Mumford & Sons continuaram a invasão britânica dos Grammys

Numa cerimómia de celebração da indústria e aparato coreográfico, Adele passou o testemunho aos Mumford & Sons, que venceram o Grammy para Álbum do Ano.

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Mumford & Sons recebem o Grammy mais desejado Mike Blake/Reuters

À 55.ª edição, já sabemos o que esperar dos Grammys. Uma festa da indústria musical que se deseja grandiosa em ecrã televisivo, celebradora da sua história e das suas estrelas e conservadora perante um universo musical que, na última década, se transformou radicalmente.

Na cerimónia no Staples Center em Los Angeles, na noite de domingo, transmitida pela CBS, tivemos, em resumo, aparato coreográfico: Taylor Swift deu o mote, logo a abrir, com We are never ever getting back together em modo Cirque du Soleil.

Autocelebração: várias estrelas em palco para homenagear os desaparecidos MCA, dos Beastie Boys, Levon Helm, dos The Band, e o mito reggae Bob Marley. Ah, e claro, os premiados: os Black Keys festejaram três vezes nas categorias rock, os Mumford & Sons, por Babel, levaram o Grammy mais desejado, o de Álbum do Ano, e os Fun. acumularam as distinções de Melhor Novo Artista e Canção do Ano, por We are young.

No ano passado, Adele foi a rainha da noite, no que foi a confirmação da ascensão da britânica ao topo do estrelato nos Estados Unidos. Este ano, a British Invasion, notoriamente mais serena que a original protagonizada por Beatles ou Rolling Stones, teve continuidade. E foi a própria Adele, ela mesma vencedora de um Grammy na noite de ontem para Melhor Performance Pop a Solo (para a versão ao vivo de Set fire to the rain), que passou o testemunho. Foi das suas mãos que Marcus Mumford, dos Mumford & Sons, recebeu o galardão de Álbum do Ano – Babel, com 1,7 milhões de cópias, foi o quarto álbum mais vendido nos Estados Unidos em 2012. “Pensámos que não iríamos ganhar nada porque os Black Keys têm varrido tudo, e merecidamente”, declarou, bem-humorado, o vocalista.

Antes do início da cerimónia, um tema dominava ainda as conversas. Dias antes, a CBS emitira um memorando aos artistas, recomendando, neste mundo pós-mamilo exposto por Janet Jackson no Super Bowl de 2010, contenção na exposição de pele às câmaras. As transparências dos vestidos de D’manti ou da Destiny's Child Kelly Rowland, tal como o ombro e a coxa de Jennifer Lopez, foram uma pequena subversão das regras e geraram alguns comentários aquando da passagem na passadeira vermelha. Mas Grammys e subversão são, claramente, palavras que não combinam. Ainda para mais este ano, Kanye West, o mais célebre espalha-brasas em cerimónias televisivas, não esteve presente no Staples Center – coube a Jay-Z recolher os três Grammys (Melhor Colaboração Rap por No church in the wild; Melhor Performance Rap e Melhor Canção Rap para Niggas in Paris) que lhe rendeu a colaboração no álbum Watch the throne.

Num espectáculo televisivo há muito padronizado, o que nos lega mais um cerimónia dos Grammys? Enquanto curiosidade, temos o ar embevecido de Gotye ao receber o prémio de Gravação do Ano, para Somebody that I used to know, das mãos de um Prince de capuz. Na categoria “directamente para o YouTube” entrarão os Black Keys, acompanhados por duas lendas de Nova Orleães, a Preservation Hall Jazz Band e o mítico Dr John, vestido no seu melhor fato e chapéu de feiticeiro, na interpretação de Lonely boy. Ou Alicia Keys a tocar bateria na sua Girl on fire e o sempre fervilhante Jack White. E certamente Justin Timberlake, que apresentou Suit & tie, primeiro single do seu novo álbum (Jay-Z deu uma ajuda), e revelou outra das novas canções, Pusher love girl, acompanhado por uma big band, JT and the Tenessee Kids, e inserido num cenário de big band dos anos 1940 – para o efeito ser total, os telespectadores viram durante alguns minutos a imagem deixar as cores e passar a sépia e preto e branco.

No caso de Justin Timberlake, assistiu-se ao profissionalismo cool, pensado ao pormenor, nele habitual. No caso de Frank Ocean, uma das revelações do ano com o épico soul/r&b channel orange – primeiro vencedor de uma nova categoria, Melhor Álbum Contemporâneo de Urban Music –, tivemos o oposto. De fato amarelo e fita na cabeça a condizer, arriscou uma versão modificada de Forrest gump, falhou um par de notas e o louvor ficou reservado, mais que para a interpretação, para a vontade de introduzir alguma dose de risco na cerimónia.

Os Grammys 2013, os Grammys de sempre. Celebrou-se o sangue novo da indústria exangue. E registaram-se fotos de família nas homenagens a nomes que a ajudaram a construir. Aconteceu no encontro intergeracional de Elton John, T Bone Burnett e Mavis Staples com Brittany Howard, dos Alabama Shakes, ou membros Mumford & Sons, para recordar Levon Helm, o baterista da The Band, ao som de The Weight. Aconteceu quando Sting, Bruno Mars, Rihanna, Ziggy e Damian Marley se uniram para recordar o nome mais famoso do reggae. Ou, já no final, com o apresentador LL Cool J a chamar Chuck D, dos Public Enemy, ou Tom Morello, dos Rage Against the Machine, para evocar Adam “MCA” Yauch, com No sleep till Brooklyn. Enquanto cantavam, a CBS passava os créditos finais da transmissão. Business, as usual. Para o ano, há mais.