. Às vezes, dizia-lhe aquelas coisas como "não sais daqui enquanto não estudares", mas tudo sem violência...", conta a mãe.

Quando perceberam o que se estava a passar, a primeira pergunta que fizeram - e fizeram-na também ao psiquiatra - foi: "O que estamos a fazer mal? Fomos nós que falhámos?". O psiquiatra sossegou-os, desdramatizou, explicou-lhes que há saída.

O pai continua a "martirizar-se um pouco" com o que aconteceu. Apesar de se esforçar por não entrar em conflito com o filho, ainda hoje se angustia por este não ter completado o 11.º ano, nem tencionar para já fazê-lo - Rui quer trabalhar. Aflige-o pensar que, um dia, ele e a mulher podem não estar cá para ajudar o filho, seja no que for: "Temos receio que, perante uma frustração, ele se magoe, faça mal a si próprio. Medo do pior. Queremos que ganhe capacidade de pedir ajuda", diz a mãe.

Afinal, a que sinais pode a família estar atenta? "É preciso ver se os jovens têm dificuldades de comunicação. Se são como que invisíveis e fechados sobre eles", diz Eduardo Sá. "Muitas vezes, os adolescentes apresentam sinais de mal-estar na família, na escola ou com os amigos", nota Diogo Frasquilho Guerreiro.

Margarida Gaspar de Matos acrescenta: "Quando os pais começam a ver que, de modo sistemático, o jovem toma um comportamento de tensão, retraimento, isolamento, conflituosidade, desistência, abatimento, e quando isso começa a ser uma característica saliente e permanente da sua maneira de ser habitual, por vezes oscilando entre o tenso e o abatido, então pode estar a passar por um período de vida em que está a ser ultrapassado pelas circunstâncias e pode estar a precisar de ajuda".

Eduardo Sá frisa que é preciso perceber se aquele jovem já se sente "na pré-reforma em relação à vida": "São adolescentes que sentem uma dor que não conseguem gerir, uma dor que os mortifica por dentro".

Marta Reis, que também é investigadora na equipa de Margarida Gaspar de Matos, salienta outros sinais muito precisos: reparar se repetidamente os adolescentes não praticam ginástica ou a fazem com t-shirts de manga comprida; se, mesmo com calor, não vestem calções nem saias; e se passam muito tempo na casa de banho. "Os pais podem estar atentos, abrir-se ao diálogo, mas sem serem demasiado intrusivos, nem quererem controlar o corpo e os espaços do adolescente", alerta, no entanto, Margarida Gaspar de Matos.

Já o tratamento, que varia consoante o caso que se tem à frente, pode passar, entre outras soluções, não só por facilitar a comunicação na família, como por encorajar o jovem a encontrar outra forma de expressar as emoções: "É um processo que envolve vários parceiros, nomeadamente a família e a escola", diz Diogo Frasquilho Guerreiro.

Aumentar a auto-estima, a confiança, a capacidade para resolver problemas, e investir também na rede social de apoio, tendo vários amigos em diferentes grupos, são algumas das expressões-chave usadas por Margarida Gaspar de Matos, que recorre a uma metáfora para mostrar como se opera a transformação: "Há uma diferença entre autocontrolo e auto-regulação das emoções. A primeira é nadar contra a corrente, sempre em esforço, o que pode levar a um esgotamento do eu. A segunda é pôr-se a boiar enquanto se respira fundo e se pensa no problema. É um esforço interiorizado, feito em equilíbrio".

Hoje, para além de ter posto "uns óculos novos" para ver a realidade, quando está mais em baixo, Rui pinta, faz algum trabalho manual ou um quebra-cabeças. E passou a usar t-shirts de manga curta, sem se incomodar com os olhares das pessoas. Mas já reparou que, por vezes, há quem não se sente ao seu lado no autocarro, quando vê as marcas nos braços.

Apesar de agora se vestir de preto e gostar de metal, na altura em que se começou a cortar, Rui não tinha este estilo. E foi só depois de a espiral já estar em crescendo que passou a ser emo - tribo urbana por vezes identificada com a prática da automutilação. Foi uma fase passageira.

Diogo Frasquilho Guerreiro insiste que é preciso destruir o mito de que esta prática tem algo a ver com a música ou com o visual dos adolescentes: "Ocorre em todos os grupos e subculturas de adolescentes", garante, acrescentando que alguns se isolam de tal forma que nem devem ouvir música de qualquer espécie.

São, regra geral, adolescentes a quem os problemas parecem insuperáveis. Rui - como todos os outros jovens ouvidos para este trabalho - conhece bem esse lugar de desalento. Mas, hoje, com o apoio do psiquiatra e também com ajuda de medicação, descobriu "uma nova filosofia de vida": "Sou uma pessoa nova, iniciei uma nova fase. Não escondo que tenho recaídas, são impulsos, mas tenho muito mais controlo. Antes, começava a pensar em cortar-me e cortava-me logo. É como um fumador. Hoje faço todos os possíveis por evitar".

A transformação demorou anos, não aconteceu de um dia para o outro: "Demorei algum tempo, mas consegui frutos. Demora o tempo que demorar, o que interessa é nunca desistir, nunca. Os que estão à volta só podem fazer 10% do trabalho, é o próprio que tem de fazer os restantes 90%. Mas a recuperação é maravilhosa. Vale a pena", garante.

Maria, de 28 anos, já soma quatro tratamentos - o último no Villa Ramadas. Morena, alta, robusta e com ar saudável: a aparência física de Maria está longe de contar o seu passado de drogas, distúrbios alimentares, jogo e automutilação. Com uns olhos castanhos vivos, só mesmo quando mostra uma ou outra cicatriz mais profunda é que percebemos que quem está diante de nós já foi outra pessoa.

