A escuridão de um bosque onde se entra sem guia na Cornucópia

Estreia de um texto de José Tolentino de Mendonça em que Luís Miguel Cintra é um cego que questiona os caminhos que dizemos querer seguir.

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O quadrado branco há-de ser ocupado por Luís Miguel Cintra, como que à espera que algo o leveEsta é a primeira peça do 40.º aniversário da Cornucópia fotos: dr

Numa das paredes da sala do Teatro da Cornucópia está, há anos, um relógio, criado por Cristina Reis para a peça Cimbelino (2000). É só um desenho e, por isso, as horas que ali estão marcadas são horas de um tempo que não existe. Que é ficcional. Mas se for verdade o que se diz, então pelo menos por duas vezes ao dia aquele relógio desenhado dará as horas certas.

Por momentos, aquele relógio, memória de outros tempos, é iluminado como se fosse por aquele tempo dentro que se pudesse entrar num bosque sem árvores, só com um poço e uma escada ao fundo, como aquelas sobre as quais ninguém pergunta aonde levam. E pedras, como marcas de um trilho que alguém deixou. E homens, dois mais novos, um com nome de apóstolo, Pedro, e outro com o nome de um dos escolhidos de Deus para guiar o povo judeu, Jacob. Há ainda um homem mais velho, eremita, guardião, cego, para o qual se não pode olhar, porque não se deve olhar quem não nos vê, ensina Luís Miguel Cintra, que é esse cego para quem se olha como se fosse a carne da metáfora "descaradamente poética" que José Tolentino Mendonça escreveu e que desde dia 7 a Cornucópia apresenta.

O Estado do Bosque, segunda incursão teatral (a primeira foi em 2005, com Perdoar Helena, produção do .lilástico e Artistas Unidos no Teatro Taborda) de José Tolentino de Mendonça, é uma parábola, às vezes um auto-de-fé pelo modo como julga, insidiosamente, os vícios de quem nela arde. E, por vezes, exaltação, porque celebra o desejo de quem procura sem esperar que sejam as metas a definir para onde se vai. "Nunca existem viajantes, só existe a viagem", diz o cego, a dada altura, como quem evoca Kavafis e a mítica Ítaca de Ulisses. O Estado do Bosque, diz Cintra, cioso de um texto que sugere que o denso bosque possa ser a Tebas que Pasolini imaginou em Édipo Rei e o deserto clemente onde vogaram os apóstolos do Evangelho Segundo São Mateus, é tão denso que no negro que Cristina Reis cenografa e ilumina, nos arriscamos a ver caminhos onde só há soberba.

Um texto que é um enigma

Não há nesta elegia "qualquer preocupação de intelegibilidade", diz Cintra, para quem Tolentino de Mendonça "tem coragem de escrever um texto que é um enigma, atribuindo um trabalho enorme a quem quiser entrar na peça". É o contrário do mercado, do facilitismo, até do que se espera que seja, aos 40 anos, uma companhia a explicar o que ainda tem, quando ainda quer falar para o que vem. É a primeira peça da Cornucópia no ano em que celebra 40 anos.

É uma peça escrita para este actor, Luís Miguel Cintra, que também encena e que por isso só podia ser um cego que nos guia há tanto tempo que nos esquecemos de perguntar se precisava, ele também, de ser guiado. E quantas vezes não viu, confessa Cintra, neste John Wolf um duplo do próprio Tolentino, como tantas vezes acontece na poesia, do mesmo modo que este cego nos traz à memória o cego que Cintra foi para Manoel de Oliveira em A Caixa (1994)? "Isto coincide muito com coisas que ele pensa. É preciso alguma preparação filosófica, confiança no próprio pensamento e confiança em Deus, se quisermos, para chegar à noção de Deus tendo primeiro destruído tudo para [depois] poder sentir a necessidade disso." E é daqui que surge a glosa que, no texto, se faz à oração "Pai Nosso que estais no Céu", substituindo "Pai" por "Nada"... E um Cintra deitado no chão, num quadrado branco de Inferno, como se esperasse que um raio o levasse.

"A peça não é apenas sobre a fé em geral. É sobre o próprio sacerdócio." Poeta-padre ou padre-poeta, pouco importa. Tolentino escreve, diz Cintra, "por convicção". Em nome da liberdade, dir-se-ia. Esse interesse, desapossado, foca-se na "inteligência do espectador", algo que interessa sobremaneira a Cintra. "Numa situação de crise ideológica, e quando as pessoas andam à procura de uma razão para viver, que não seja só subir na vida, ter dinheiro e outras coisas mais básicas, mas que seja um sentido da vida mais sério, por onde passa uma vivência cristã, que me aconteceu a mim."

É um texto cheio de armadilhas, de subentendidos, de não-ditos, de pistas. E de dúvidas. A personagem de Cintra chama-se John Wolf, nome que Tolentino deixa por esclarecer. Do mesmo modo que abre campo para que essa personagem se alimente, e fustigue. "John Wolf também se questiona, também tem dúvidas", diz, e o modo como vai pontuando - talvez mais do que isso, mas a escuridão guarda-lhe o rosto - as dúvidas dos outros, torna-o sujeito da própria peça. Ou seja, interrogação. "Não é uma peça tão explícita que aniquile pensamentos que precisem de uma figuração. É tudo muito delicado."

E é por isso que, na Cornucópia, a presença do texto não passa por uma exposição directa das coisas - chamemos-lhe coisas para lhes dar o seu carácter bruto, rude, a pedir um cinzel que as desmonte. A pedir um cego que nos guie. Escreve Cintra no programa: "Cada um falará como quiser, mas que se saiba o que cada um pensa e cada um saiba o que pensa, que não morramos como carne para canhão, como ignorantes de uma terrível realidade, aquela que agora se torna evidente, a de que como cidadãos somos mão-de-obra, quanto mais acéfala e burocratizada melhor, para ir enchendo os cofres do Estado que vai enchendo os bolsos de quem o não merece. E que sejamos infelizes ou não, pouco importa. Mas importa muito."