Chegou àquele centro porque a mãe "já não aguentava mais". Nem ela. Já não se suportava a si, às drogas, aos cortes, às tentativas de suicídio, aos problemas com comida, com jogo.

Foi aos 10 anos, quando começou a inalar gás, que descobriu também a automutilação. Pegou numa faca e enfiou-se debaixo da secretária que tinha no quarto. Cortou-se e deixou o sangue correr até fazer uma poça no chão. A irmã viu e foi a correr contar à mãe. Nessa fase, Maria só queria chamar a atenção.

Segue-se uma adolescência atribulada, com fugas de casa, drogas. Chegou a viver na rua. Nunca se prostituiu, mas teve tantos parceiros sexuais que engravidou e não sabia quem era o pai: "O bebé morreu com 10 semanas dentro da minha barriga". Foi parar ao hospital, com problemas no útero.

Durante todo este tempo, se houve fases em que não se cortou, houve outras em que o fazia todos os dias. No braço esquerdo há uma cicatriz que se destaca, porque Maria cortava-se muitas vezes na mesma ferida, já nem lhe doía. Quando começou a cortar-se com mais força, já não queria chamar a atenção, mas suportar a existência: "Sentia-me aliviada e, quando tinha dores de alma, precisava de ver o sangue. Porque sentia uma tranquilidade enorme quando via o sangue cair para baixo".

Ao mesmo tempo, gostava de se castigar: "Achava que não merecia outra coisa. Se calhar, foi por aí. Porque me sentia mesmo mal, mal, mal. E com uma culpa enorme dentro de mim, com a qual eu não conseguia lidar. Não conseguia aguentar o meu passado. Nem o presente. Achava que era isso que eu merecia. Tinha de me automutilar, de me magoar a mim mesma. Para me sentir melhor por dentro, com o meu interior, com a alma", justifica.

Também Ana acabou por ceder e aceitar que precisava de ajuda especializada. Quando se senta, muito direita e tímida, a conversar connosco, não parece ter 19 anos. Parece uma menina. Uma menina frágil, de cabelos compridos, com uma cara angelical.

Passou a infância e a adolescência sem gostar do seu corpo, de si, da vida. Por isso, cortava-se. Hoje, e com a ajuda do tratamento, já não se sente dominada por esta vontade de se magoar. Mas, durante muito tempo, era a primeira coisa em que pensava quando acordava. Todos os dias. Sentia-se aliviada. "Nunca consegui sentir dor física, porque a dor interior era muito grande. Nunca, nunca me custou. O que alimentava aquela opção era eu saber que a seguir a me cortar vinha o sangue, e o sangue, a cor do sangue, aliviava-me. É ridículo, mas dava-me prazer. Hoje consigo ver que é ridículo. Mas dava-me prazer o sangue. No fim, eu brincava com o sangue. Sujava os lençóis com sangue, a roupa com sangue, abanava o braço para o sangue ir escorrendo."

Ana lembra-se bem do dia em que percebeu que sozinha não conseguia. Era Janeiro e estava em pleno ano lectivo, no 12.º ano. Nessa manhã, tinha faltado às aulas para ir à psiquiatra pedir mais medicação. "Manipulava" a médica, acrescentava sintomas, tudo para que lhe receitassem o que de mais forte houvesse. Nesse dia, não conseguiu. A psiquiatra disse-lhe que chegava de remédios, que ela já tomava de mais e há demasiado tempo para a idade dela. Sentiu-se frustrada.

Saiu do consultório para ir almoçar com a mãe, que notou que ela não estava bem. Encostou o carro e pediu-lhe sinceridade. Perguntou-lhe se queria ir para um tratamento. Ali mesmo, Ana cedeu e respondeu: "Eu não consigo mais, mãe. Quero ir". E assim foi. Foram juntas anular a matrícula na escola e tratar da entrada de Ana no Villa Ramadas. "Custou-me, mas foi melhor. E hoje estou muito grata à minha mãe. Se não fosse ela a ter aquela conversa comigo, não sei onde é que estava. Não sei mesmo onde é que estava".

No centro, chegou a ter vontade de se cortar, mas nunca o fez. "A princípio, era uma obsessão que eu tinha. Tinha sempre ideias para arranjar coisas para me magoar, como partir o espelho da casa de banho ou usar a prancha do cabelo da minha colega para me queimar". Valeram-lhe as reuniões de grupo: "À medida que fui falando sobre isso, as vontades iam desaparecendo. O que sinto é que, quando estou mal e não falo, elas voltam. Quando falo, elas não voltam".

Ana é a única que inclui na sua narrativa de vida um episódio que lhe trouxe alguma mágoa: os pais divorciaram-se quando ainda não tinha dois anos, e ela e o pai afastaram-se cada vez mais desde então.

Os especialistas alertam, contudo, para o facto de, mais do que a existência de uma circunstância particular na nossa vida, o que importa sobretudo é a forma como lidamos com ela. Para o psicólogo Eduardo Sá, o que um episódio traumático faz é pôr em causa "os recursos acumulados até aí e as relações que temos, com a família e com os pares", para o superar. Dito de outra forma: há quem consiga ultrapassar as circunstâncias e quem se sinta ultrapassado por elas. Mas a mensagem de quem estuda o tema é de esperança: a maior parte das vezes a automutilação na adolescência supera-se. Vale a pena, porém, pedir ajuda.

Os nomes dos jovens são fictícios